— Então, foi como o Dr. Sagan disse no artigo no New York Times — disse Tachyon —, que o Dr. Warren concentrou-se numa rocha que cai ao lado da Terra em intervalos regulares e a recobriu com perigo.
Berg franziu a testa.
— Com todo o respeito, Dr. Sagan se enganou dessa vez. Senhores, o Dr. Warren tinha uma capacidade infinita de autoilusão, mas não era apenas um bobo que o Informer tirou da Seventh Avenue. Ele sabia como usar uma efeméride, certamente tinha conhecimento do histórico do 1954C-1100. Era um astrônomo treinado e, no que diz respeito a detalhes técnicos e observacionais, muito bom mesmo. — Ele balançou os cabelos desgrenhados. — Como ele se persuadiu a acreditar nessa maluquice sobre o Tezcatlipoca, só Deus para saber.
O Viajante estava limpando os óculos na sua fantástica gravata-borboleta.
— Alguma chance de ele estar certo, cara?
Berg riu.
— Me perdoe, Capitão. Mas a mais nova aproximação do Tezcatlipoca foi vista e traçada há oito meses por astrônomos japoneses. De fato, haverá uma intersecção com a rota orbital da Terra, mas bem longe do planeta em si.
Ele se levantou, ajeitando o suéter que subira até o meio da barriga.
— É uma pena, senhores. Ah, não isso aqui — disse, batendo na pança incipiente —, mas o desserviço que Fred fazia aos colegas cientistas. Nossos instrumentos são muito mais sofisticados do que aqueles que existiam na última vez que o Tezcatlipoca passou, em 1970. E, ainda assim, qualquer astrônomo que ousar apontar seu telescópio na direção dele terminará sendo confundido com Däniken e Velikovsky eternamente.
Era tarde da noite. Tach estava sentado, caído numa cadeira em seu apartamento num terno de smoking marrom e na penumbra, ouvindo Mozart em violinos, bebericando uísque, e ficou muito emotivo quando o telefone tocou.
— Doutor? Sou eu, Mark. Descobri algo.
O tom na voz do amigo atravessou a neblina de uísque como uma mangueira de incêndio.
— Sim, Mark, o que é?
— Acho que é melhor vir e ver você mesmo.
— Estou indo.
Quinze minutos depois, ele estava no andar acima do Cosmic Pumpkin, boquiaberto e paralisado.
— Mark? Você tem um laboratório completo em cima da loja?
— Não está completo, cara. Não tenho nenhum equipamento real em escala grande, nem microscópios de elétrons, nem nada disso. Apenas o que consegui recolher durante os anos.
Parecia um cruzamento de laboratório de Crick e Watson e um apartamento riponga de 1967, enfiado num espaço pouco maior do que uma despensa. Diagramas de filamentos de DNA e polissacarídeos dividiam a parede com pôsteres dos Stones, Jimi, Janis e, claro, o herói de Mark, Tom Marion Douglas, o Rei-Lagarto — uma pontada de dor aqui para Tom, que ainda se culpava pela morte de Douglas em 1971. Ferramentas de um bioquímico terrestre eram mais familiares a Tach do que as de um astrônomo, então ele reconheceu ali uma centrífuga, um micrótomo e assim por diante. Muito daquilo foi bastante utilizado antes de passar para as mãos do Viajante, alguns eram improvisados, mas todos pareciam úteis.
Mark estava com um jaleco, parecia sinistro.
— Claro, não precisava de nada muito sofisticado, assim que vi a cromatografia a gás naquela amostra de tecido.
Tach piscou e balançou a cabeça, percebendo que a grande peça espiralada do equipamento cuja identidade ele tentava imaginar no último meio minuto era, possivelmente, o bongo mais intrincado do mundo.
— O que você descobriu? — perguntou.
Mark passou para ele um pedaço de papel.
— Olha, não tenho dados suficientes para confirmar a estrutura daquela cadeia proteica. Mas a composição química, as proporções…
Tachyon sentiu como se uma moeda estivesse sendo puxada da sua nuca pela coluna abaixo.
— Biomassa do Enxame — ele suspirou.
Mark apontou para um pacote de papéis na bancada.
— Você pode verificar as referências ali, análises da invasão do Enxame. Eu…
— Não, não. Confio no seu trabalho, Mark, mais do que no de qualquer pessoa, exceto no meu. — Ele balançou a cabeça. — Então, brotos mataram o Dr. Warren. Por quê?
— Que tal sabermos como, cara? Pensei que os brotos eram coisas imensas, como num filme japonês de monstros.
— De primeiro, sim. Mas uma cultura de Enxame… uma Mãe… como dizer?… evolui em resposta aos estímulos. Seu primeiro ataque de força bruta fracassou. Agora ele refina sua abordagem… como já alertei aqueles tolos em Washington que poderia fazer, o tempo todo. — Sua boca se apertou. — Suspeito que agora ele esteja tentando emular a forma de vida que o repeliu antes. É um padrão comum para esses monstros.
— Então, você já tinha muita experiência com essas coisas.
— Eu, não. Mas meu povo, sim. Eles são, como eu poderia dizer, nossos inimigos mais cruéis, essas criaturas do Enxame. E nós, os deles.
— E agora eles estão, tipo, infiltrados entre nós? — Mark estremeceu.
— Acho que estão a caminho de poder passar despercebidos. Ainda assim, algo me perturba. Em geral, nesse estágio de uma incursão do Enxame, eles não são tão seletivos.
— E por que pegaram o pobre Fred?
— Você começa a soar como aquela mulher horrenda, meu amigo. — Tach sorriu, dando tapinhas no ombro do outro. — Espero que encontremos a resposta a essa pergunta quando rastrearmos esses horrores. Que é a próxima coisa que faremos.
— E Doughboy?
Tach suspirou.
— Você está certo. Vamos ligar para a polícia, logo pela manhã, e contaremos o que descobrimos.
— Eles nunca vão acreditar nessa história.
— Mas posso tentar. Descanse, meu amigo.
Eles não acreditaram na história.
— Então, o senhor encontrou tecido de broto no laboratório de Warren — falou ríspida a tenente de homicídios da área sul, responsável pelo caso. Por telefone, ela parecia jovem, porto-riquenha, incomodada, e como se no momento não amasse Tisianne brant Ts’ara, da Casa Ilkazam. — O senhor está bastante interessado neste caso para uma testemunha médica perita, doutor.
— Estou tentando cumprir minha obrigação cívica. Impedir que um homem inocente sofra ainda mais. E, casualmente, alertar as autoridades competentes quanto ao perigo assustador que pode ameaçar este mundo inteiro.
— Compreendo sua preocupação, doutor. Mas sou uma investigadora de homicídios. A defesa planetária não é da minha alçada. Até para ir ao Queens eu preciso conseguir permissão.
— Mas resolvi um homicídio para a senhora!
— Doutor, o caso Warren está sob investigação pelas autoridades competentes, que somos nós. Temos uma testemunha que identificou o Doughboy saindo da cena bem na hora.
— Mas as amostras de tecido…
— Talvez estivesse criando numa placa de Petri. Não sei, doutor. Nem eu tenho a credencial de qualquer um que tenha identificado esse suposto tecido de brotos…
— Garanto que sou um especialista em bioquímica alienígena…
— Em muitos sentidos.
Ele se afastou um pouco do fone; de forma perversa, estava começando a gostar daquela mulher.
— Não estou dizendo que duvido do senhor, doutor. Mas não posso apenas dar um aceno e liberar o homem. Depende do advogado jurisdicional. Seja lá o que o senhor tenha, leve para o advogado do Doughboy e peça para ele apresentar. E, se o senhor realmente encontrou mais brotos, sugiro que leve-os ao general Meadows, na SPACECOM.
Que era o pai de Mark.
— E mais uma coisa, doutor.
— Pois não, tenente Arrupe.
— Saia do caso ou vou arrancar o senhor à força. Não preciso de amadores turvando ainda mais a situação.