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Crisálida olhou para ele com um rosto transparente e louças na mão.

— Algo estranho acontecendo no Bairro dos Curingas? — ela falou naquele sotaque britânico arrastado e hermafrodita. — O que faz você pensar que algo estranho poderia acontecer aqui?

Ele se sentou no fim do bar, bem longe dos habitués matutinos. Não era um perfeito estranho no Crystal Palace. Nunca relaxou de verdade ali, apesar de tudo.

— Não apenas no Bairro dos Curingas. Neste lado de Manhattan, a partir do sul de Midtown.

Ela baixou o copo que estava polindo.

— Está falando sério?

— Quando eu digo estranho, digo estranho para o Bairro dos Curingas. Não a última revolta na Jokers Wild. Nem o Sombra pendurando algum assaltante num poste pelos pés. Nem mesmo outro assassinato com arco e flecha por aquele maníaco com suas cartas de baralho. Algo que vai além das cercanias comuns.

— Gimli está de volta.

Tach bebericou o uísque com soda.

— É o que dizem.

— Quanto você está pagando?

Ele ergueu a sobrancelha.

— Inferno, não sou uma fofoqueira de janela! Pago pelas minhas informações.

— E são bem pagas. Eu já fiz minha contribuição, Crisálida.

— Sim. Mas tem tantas coisas que você não me diz. Coisas que acontecem na clínica… coisas confidenciais.

— Que permanecerão confidenciais.

— Tudo bem. Fundos de comércio nesta comunidade mutante são meus títulos nos negócios também, e você não precisa lembrar quanto é influente. Mas algum dia você irá longe demais, sua raposinha alienígena de cabelo metalizado.

Ele sorriu para ela. E foi embora.

Trim. Tach levantou a pálpebra de um olho. O mundo estava escuro, exceto pela neblina luminosa comum de Manhattan e, talvez, um pouco de luz da lua vazando através das cortinas abertas, prateando o traseiro feminino nu virado para cima ao lado dele na colcha marrom sobre seu colchão d’água. Ele piscou, grudento, e tentou se lembrar do nome da pessoa a quem aquela bunda pertencia. Era uma bunda realmente excepcional.

Trim. Mais persistente dessa vez. Uma das invenções mais satânicas do mundo, o telefone. Ao lado dele, o traseiro glorioso se mexeu levemente e um par de ombros se mostrou por trás de uma ponta do edredom.

Trrrr… Ele atendeu o telefone.

— Tachyon.

— É Crisálida.

— Contente em ouvi-la novamente. Tem ideia de que horas são agora?

— Uma e meia, que é mais do que você sabe. Tenho algo para você, querido doutor.

— Quem é, Tach? — resmungou a mulher ao seu lado. Ele deu um tapinha no traseiro, distraído, tentando lembrar o nome dela. Janet? Elaine? Saco.

— O que é? — Cathy? Candi? Sue?

Crisálida murmurou uma canção.

— Em nome do Ideal, o que foi? — ele exigiu. Mary? Malditos sejam Crisálida e seu murmúrio desgraçado.

— Uma canção que costumávamos cantar, quando eu estava no acampamento, “Johnny Rebeck”.

— Você me ligou à uma e meia da manhã para me cantar uma música de fogueira? — Belinda? Estava começando a passar dos limites.

— E todos os gatos e cães do vizinho nunca mais foram vistos/Todos eles eram moídos pra virar salsicha na máquina de Johnny Rebeck.

Tach sentou-se.

— O que é? — a mulher ao seu lado perguntou, agora petulante, virando-lhe um rosto mascarado com cabelos escuros e amassados.

— Você conseguiu alguma coisa.

— Como eu lhe disse, meu amor. Não do Bairro dos Curingas, mas nas cercanias. Nas proximidades de Division, perto de Chinatown. Cães e gatos desaparecendo… vira-latas, cães com dono; pessoas nessas partes não estão preocupadas com as leis da coleira. E pombas. E ratos. E esquilos. Muitos quarteirões estão simplesmente vazios da vida selvagem urbana comum. Tirando as piadas sobre a cozinha oriental, acho que isso poderia ser qualificado como evento estranho.

— Claro. — Meus ancestrais, como assim?

Ela ronronou.

— Você me deve uma, Tachyon.

Ele estava balançando as pernas para fora da cama, desejando, em nome da cortesia, lembrar-se do nome da jovem para poder mandá-la embora.

— Com certeza.

— E, a propósito — Crisálida disse —, o nome dela é Karen.

— Doutor — disse o Viajante através de uma nuvem de sua própria respiração —, você tem ideia do que Brenda me chamou quando eu telefonei para ela para cuidar de Sprout a essa hora da noite?

Desde que conheceu Mark, havia semanas, foi a primeira vez que ouviu dele uma reclamação de qualquer tipo. Ele se compadeceu.

— Não quero nem imaginar, querido Mark. Mas isso é crucial. E sinto que não temos tempo a perder.

Mark curvou-se.

— Sim. Você tem razão. Doughboy vai ficar em lençóis piores do que eu jamais vi. Desculpe, doutor.

Tachyon olhou para aquele homem, um cientista brilhante cujos demônios pessoais o levaram a ruir para pouco mais que um indigente, e admirou-se honestamente. Ele bateu no braço do amigo.

— Não foi nada, Mark.

Não muito longe, os carros guinchavam sobre a ponte de Manhattan. Havia ali uma ruela escura numa parte nada impressionante da cidade, pequenas lojas e sombras e agiotas e casarões abandonados, prédios cinzentos em ruínas piscando aqui e ali com janelas quebradas à luz de um único poste de luz turva. Não era hora para estar ali fora, mesmo sem a perspectiva da ameaça sobrenatural.

— Pode ser apenas um alarme falso — disse Tach. — Quando Crisálida me falou sobre o desaparecimento de animais, me ocorreu que os brotos precisam de comida e, a menos que esta cultura avance mais rapidamente do que eu saiba, dificilmente poderiam comprá-la no mercado.

Ele parou, encarou o amigo, pegou-o pelo braço.

— Entenda isto agora, Mark. Pode não haver nada aqui. Mas, se encontrarmos o que estamos procurando, estaremos enfrentando um monstro parecido com os de filme de horror. Mas é real. É o inimigo de cada organismo vivo deste planeta e ele não tem escrúpulo nenhum.

Timidamente, Mark apontou para a frente no quarteirão.

— É algo parecido com aquilo ali, cara?

Tach o fitou por um momento. Devagar, ele girou a cabeça para a direita.

Uma figura estava em pé na esquina, no fim do quarteirão, mais próxima do viaduto. Um casaco estava esticado em torno dela, um chapéu enfiado na cabeça, mas mesmo disfarçada não escondia ter proporções que não cabiam num ser humano normal.

— Com licença, cara — o Viajante disse. Ele se afastou e, segurando o chapéu na cabeça, correu da aparição, virando a esquina com joelhos cambaleantes e passos sonoros.

Covarde!, uma chama acendeu-se no peito de Tach e, em seguida… Mas eu não posso ser tão duro com ele, pois não é um combatente e essa é uma estranha ameaça para sua espécie. Ele endireitou os ombros, ajeitou a gravata e se virou para enfrentar a criatura.

A coisa deu um passo oscilante para a frente, então outro. Um pé fazia um som de sucção como se viesse do asfalto. Da escuridão, outra figura espreitava, vestida da mesma forma, seus contornos diferentes, mas certamente parecidos. Ah, Benaf’saj, você tinha razão em duvidar de mim. Nunca imaginei que poderia haver dois. Ele preparou seu espírito para a morte.

— Doutor.

Sua cabeça virou para o lado. Uma jovem estava ao seu lado, vestida dos pés à cabeça de preto, interrompido apenas pelas vírgulas laterais no formato de yin-yang no peito. O emblema combinava com uma máscara preta que se curvava da maçã do rosto esquerda até o lado direito de sua testa, deixando metade do rosto nu. Era maior que ele. O cabelo era preto e lustroso. O que ele podia ver do rosto dela parecia oriental e de uma beleza estonteante.

Ele fez uma mesura cortês, mas breve.