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— Não acredito que tive tal prazer.

— Sou a Menina Lua, doutor. E tenho a honra de conhecer o senhor… mesmo que não exatamente pela primeira vez.

Aquilo estava começando a vazar sua barreira hematoencefálica.

— Você é um dos amigos do Capitão.

— Sou.

O perigo sempre fazia sua pressão sanguínea subir. Ao menos foi a desculpa posterior para a cobiça que o assolava naquele momento.

— Querida menina — ele suspirou, tomando suas mãos —, você é a visão mais atraente que estes olhos já contemplaram em eras…

Mesmo no brilho difuso, ele a viu corar.

— Farei o meu melhor para ajudá-lo, doutor — ela disse, sem entender… ou não.

Ela se soltou dele e deslizou rua abaixo, relaxada, equilibrada e parecendo mortal como um leopardo à espreita. Ele admirava a aura de força, a graça líquida, o jogo do traseiro por baixo de sua roupa preta e justa — naquela noite, as bundas estavam deixando Tach maluco. Ele correu atrás dela com a relutância takisiana de deixar uma mulher enfrentar o perigo.

Quando ela estava a vinte metros do broto mais próximo, fluiu num ataque, a dez metros lançou-se para o alto com uma desenvoltura que o fez engasgar. Ela deu uma pirueta no voo, jogou o calcanhar direito para trás, virando em torno do eixo ao dar uma voadora giratória perfeita no ombro do monstro. Causou um esmagar seco, som de abóbora lançada ao chão. A coisa foi para trás. Ainda girando, a Menina Lua ricocheteou, tocou levemente o chão e recuperou a posição de batalha.

O braço do monstro caiu. Despencou da manga do casaco.

Ela enlouqueceu.

De repente, estava em todos os lados sem sequer se mover. Gritando, uivando, batendo-se como três gatos em briga, caindo na calçada o tempo todo. Mas ela fez uma entrada tão forte, ele pensou, queixoso.

Por um momento, os brotos pareciam fitá-la também. Então, quando um deles virou-se para encarar Tachyon, os receptores químicos que os alertavam quanto à proximidade os levaram inexoravelmente na direção do takisiano odioso, terrível. Uma manga vazia sacudia-se de forma grotesca contra os lados do primeiro.

Tach expandiu-se para alcançar a mente da coisa. Era como névoa sufocante. Seu pensamento passou despercebido pela difusão de sinais eletroquímicos que formavam a mente do monstro.

Sem surpresa, ele sacou a Smith & Wesson cano curto, apoiou-se de pernas abertas, segurou a arma com as duas mãos, mira alinhada no centro daquela massa desagradável, inalou, segurou o fôlego, apertou o gatilho duas vezes. A pistola produziu uma quantidade muito satisfatória de chama, recuo e barulho. Nada mais.

Chocado, ele abaixou a pistola. A fera estava a vinte metros de distância; ele não erraria àquela distância. Então, viu dois pequenos buracos, bem onde eles deveriam estar, um em cada lado da frente do casaco abotoado. Ataques mentais não eram as únicas coisas que passavam direto por um broto.

— Estou encrencado — anunciou. Ele mirou a sombra por baixo do chapéu de brim, deu mais dois tiros. O chapéu voou. Assim como grandes pedaços da massa de batata podre dentro daquilo que servia de cabeça para o ser. Ele avançou.

A Menina Lua havia parado de gritar e se debater, e sentou-se com as mãos entre os joelhos, observando atentamente.

— As balas não os machucam — disse ela, a voz rouca de tanto gritar. — Eles… eles não são humanos.

— Muito observadora. — Ele deu os últimos dois tiros, começou a se afastar, buscando no bolso um carregador rápido, esperando ainda ter um.

— Pensei que tivesse mutilado um ser humano, um curinga — disse ela. Estava em pé. Correu na direção de um prédio à direita de Tach, cruzando por trás os brotos desajeitados, lançando-se novamente, dessa vez numa trajetória que Tach juraria levá-la ao terceiro andar da estrutura. Mas ele não viu, porque, quando ela entrou na sombra do prédio, desapareceu.

Para reaparecer segundos depois, com os pés bem no meio do segundo broto. Roupas rasgadas, biomassa fendida, e o ser simplesmente se desintegrou quando ela atingiu o solo e rolou.

Num instante ela estava em pé novamente, correndo adiante, agachando-se para se apoiar sobre a mão enquanto a perna varria num chute alto. As pernas do primeiro broto se desgrudaram abaixo do joelho. Ele aterrissou sobre os tocos de perna, continuou a caminhar sem se perturbar. Fechando o rosto, a Menina Lua terminou o serviço.

As sirenes perseguiam-se até o céu quando ela terminou. Tachyon aplaudiu suavemente enquanto ela caminhava na sua direção.

— Devo desculpas, pela senhorita, pelo que estava pensando sobre você.

Ela começou a jogar os cabelos para trás, olhou para os dedos, usou o pulso em vez disso.

— Você não precisa se desculpar, doutor. Teve motivo para pensar o que pensou. Mas nunca devo usar minhas artes para prejudicar permanentemente um ser pensante. E pensei que tivesse.

Ele a puxou para os braços. Ela recostou a cabeça no ombro dele. De fato, ele pensou. Não conseguia imaginar como explicaria aquilo para Mark…

Ela se afastou.

— Não devo ser vista aqui. Perguntas demais.

— Mas… espere. Não vá… há muito o que dizer!

— Mas não há tempo de dizê-lo. — Ela o beijou no rosto. — Tome cuidado, Pai — ela disse, e mais uma vez desapareceu.

— Então, o senhor descobriu mesmo os brotos, doutor — disse a tenente Pilar Arrupe, tirando um cigarrillo preto com piteira de plástico da boca. — Você é mesmo a testemunha perita mais ativa que já vi.

Pai, ele ficou pensando. Um honorífico, nada mais.

— Com certeza destruiu aqueles filhos da mãe — observou um patrulheiro que se prendia a uma arma não letal como a um talismã.

— Com uma ajudinha dos amigos, Dr. Smith e Dr. Wesson — outra pessoa comentou.

As ruas estavam cheias de luzes azuis piscando e uniformes e equipes de reportagem.

— As armas não adiantam muito contra os malditos do Enxame — disse o primeiro policial.

— Então, como você venceu essas criaturas, doutor? — perguntou um repórter, empurrando a espuma fálica do microfone embaixo do seu nariz.

— Artes marciais místicas.

— Leve esses babacas pra longe daqui — disse Arrupe. Para decepção de Tach, ela não era bonita. Era atarracada e tinha pernas grossas, rosto de buldogue e cabelo curto e crespo, como o da Brenda da Pumpkin. Tinha sardas escuras em abundância no nariz achatado e arrebitado. Mas os olhos eram brilhantes como cacos de vidro.

— Bem, tenente — disse ele. — Vai liberar o Doughboy agora?

— Você pegou suposto material do broto no laboratório da vítima e espalhou pedaços inquestionáveis de brotos numa rua inteira, exceto que eles costumavam parecer bebês do Godzilla e agora parecem indigentes, o que pode ou não ser uma melhoria. É uma ocorrência e tanto.

— A senhora não vai…

— Tenho uma testemunha, doutor.

— Céus em chamas, mulher, não tem compaixão? Não se importa com a justiça?

— O senhor acha que acabei de pular de um bote direto de San Juan? Trata-se de um cidadão decente, não saberia diferenciar o Doughboy do papa, não tem rixa com curingas e ele chega e descreve o rapaz pessoalmente. E não me venha dizer que essas testemunhas não são confiáveis. Elas são. E este é sério.

Tach passou a mão pelos cabelos com os dedos espremidos.

— Deixe-me falar com ele.

Ela revirou os olhos.

— É importante. Está acontecendo algo, não apenas o caso Doughboy. Eu sei disso.

— O senhor tem algum tipo de brujería alienígena maldita em mente.

O sedutor sorriu:

— Mas é claro.

Ela cedeu.

— Você virou herói com esses brotos, doutor. E sabe mais dessa coisa do que eu. — Virando-se, continuou. — Mas se o senhor me ferrar com uma queixa de liberdade civil sobre isso, manito, eu acabo com o senhor.