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Assim que tocou a mente, ele soube.

Era um dentista, homem baixo, atlético, vermelho, em seus 50 anos, que morava no prédio ao lado do de Warren. Estava saindo para passear com o cachorro no quarteirão — um ato ousado naquela hora da noite — e viu um homem de aparência peculiar saindo da ruela que dividia os prédios. O homem parou por um momento, pouco mais de três metros de distância, olhou o intrépido dentista direto nos olhos e cambaleou para dentro do Central Park.

A história batia com aquela das outras duas testemunhas, uma das quais era o zelador do prédio de Warren, que estava investigando uma porta traseira arrombada quando foi acertado pelas costas; a outra era uma mulher que, por razões mais bem conhecidas por ela, estava olhando para baixo no beco entre os prédios. Eles olharam de relance uma forma grande, pálida, parecida com um homem saindo da porta dos fundos e descendo a ruela. Mas nenhum podia oferecer algo além de uma descrição mais geral.

Tachyon precisou apenas tocar a mente do dentista para saber que sua história não era verdadeira. Não uma mentira; ele acreditava nela implicitamente. Porque fora implantada.

Relutante, Tach foi mais fundo. A velha dor de Blythe recuou, não ficava mais viscoso por dentro com o mero pensamento de usar seus poderes mentais; não era isso. A natureza do implante claramente revelou que tipo de ser fez aquilo. Tudo que restava era descobrir o indivíduo entre algumas poucas alternativas. O doutor tinha uma boa ideia.

De certa forma, não importava. As implicações já eram inescapáveis.

E mais monstruosas do que qualquer coisa que Tach imaginara.

— Tenho aversão a este lugar — resmungou Durg at’Morakh bo Zabb Vayawand-sa quando eles subiram a vacilante escada traseira de seu flat numa esquina pouco badalada do Village.

Rabdan olhou com desprezo sobre a insígnia de ombro dourada.

— Como pode criticar? Você nunca entrou.

— O Leão de Chácara, aquele com uma cara estranha de morto, ele não vai me deixar entrar.

— Rá! O que os Vayawand diriam se soubessem que um de seus preciosos garotos Morakh permitiu que um brutamontes lhe dissesse não? Sério, o esperma deles ficaria ralo.

Durg fechou a mão que poderia desintegrar granito. A sarja branca e grossa da manga do seu uniforme partiu no bíceps com um som parecido com o de um tiro de pistola.

— Zabb brand Sabina sek Shaza sek Risala ordena que eu lute apenas quando necessário para a missão — disse ele entredentes. — Mesmo que ele me mande servir alguém tão sem valor como você para testar minha devoção. Mas lhe aviso: algum dia, sua incompetência fará você perder a preferência do mestre. E, nesse dia, arranco seus braços e pernas, homenzinho, e esmago sua cabeça como uma espinha.

Rabdan tentou rir. Engasgou-se, então tentou de novo.

— Tão hostil. Tal lástima você não poderia ter visto: uma mulher esfolada, uma serva desmaiada; entretenimento elegante. Quando os terráqueos forem destruídos, alguns raros talentos serão perdidos, preciso admitir.

Chegaram ao patamar e à porta. Rabdan fez uma pausa do lado de fora, franziu a sobrancelha enquanto a mente sondava lá dentro. Não seria bom serem pegos numa emboscada por ladrões terráqueos. Durg ficou em pé, em silêncio, alguns degraus abaixo. Seus parentes eram da classe dos Lordes Psíquicos, mas, como a maioria dos Morakh, era praticamente cego psíquico. Se Rabdan detectasse perigo, então cumpriria sua função.

Satisfeito, Rabdan destrancou a porta e entrou. Durg seguiu, fechando-a atrás de si. Do corredor para os quartos saiu uma figura.

— Tisianne! Mas eu sondei…

— Você, de todos os meus primos, nunca poderia lançar uma sonda da qual eu não pudesse desviar — disse Tachyon. — É mau presságio para todos nós que eu tenha encontrado vocês aqui. De fato, talvez para todos os de Takis.

— Mas é pior para você — disse Rabdan. Ele deu um passo para o lado. — Durg, desmembre-o.

— Monstro de Zabb! — Tach chiou, apesar dele.

— O pequeno príncipe — disse Durg. — Será moleza.

Uma segunda figura apareceu ao lado de Tachyon.

— Doutor, quem são? — Menina Lua perguntou, apertando os olhos um pouco à luz brilhante da única luminária na mesa baixa.

Ela viu um homem pequeno — mesmo para ele, um takisiano inequívoco feições finas, cabelos loiros metálicos, olhos pálidos que se arregalavam e piscavam rapidamente. Ela achou mais difícil de classificar o ser que balançava sobre o carpete gasto da pequena sala de estar. Era pequeno, pouco mais de um metro e meio, mas pavorosamente musculoso, literalmente quase mais largo que alto. Ainda assim, sua cabeça era de um lorde elfo takisiano, de feições longas, magras e austeras; bonito. O contraste era surpreendente.

— O adulador do meu primo, Rabdan — disse Tach —, e seu monstro, Durg.

Por tudo que vivera em quatro décadas entre os curingas, Tach não conseguia ter estômago para ver o matador Morakh. Não era um terráqueo parecido com um takisiano deformado numa grotesca desfiguração; era a visão mais abominável para o povo de Tach, uma perversão da própria forma takisiana. Parte do que tornava Morakh tão terrível na guerra era a repugnância que causava aos inimigos.

— Ele é uma criatura gerada por uma família hostil à minha. Uma máquina assassina orgânica, poderosa como um elefante, treinado à perfeição. — Durg parou, a sobrancelha perfeita franzida pela nova aparição. — Mesmo para os nossos padrões, eles são quase indestrutíveis. Zabb tomou este num ataque quando ele era um filhote; e a criatura transferiu sua lealdade a ele.

— Doutor, como você pode falar de um ser humano dessa forma?

— Ele não é humano — disse entredentes —, e cuidado com ele.

Atarracado como um troll, Durg se movia com uma velocidade que nenhum humano poderia superar. Mas a Menina Lua não era estritamente humana; independentemente do quê, ela era, fosse lá de onde viesse, uma ás. Ela agarrou a manga bordada a ouro atrás da mão que se esticara para pegá-la, puxou-a, girou os quadris. Durg passou direto para bater na parede, numa explosão de gesso.

— Como você nos encontrou? — Rabdan perguntou, recostando-se ao batente da porta.

— Primeiro encontramos o homem cuja mente você adulterou, sabia que os takisianos ainda estavam na Terra — disse Tach, desviando-se de Durg —, e da inépcia técnica deduzi que só poderia ter sido você. Assim que soubemos o que procurar, não foi difícil encontrá-los. Sua aparência é distinta, e dificilmente vocês se esconderiam num armazém abandonado e viveriam de ratos e gatos vira-latas, como os brotos.

— Claro — ele fez com a cabeça na direção do uniforme branco e dourado de Rabdan —, nunca pensei que mesmo você seria tolo o bastante para se aventurar no próprio uniforme de Zabb.

— Os terráqueos acharam que estávamos no topo da moda. E se você está entre os cisnes, andaria vestido de ganso?

— Quando a missão dos cisnes — Durg surgiu de uma depressão que fizera na placa de gesso, gemendo, balançando o pó de gesso como água — é se passar por gansos, sim.

A Menina Lua avançou para o bar destruído, deu dois passos mínimos para a frente, chutou Durg na lateral do joelho. A perna dele se dobrou. Ela soltou um segundo chute no lado da mandíbula do monstro. Ele gemeu — a mão dele se agitou, agarrou a canela da menina, puxou-a para a frente ao alcance de seu outro braço.

Ele se esforçou para dar um golpe eficaz. Tach começou a avançar novamente. A mão de Rabdan saiu da túnica com o brilho fosco e preto de um aprisionador.

— Vá até lá e eu acabo com você agora, Tis.

A Menina Lua bateu com o cotovelo no topo da cabeça de Durg. Tach ouviu os dentes se batendo como uma ratoeira. Ela estapeou maldosamente com as palmas em concha contra as orelhas dele. Ele gemeu, sacudiu a cabeça, e ela se contorceu até se ver livre.