— Uma nave simbiôntica takisiana é controlada psionicamente. O piloto pode receber informações de forma direta, mental ou visualmente. Por exemplo…
Tach gesticulou e uma imagem da Terra saltou para ficar numa curva de um anteparo membranoso próximo à cama. Uma linha amarela saía dela, descrevendo sua órbita. Então, como uma animação computadorizada, o globo girou, diminuiu, até uma imagem fora de escala de sua trajetória inteira do voo projetado da Terra ao 1954C-1100 ser mostrada.
O Viajante aplaudiu.
— É fantástico, cara. Muito bom!
— Sim, é isso. Vocês, terráqueos, estão tentando criar a consciência nos seus computadores; nós criamos inteligências capazes de realizar funções computacionais. E muito mais.
— Como Baby se sente sobre tudo isso?
A imagem desapareceu. E palavras apareceram: Fico honrada em transportar lordes como o Mestre Tis e o senhor… embora eu tema que o senhor me cutuque com este chapéu; é tão alto.
O Viajante deu um pulo.
— Não sabia que ela podia fazer isso.
— Nem eu. Ela está roubando meus conhecimentos do inglês escrito com um dreno muito sutil… o que é levemente perverso. Contudo, ela sabe que sou complacente, e a perdoarei.
O Viajante sacudiu a cabeça, surpreso. Estava sentado numa cadeira que havia brotado do chão para ele, e agora ajustava-se ao corpo do ás quando Tach finalmente convenceu-o a se sentar.
— Não que eu não confie na Baby — disse ele —, mas a nave do seu primo não é, tipo, uma nave de guerra?
— Sim. E você não precisa fazer a pergunta que esperava não ter de fazer. Em circunstâncias normais, Baby não teria nenhuma chance contra a Hellcat… e não faça estática desse jeito na minha cabeça, Baby, ou vou te espancar! De verdade. Mas Baby é rápida, mesmo com seu piloto automático acionado, nenhuma é mais rápida. E manobrável. E, francamente, mais esperta que a Hellcat. Mas o fator importante é que a Hellcat foi bastante danificada pelo ataque do Enxame. Uma Mãe de Enxame tão antiga e vasta como aquela em geral desenvolve armas biológicas – anticorpos, quase – contra takisianos e suas naves-fantasma. Usamos armas similares contra eles, porque só uma frota de guerra inteira pode levar poder de fogo suficiente para prejudicar mesmo uma da pequena, considerando que a infecção pode se espalhar a partir dela. Zabb combateu um ataque a bordo, com espada e pistola e armas biológicas, e conseguiu afugentar os brotos. Mas a Hellcat ficou infectada e prejudicada e, embora tenham impedido a doença, ficará um bom tempo se recuperando.
E, suavemente:
— E Zabb sentiu cada um dos ferimentos da nave como seu próprio, seja lá o que você possa pensar dele. — Seus olhos arderam.
Com tristeza, o Viajante balançou a cabeça.
— Falar sobre batalhas me deprime, cara.
— Deve ser difícil pra você, já que tem convicções pacifistas. Mas seu papel naquilo que se aproxima não é marcial, e vou lutar apenas se atacado.
— Mas a Menina Lua luta. A maioria dos outros também. Nunca briguei na minha vida. Bati apenas em uma pessoa, e ele se esquivou e estourou meu nariz, e então um dia eu estou, tipo, no corpo de outra pessoa enquanto ela joga um alienígena musculoso através da parede.
— Foi um espetáculo glorioso — disse Tach, rindo, sem conseguir se controlar.
— Ser um ás parece ser uma viagem bem pesada.
Tisianne, eu a sinto! Hellcat está vindo.
Tach despenteou o cabelo e suspirou.
— Temo que seja o momento, amigo. — Ele balançou as pernas para fora da cama e levantou-se. — Vou te levar até a comporta.
A iluminação os conduziu até um corredor curvo.
— Tem certeza de que você… ele… consegue encontrar a rocha? — disse Tachyon.
— Acho que não haverá muitas outras na vizinhança, doutor.
A vadia está formando a órbita de interceptação. Limite de armas máximo em vinte minutos.
Bloqueie, Baby.
Eles pararam ao lado do esfíncter interno da comporta de tripulação. Tach e o Viajante abraçaram-se, ambos chorando, tentando não transparecer.
— Boa sorte, Mark.
— Pra você também, doutor. Diga, esta nave inteira é Baby, não é?
— Isso aí.
Constrangido, o Viajante recostou-se e beijou levemente uma viga cuja forma fluía como uma estalagmite.
— Tchau, Baby. Paz.
— Adeus, Capitão. Que a sorte lhe acompanhe.
Aproveitando-se de superstições primitivas, Tach repreendeu enquanto eles se retiravam educadamente numa curva.
Divertimento. Como parecerá a nova pessoa, Tis?
Não sei. Estou ávido para ver. Outra Menina Lua era demais para se esperar. Era sorte que tinham acesso a um ás com uma combinação de poderes que lhes dava uma pequena chance de sucesso.
— Doutor? — a voz rolou em torno deles como âmbar líquido, profunda e forte. Tachyon caminhou adiante.
O impacto visual o fez parar de uma vez. Ás como um deus grego: alto, de musculatura trabalhada, uma mandíbula de dique, um olhar verde-claro, uma nuvem loira encaracolada de cabelos, tudo envolvido por um uniforme amarelo colado à pele com um sol raiado no peito.
— Eu sou — disse a visão — Estelar.
— A honra é inteiramente minha — disse Tach, pensativo.
— Está correto. Você é um militarista, representante de uma civilização decadente e repressiva. Estou prestes a tentar impedir um horror trazido à minha civilização por sua tecnologia desenfreada, enquanto você se envolve num combate com outra facção do mesmo bando tecnocrata que afligiu a Terra com seu vírus satânico em primeiro lugar. Sob tais circunstâncias, acredito ser difícil desejar sucesso ao senhor, doutor. Mesmo assim, eu o faço.
A voz de Tachyon parecia ter desaparecido, e Baby fazia pequenos estalos de fosfeno estático na cabeça dele.
— Sou muito grato — ele conseguiu dizer, por fim.
— Sim. — Estelar moveu sua mandíbula heroica. — Talvez eu componha um poema sobre o dilema moral que enfrento…
— Será que não é melhor você enfrentar o asteroide primeiro? — Tach quase gritou.
Estelar olhou com fúria, como Zeus apanhado por Hera, mas disse:
— Acho que sim.
A comporta dilatou-se.
— Adeus — Tach disse.
— Obrigado.
Ele deu um passo adiante.
Quando a comporta externa abriu-se num círculo, Baby transmitiu à mente de Tach um panorama externo — cada centímetro quadrado da pele da nave era fotossensível quando necessário. Estelar flutuava no vácuo, virou o rosto para o brilho intenso do sol, agora mais ou menos à popa, e pareceu respirar profundamente. Então, afastou-se da nave, braços e corpo estirados numa linha, e tornou-se um raio único, amarelo e brilhante, a atravessar a noite eterna.
— Transformação fotônica — disse Tach, impressionado. — Como a transformação de táquions de nosso piloto automático, mas permitindo apenas a velocidade da luz. Incrível.
Por um momento, ele quase se sentiu orgulhoso pelo carta selvagem.
Ele se livrou daquela sensação.
— Vai ser bem difícil — ele observou — gostar desse aí.
Ele é um babaca. Eu gostava muito mais do Capitão.
Tis, eles estão chegando.
Flutuando, atemporal. Liberação pura, inexistência/coexistência com todo o universo. A consumação finaclass="underline" satori num raio laser.