O que está esperando? Um tom mais alto. Vai ter compaixão, Tisianne? Não parece com você. Acabe com isso.
Tach olhava sem expressão para a parede-membrana adiante, onde Baby formou uma imagem da sua inimiga abatida. Seu orgulho exigia a consumação. E, o aspecto prático: enquanto Zabb vivesse, Tachyon estaria em perigo mortal, e a Terra também.
Tis, quando minha mãe ajudou aquela cadela mestiça que te pariu escada abaixo, eu assisti. Estava na balaustrada e gargalhei. O jeito que a cabeça dela rolava sobre o pescoço…
Mas Tachyon riu. Basta. Guarde seu veneno para o Vazio, Zabb.
Atire, então. Maldito seja, atire.
Não. Arrume sua nave se puder, volte manquejando para Takis, voe até o espaço da Rede e viva como um renegado. Viva sabendo que eu lhe derrotei novamente. Que você traiu sua linhagem… e falhou.
Ele ergueu rapidamente uma parede contra um surto de fúria.
Baby, encontre o Capitão, rápido! Ela deu uma guinada, suas turbinas uma névoa amarela.
… destruir você, Tisianne, eu prometo… ele sentiu. Então Zabb desapareceu, sendo tragado pela noite infinita.
O brilho de suas mãos tremeluziu. Quando aconteceu, Estelar sentiu uma fraqueza, uma mudança da própria estrutura do seu ser. Ao menos eu morri no abraço do Sol…
Trezentos segundos depois, Baby freou para ajustar a velocidade com uma forma que pendia aparentemente sem vida sobre uma cratera ainda incandescente no flanco do asteroide. Gentilmente, ela expandiu seu campo de atração, agarrou a forma coberta de púrpura com sangue seco em torno da boca e orelhas e o chapéu de seda que seguia como um satélite púrpura, trazendo-os para dentro de si. Quando seu mestre curvou-se chorando sobre o amigo, ela apontou a proa para o mundo que havia se tornado o lar de ambos.
— Mark, Mark, meu velho! — Dr. Tachyon entrou de uma vez pela porta da Cosmic Pumpkin, braços cheios de buquês e garrafas de vinho em sacos de papel.
Mark rolou com sua cadeira de rodas pela loja.
— Doutor! Há quanto tempo não te vejo. Onde é a festa?
Seu rosto assumiu uma vermelhidão onde o vácuo estourou os vasos capilares por baixo da pele, e, até seus tímpanos se curarem, ele ouvia por uma pequena unidade de condução óssea grudada por um processo mastoide sob a orelha esquerda, mas no geral ele não parecia tão mal, apesar do que havia passado.
— Onde é a festa? Onde é a festa? O Doughboy foi liberado de todas as acusações, volta para casa hoje. Você é um herói… quer dizer, seu amigo, o Capitão, é. E você, claro. Vai ter uma celebração no Crystal Palace, e as bebidas são por conta da casa.
— E essas garrafas?
— Estas? — Um sorriso. — Talvez eu tenha uma celebração particular, após as festividades da Crisálida.
Ele estendeu um buquê.
— São para você. Deixe-me ser o primeiro a te congratular, Mark.
Mark as cheirou.
— Hum, obrigado, doutor.
— Podemos ir? Por que você não veste… você sabe… algo mais formal?
Mark virou o rosto.
— Eu, hum, tipo, eu acho que é melhor ficar por aqui. Tenho a loja e Sprout para cuidar, e não estou muito bem para sair por aí.
— Bobagem. Você precisa vir. Você merece a adulação, Mark. Você. Você é um herói.
O amigo baixou os olhos.
— Brenda ficará mais que feliz em cuidar da loja e de Sprout por você.
— Não tão rápido, bonitão — a mulher atrás do balcão disse. — E meu nome é Susan.
Tach a fitou com um olhar penetrante. Após um momento, ela cedeu.
— Eu, eu acho que posso.
— Mas esta cadeira — Mark se lamentou.
— Você precisa de ajuda, senhorita Isis? — uma voz perguntou vinda do fundo da loja, profunda e ressonante como um gongo alienígena. Durg at’Morakh bo-Isis Vayanwand-sa emergiu na delicatéssen, uma camiseta de colecionador dos Steppenwolf esticada quase até estourar sobre o peito gigante. Ele mancava, suas bochechas inchadas e machucadas, mas de modo geral pouco ferido.
— Posso levá-la para onde desejar ir, senhorita.
O rubor de bêbado de Mark aumentou.
— Desejo que você pare de me chamar assim, cara. Meu nome é Mark.
Durg concordou com a cabeça.
— Como quiser, senhorita. Se você deseja esconder seu nome da inveja de seus camaradas mais fracos como esconde sua forma, eu devo usar seu nom de guerre quando houver terráqueos presentes.
— Meu Deus — Mark disse. De sua parte, Tach ficava incomodado que o Morakh conseguira saber que o nome real da Menina Lua (seja lá o que significava) era Isis Lua, que era mais do que ele sabia. Também ficou mais do que levemente satisfeito.
— Esplêndido — disse ele, trocando seus pacotes de mão. — Você vai lá pra cima se trocar e eu te encontro no Palace.
— Aonde você vai?
— Tenho um encontro primeiro.
Durg levantou Mark, com cadeira e tudo, e o levou para cima.
O rosto de Sara Morgenstern ficou tão vermelho quanto o de Mark, ali na penumbra de fim de tarde do escritório de Tach.
— Então, o senhor conseguiu — ela suspirou.
Ele tinha consciência do odor dela, sentiu sua excitação. Ele mal conseguia conter a dele.
— Foi simples — ele mentiu.
— Me diga. Como o crime foi cometido?
Ele contou para ela, com um mínimo de embelezamento, pois o desejo sexual desfrutava de uma prioridade maior até mesmo do que inflar seu ego. E, quando ele terminou, viu para sua surpresa que a expressão ansiosa dela murchou como um suflê arruinado.
— Alienígenas? Foram alienígenas? — Ela mal conseguia expressar as palavras; sua decepção bateu nos lobos frontais dele como a arrebentação.
— Pois sim, brotos num novo estágio numa aliança com meu primo Zabb. E essa é uma parte importante da história que você escreverá, o perigo imposto por esta nova manifestação do Enxame. Porque isso significa que a Mãe não ficou satisfeita a ponto de ir embora e deixar o mundo em paz.
O buquê que ele havia dado a ela caíra no chão. Uma dúzia de rosas jazia em torno dos pés de Sara como árvores derrubadas por uma bomba aérea.
— Andi — ela soluçou, o rosto retorcido, lavado com lágrimas. Então, ela se foi, os saltos estalando negligentes pelo corredor.
Quando sumiram, Tach ajoelhou-se, carinhosamente tomou um botão vermelho-sangue. Nunca entenderei esses terráqueos, ele pensou.
Enfiando o botão na lapela de seu casaco azul-celeste, pisou delicadamente nas outras flores, fechou a porta, trancou-a e saiu assobiando para juntar-se à celebração.
Jube: Seis
Os metrôs eram uma perversão humana com a qual Jube nunca se acostumava. Eram sufocantes e quentes, o cheiro de urina nos túneis às vezes era avassalador e ele odiava como as luzes piscavam enquanto os vagões trepidavam pelos trilhos. A longa jornada na linha A até a 190th Street era pior do que a maioria. No Bairro dos Curingas, Jube sentia-se confortável. Era parte da comunidade, alguém familiar e aceito. Em Midtown, no Harlem e além deles, era um esquisito, algo que as crianças encaravam e os pais cuidadosamente ignoravam. Isso fazia com que ele se sentisse, bem, um alienígena.
Mas não havia como evitar. O cara da banca de jornal chamado Morsa nunca conseguiria chegar ao Mosteiro de táxi.
Nesses últimos meses, parecia que sua vida estava em ruínas, mas seus negócios estavam melhores do que nunca. Jube descobrira que os maçons também liam jornais, então trazia uma braçada cheia para cada reunião e os lia na linha A (quando as luzes estavam acesas) para desviar sua mente dos cheiros, barulhos e olhares de nojo no rosto dos passageiros ao seu redor.