Выбрать главу

Ele se perguntou, não pela primeira vez, por que estava fazendo aquilo. E viu-se lembrando de muito tempo atrás, a bordo da grande nave da Rede, a Opportunity. O Mestre Comerciante chegou à sua cabine, com os trajes de um glabberiano ancião, seus cabelos crespos ficando pretos com a idade, e Jhubben perguntou por que ele estava sendo honrado com aquela missão.

— Você é como eles — disse o Mestre Comerciante. — Sua forma é diferente, mas entre aqueles deformados e entortados pela biociência takisiana, você se misturará, outra vítima sem rosto. Seus padrões de pensamento, sua cultura, seus valores, moralidades… são mais próximos aos dos humanos do que qualquer outro poderia selecionar. Com o tempo, como você residirá entre eles, ficará ainda mais parecido, e assim conseguirá entendê-los e será de grande valia em nosso benefício.

Era verdade, tudo verdade; Jube era mais humano do que jamais imaginou. Mas o Mestre Comerciante omitiu algo. Não disse a Jhubben que ele chegaria a amar os humanos e se sentir responsável por eles.

Na sombra do Mosteiro, dois jovens em cores das gangues saíram para confrontá-lo. Um deles tinha um canivete. Àquela altura, eles o conheciam, mas ele ainda precisava mostrar a moeda vermelha brilhante que carregava no bolso. Aquelas eram as regras. Eles concordaram silenciosamente com a cabeça, e Jube entrou no grande salão onde aguardavam com seus tabardos e máscaras, com suas palavras rituais e segredos que ele se apavorava em aprender, onde esperavam para que ele chegasse para conduzir sua iniciação.

Por caminhos perdidos

Pat Cadigan

Estava excessivamente quente para maio, quase uma prévia do verão profundo, e as crianças reunidas em torno do hidrante faziam uma cena atemporal. A única coisa que faltava era um especialista — ninguém sabia como liberar a água do hidrante. Não importava que tal fato resultasse em uma redução precipitada na pressão da água local, prejudicando seriamente o combate a incêndios, motivo pelo qual os incendiários sempre estavam dispostos a ajudar um grupo de crianças suadas num dia quente. Mas nunca havia um incendiário quando se precisava de um.

O homem na lojinha do bairro não estava observando as crianças; assistia à jovem com cabelos castanhos avermelhados na altura dos ombros e grandes olhos verdes que olhava as crianças. Ele a rastreava desde que saíram do ônibus três dias antes, em geral ao abrigo de um dos seus tabloides favoritos, como um que segurava naquele instante. A manchete dizia: MULHER VIRA CURINGA E COME MARIDO NA NOITE DE NÚPCIAS! Harry Matthias sempre teve um gosto pelo sinistro.

A garota do outro lado da rua, no entanto, era tudo, menos sinistra. Garota encaixava-se melhor do que jovem, mesmo que tivesse quase certeza de que ela estava com mais de 21 anos. Seu rosto em formato de coração não tinha marcas nem linhas; inacabado. Sem sofisticação, muito atraente se olhado pela segunda vez, e ele imaginou que a maioria das pessoas o fazia. Você nunca pensaria que ela era outra coisa senão um pedaço de carne jogando-se nas mandíbulas da cidade grande. No entanto, Harry, mais conhecido como Judas, via diferente. O Astrônomo lhe daria uma recompensa polpuda por aquela ali.

Ou melhor, o pessoal do Astrônomo daria. Por sorte, o Astrônomo mesmo não se incomodava com ele, e Judas era bem sortudo, quase sortudo demais para continuar vivo. Escapou de ser um tiete de curinga, o que ele chamava de curinguete (e ria-se também quando diziam isso), para ser ele mesmo um ás. Um ás muito sutil, com certeza, mas muito útil com sua capacidade de detectar outro ás e seu poder. Seu poder veio à tona naquela noite, naquele cabaré maluco, o Jokers Wild. Salvou sua vida; estavam prestes a detoná-lo quando o esporo se transformou e ele expôs aquela mulher que mudava de forma. Ou que eles a faziam mudar, para ser mais exato. Não gostava de pensar naquilo, mas antes ela do que ele. Antes qualquer um do que ele, mesmo a garota do outro lado da rua, embora isso lhe doesse; ela era atraente. Mas ele apenas a entregaria para os maçons, com quem ela não seria desperdiçada. Que talento tinha a moça; provavelmente lhe dariam uma medalha quando a entregasse. Bem, pagariam para ele de qualquer forma o suficiente para atenuar o incômodo de ser chamado de Judas. Se sentisse qualquer incômodo, o que não era o caso.

A garota sorriu e ele sentiu sua reação, um sorriso. Conseguia sentir o poder dela se acumulando. Distraidamente, deixou algumas moedas no caixa pelo tabloide e saiu na calçada com o jornal debaixo do braço. De novo, flagrou-se maravilhado; mesmo que soubesse ser necessário um poder especial para detectar um ás, ainda ficava surpreso que as pessoas nunca soubessem quando estavam diante de algo maior do que elas mesmas, fosse um ás, TIAMAT ou o Deus Único e Verdadeiro. Olhou de relance para o céu. Deus estava na pausa para o café e TIAMAT ainda não havia chegado; naquele momento, eram apenas ele e a garota, e aquela companhia era suficiente.

Apenas ele sentiu quando ela liberou sua habilidade. O poder brotou dela como uma onda e uma descarga imensa de partículas. A magnitude era assustadora. Era um poder primitivo, algo que parecia antigo apesar da relativa novidade que era o vírus carta selvagem, como se ele tivesse ativado alguma habilidade nativa, mas adormecida por séculos.

Pode ser, ele pensou de repente, todo povo primitivo tem algum tipo de ritual para chamar a chuva, não é?

Sem aviso, o hidrante abriu e a água jorrou na rua. As crianças correram, comemorando e rindo, e ela curtia tanto aquilo que nem percebeu sua aproximação.

— Polícia, senhorita. Venha comigo em silêncio. — Toda a surpresa no rosto dela enquanto encarava o distintivo que ele segurava diante do seu nariz a fez parecer ainda mais jovem. — Não acha mesmo que se livraria, não é? E não se faça de inocente… você não é a única ás que temos nesta cidade, sabe?

Com obediência, ela concordou com a cabeça e deixou que ele a levasse.

O Mosteiro era um completo desperdício para ela. Não se importou em olhar para a arquitetura gótica francesa elevada ou mesmo para a porta de madeira esculpida onde ele a deixou como uma mercadoria nas mãos expectantes de Kim Toy O’Toole e Red. Ele resistiu à ânsia de beijá-la. Para um cara chamado Judas, beijar seria passar um pouco dos limites. Olá, garotinha; ela mal notara a ausência de uniformes policiais.

Red era um pouco avermelhado até o vírus carta selvagem o infectar. Então, ficou vermelho por completo e não contava com pelo ou cabelo algum. Achava que era uma condição comparativamente tolerável. Às vezes, ele dizia “Talvez eu tivesse algum índio vermelho em mim”. Não tinha. Sua mulher, Kim Toy, era filha de um militar de carreira irlandês e o amor verdadeiro o arrebatou enquanto ele servia na R&R em Hong Kong. Sean O’Toole fora maçom, mas mal reconheceria a organização na qual sua filha entrou após seu próprio esporo ter florescido e ela descobrir que a combinação de poder mental e feromônios poderia enlouquecer os homens muito mais do que o usual para uma mulher razoavelmente atraente. A parte boa: às vezes ela não conseguia impedir que isso fosse fatal.

Eles tomaram a peça fresca que Judas trouxera e a enfiaram num dos antigos escritórios no andar inferior, onde podiam realizar os interrogatórios (entrevistas, Roman sempre os corrigia) com privacidade. Então, sentaram-se no lado de fora do salão para uma pausa não programada. Roman chegaria a qualquer momento e, em seguida, fariam com a garota o que o Astrônomo achasse melhor.

— Bem bizarro — Red murmurou, aceitando um cigarro já aceso de Kim Toy. Bem bizarro era um termo que sempre se referia ao Astrônomo. — Às vezes, acho que devíamos dar um pé na bunda do cara e correr.