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— Ele será o dono do mundo — Kim Toy disse com tranquilidade. — E vai nos dar um pedaço. Acho que vale a pena mantê-lo por perto.

— Ele diz que vai nos dar um pedaço. Como se fosse um senhor feudal. Mas nem todos somos samurais, minha querida.

— Muito menos eu. Sou chinesa, idiota. Lembra? — Kim Toy desviou o olhar do marido. — Roman está chegando. E Kafka.

Red e ela estavam sentados e tentavam parecer impassíveis. Roman era um dos lacaios mais próximos do Astrônomo, alguém que poderia frequentar aqueles segmentos da sociedade que poderiam ser considerados acima da maioria dos indivíduos questionáveis que o Astrônomo recrutava. Sua boa aparência loira e os trajes impecáveis lhe davam passe livre quase em qualquer lugar. Corria à boca pequena que ele era um dos raros “curingas reversos”, alguém cujo esporo transformou uma deformidade horrenda e nojenta no seu presente estado de beleza masculina. O próprio Roman não comentava.

Atrás dele vinha sua antítese, aquele a quem chamavam de Kafka, ou o Barata (embora não na frente dele), pois parecia bastante com a ideia humana de uma barata. Ninguém gozava dele, no entanto; o dispositivo Shakti que o Astrônomo disse ser a salvação deles foi, em grande parte, um feito do Kafka. Ele entendeu o instrumento alienígena que estava sob a custódia maçônica por séculos e, com as próprias mãos, projetou e construiu a máquina que completava seu poder. Ninguém o incomodava; ninguém queria incomodá-lo.

Roman lançou um aceno mínimo de cabeça a Red e Kim Toy enquanto seguia para a porta do escritório e, então, parou de uma vez, quase fazendo Kafka trombar com ele. Kafka deu um pulo para trás, passando os braços finos em volta do corpo, com pânico pela ideia de qualquer contato com alguém que se lavava menos que 12 ou 13 vezes ao dia.

— O que acha que está fazendo? — O sorriso de Roman era desinteressado.

Kafka deu um passo valente adiante.

— Encontramos seis alienígenas passando por seres humanos nas últimas três semanas. Quero apenas me certificar de que ela é humana.

Você quer ter certeza de que ela é humana. — Roman mediu-o dos pés à cabeça. — Judas a trouxe pra cá. Aqueles que Judas traz são sempre humanos. E o Astrônomo não quer que a gente assuste os bons, por isso eu entrevisto quando eles chegam. Desculpe por dizer isso assim, meu velho Kafka, mas não acho que sua aparência seja tão tranquilizadora.

O exoesqueleto de Kafka chiou quando ele se virou e voltou para o salão. Kim Toy e Red observaram sua saída sem se importar em interromper o silêncio com mais que um suspiro.

— Ele estava observando os monitores quando ela entrou — disse Roman, arrumando seu casaco de tweed caro e de bom gosto. — Pena. Eu digo, o homem com certeza não se importaria em chegar perto de uma mulher tão bonita, mas do jeito que ele é…

— Como vai sua mulher, Roman? — Red perguntou de repente.

Roman congelou no meio do gesto de tirar um fio imaginário da manga. Houve uma pausa longa. Uma das lâmpadas fluorescentes incongruentes começou a zumbir.

— Bem — Roman falou por fim, baixando devagar o braço. — Vou comentar que você perguntou por ela.

Kim Toy deu uma cotovelada nas costelas do marido quando Roman entrou no escritório.

— Por que diabos você tinha que fazer aquilo? Por que isso agora?

Red deu de ombros.

— Roman é um babaca.

Kafka é um babaca! Todos são babacas! E você é um idiota. Da próxima vez que quiser atingir o homem, levante e dê um soco no nariz dele. Ellie Roman nunca fez nada para você.

— Primeiro você me diz que quer ser dona do mundo… desculpe, de um pedaço dele… e então você me dá uma bronca por comentar sobre a mulher de Roman para ele. Minha querida, às vezes você é mesmo um quebra-cabeças chinês.

Kim Toy franziu a testa para a luz zumbidora, que agora também piscava.

— O mundo é um quebra-cabeças chinês, meu querido.

Red resmungou.

— Bobagem de samurai.

— Diga seu nome, por favor. Completo.

Indiscutivelmente, era o homem mais bonito que ela já conhecera pessoalmente.

— Jane Lillian Dow — disse ela. Nas cidades grandes, eles tinham de tudo, inclusive homens lindos para interrogatórios. Eu “coração” Nova York, ela pensou, e suprimiu a histeria que quis brotar como gargalhada.

— E qual é a idade da senhorita?

— Vinte e um. Nascida em 1º de abril de 19…

— Eu sei subtrair, obrigado. Onde a senhorita nasceu?

Ela ficou aterrorizada. O que Sal teria pensado? Ah, Sal, queria que você pudesse me salvar agora. Era mais uma oração que um pensamento, feita para o vazio com a esperança diminuta de que talvez o vírus carta selvagem pudesse ter afetado a vida pós-morte, bem como a esta aqui, e o falecido Salvatore Carbone pudesse vir trotando de volta do além como a cavalaria ectoplásmica. Até então, sonhar não custava nada.

Ela respondeu a todas as perguntas do homem. O escritório não tinha uma mobília especial — paredes nuas, poucas cadeiras, e uma mesa com um terminal de computador. O homem puxava os registros dela em menos de um minuto, verificando os fatos contra as respostas dela. Tinha acesso a toda a vida da moça com aquele computador, razão pela qual ela relutou tanto em registrar-se na polícia após o esporo do vírus carta selvagem florescer no colégio, cinco anos antes. A lei foi promulgada na sua cidade natal bem antes de ela ter nascido e nunca foi abolida quando o clima político de alguma forma mudou. Mas, então, nada mudou muito na pequena cidade de Massachusetts, onde ela nasceu. “Vou ser licenciada e numerada como um cachorro também”, ela disse a Sal. “Talvez até mesmo levada para um canil e ser envenenada com gás.” Sal convenceu-a a obedecer, dizendo que chamaria menos atenção se obedecesse às leis. Se puderem se responsabilizar por você, deixarão você em paz. “Sim”, ela disse. “Percebi como esse tipo de coisa funcionou bem na Alemanha nazista.” Sal apenas balançou a cabeça e prometeu que tudo daria certo.

E o que me diz agora, Sal? Eles não vão me deixar em paz, não está dando certo. Nova York era o último lugar onde esperava ser capturada pela polícia por ser uma ás, ela disse quando houve uma pausa no interrogatório.

— Mas não somos da polícia — o belo homem disse de forma agradável, fazendo seu coração ficar ainda mais apreensivo.

— N-não são? Mas aquele camarada me mostrou um distintivo…

— Quem? Ah, aquele. — O homem, que disse para chamá-lo de Roman, riu. — Judas é policial. Mas eu não. E isso aqui dificilmente seria uma delegacia. Não é óbvio?

Jane fechou o rosto para o sorriso levemente incrédulo dele.

— Não sou daqui. E vi no noticiário o que aconteceu poucos meses atrás. Entendi depois disso que a polícia apenas armaria emboscadas em qualquer lugar onde precisasse ou tivesse que armar. — Ela baixou os olhos para o colo onde suas mãos se retorciam como duas criaturas separadas num combate silencioso. — Não teria falado nada sobre o Sal se soubesse que vocês não eram da polícia.

— Que diferença isso faz, Srta. Dow? Ou posso chamá-la de Jane, já que não gosta de ser chamada de Nenúfar?

— Faça o que quiser — disse ela, desgostosa. — Vai fazer de qualquer jeito.

Ele a surpreendeu ao levantar e dizer às pessoas no corredor para trazer café e algo para comer.

— Me ocorreu que a mantivemos aqui muito tempo sem um lanche. A polícia não faria isso por você, Jane. Ao menos, não a polícia da cidade de Nova York.