Ela inspirou fundo e soltou o ar lentamente.
— Claro. Então, acho que posso beber meu café e ir embora.
O homem nunca parava de sorrir.
— Aonde você precisa ir?
— Vim pra cá… para cá, Nova York. Digo… estou procurando o Jumpin’ Jack Flash. Eu o vi no noticiário…
— Esqueça. — O sorriso ainda estava lá, mas os olhos eram gelados. — Vocês não podem fazer nada um pelo outro.
— Mas…
— Eu disse esqueça.
Ela baixou os olhos para o colo novamente.
— Olha só, Jane — a voz dele se suavizou. — Estou apenas tentando te proteger. Você precisa disso. Imagino o que um cachorro-quente daqueles faria a um petisquinho inocente como você. Considerando que o Astrônomo acredita que você tem uma utilidade.
Ela ergueu novamente a cabeça.
— Uma utilidade?
— Uma utilidade para os seus poderes, eu deveria ter dito. Perdoe-me.
O riso de Jane foi breve e amargo.
— Uma utilidade para o meu poder é uma utilidade para mim. Talvez eu seja inocente perto do senhor, mas não sou idiota. Sal costumava me alertar sobre isso.
— Sim, mas Sal não era um ás, era? Era apenas um mariquinhas patético, um daquele tipo de curinga lá do passado que sempre tivemos no mundo. Um dos erros da natureza.
— Não fale dele desse jeito! — ela explodiu, a umidade de repente brotou de seu rosto e correu pelos seus braços e pernas. O homem a encarou, admirado.
— Está fazendo isso de propósito? Ou é apenas uma reação ao estresse?
Antes que ela pudesse responder, o homem vermelho e a mulher oriental entraram com uma bandeja cheia de sanduíches pequenos e feitos com esmero. Jane acalmou-se e observou o casal deixando tudo sobre a mesa, até mesmo servindo café.
— Fresquinhos, da cozinha do Mosteiro — Roman disse, apontando a bandeja. — Um ás precisa manter suas forças.
— Não, obrigada.
Ele balançou a cabeça para o casal, eles haviam tomado posições em cada lado da porta. Mais água correu do rosto de Jane e pingava das pontas dos cabelos. As roupas estavam ficando encharcadas.
— É água retirada do ar à minha volta — ela disse a Roman, que começava a ficar alarmado. — Acontece às vezes quando estou sob pressão ou… ou sei lá.
— Lutar ou fugir — disse ele. — A adrenalina produz suor para deixar você mais escorregadia, mais difícil de agarrar. Provavelmente o mesmo princípio em ação.
Ela o encarou com outros olhos. Nem mesmo Sal havia pensado nisso e ele era bem esperto, com todos aqueles experimentos para testar a profundidade e o alcance do seu poder. Apenas por conta de Sal ela sabia que seu poder agia em objetos a não menos de um quilômetro de distância. Ele também percebeu que ela poderia fazer com que átomos se combinassem para criar água, bem como retirar água já existente das coisas, e foi ele quem calculou que levaria 48 horas para se recarregar após exaurir seu poder, e a treinou para estender sua energia de forma que não se esgotasse de uma vez. “Não é bom ficar totalmente indefesa”, ele dizia. “Nunca deixe acontecer.” E desde aquela vez na volta para casa em Massachusetts, ela não deixou e nunca deixaria novamente. Sal cuidou dela naqueles dois dias quando ela ficou meio assustada e meio esperançosa de que o poder havia acabado de uma vez por todas. Porém, Sal estava certo sobre a volta; ela estava preparada para entregar-se totalmente a ele.
Ele a rejeitou. Novamente, ela se ofereceu e ele a evitou. Não poderia ser seu amante, ele disse, e não seria seu pai. Ela teria de se responsabilizar por si mesma, como todo mundo. E, então, como se para se fazer entender, voltou ao seu apartamento e afogou-se na banheira.
Como alguma ideia sádica da piada mais cruel do mundo, Sal Carbone, seu único amigo de verdade, caiu, bateu a cabeça e respirou água ensaboada até morrer. Apenas cinco semanas antes.
“Sal, você é minha alma gêmea”, dizia para ele a todo o momento, e ele permitiu que fosse verdade. Tinham uma amizade rara, uma união de mente, coração e espírito. Perfeitos um para o outro, exceto pelo fato de que ele era gay. A segunda piada mais cruel do mundo.
— Nenúfar.
O nome a lançou de volta ao presente.
— Já disse para não me chamar assim. Apenas Sal me chamava de Nenúfar.
— A opção exclusiva de Sal expirou com ele. — O homem, de repente, suavizou novamente a voz. — Deixe pra lá, minha cara. Me diga apenas quanto você sabe sobre o que vem acontecendo nos últimos meses.
— Tanto quanto qualquer outra pessoa. — Ela esticou o braço, tímida, e pegou a xícara de café mais próxima a ela. — Assisti ao noticiário. Acho que mencionaram isso.
— Bem, não acabou. No próximo mês, esta cidade… este país, o mundo inteiro… verá algo que faria aquilo que aconteceu meses atrás parecer um piquenique de escola bíblica. Apenas as pessoas que recrutarmos terão a chance de terminar do lado certo do túmulo.
Mais água brotou do rosto dela.
— Se vocês não são a polícia, quem são vocês?
O homem sorriu, como numa aprovação, quando ela bebericou o café.
— O que sabe sobre os maçons, Jane?
— Maçons? Maçons? — Apesar de tudo, ela deu uma gargalhada. — Meu pai é maçom! — Ela forçou até seu riso se acalmar antes que ficasse histérico. — O que os maçons têm a ver com tudo isso?
— Rito escocês.
— Perdão? — O riso de Jane cedeu e desapareceu. A frieza invariável havia voltado ao sorriso do homem.
— A afiliação do seu pai provavelmente era do rito escocês. Somos egípcios. Os egípcios são muito diferentes.
Suas risadinhas ameaçaram voltar.
— Engraçado, você não parece egípcio.
— Não seja abusada, não combina com você.
Ela olhou para o homem e a mulher ao lado da porta.
— Vocês que sabem de tudo. Eu acabei de chegar. — Mais umidade saltava do seu rosto e escorria pescoço abaixo. — E não posso ir embora, posso?
— Precisamos de você, Jane. — Ele parecia quase gentil agora. Puxou um guardanapo da mesa e enxugou o rosto dela. — Precisamos muito mesmo de você. Seu poder pode fazer toda a diferença.
— Meu poder — ela repetiu, pensativa, lembrando-se do garoto na cafeteria cinco anos antes, lágrimas rolando dos olhos enquanto ele gritava. Não havia chorado nem um pouco com a notícia do suicídio de Debbie (hemorragia advinda de lacerações autoinfligidas – jargão médico para ela cortou os pulsos e sangrou até a morte – e, ah, sim, a vítima estava na 13a semana de gravidez). Ela sempre se perguntou o que Debbie teria pensado sobre o que faria com seu namorado infiel. Debbie era sua melhor amiga antes de Sal, mas nunca rezou para Debbie como fez para Sal, como se Debbie pertencesse a algum outro universo. Talvez fosse assim. E talvez ainda houvesse outro universo onde Debbie não tirasse sua vida quando o pai do bebê a rejeitasse, e assim Jane não teria precisado arrancar lágrimas dos olhos do garoto, nem o vírus carta selvagem teria se manifestado. E, então, talvez houvesse mesmo outro universo no qual Sal não se afogasse na banheira, deixando-a sozinha e precisando de alguém, qualquer um, para confiar. Talvez…
Ela olhou para o homem sentado à sua frente. Talvez se porcos tivessem asas, eles poderiam voar alto como as águias.
— Precisamos de você — disse ele. Fosse lá quem fosse nós. Maçons egípcios, sei lá. Como seria bom ela se entregar aos cuidados de alguém e saber que seria observada e protegida.
Consegue entender isso, Sal?, ela pensou para o grande vazio. Pode entender o que é estar totalmente sozinha com um poder grande demais para você? Eles precisam de mim, Sal, é o que dizem. Não gosto deles — e você os odiaria, mas eles cuidam de mim e eu preciso de alguém para fazer isso bem agora. Estou sozinha, Sal, não importa onde eu esteja, e cheguei aqui por caminhos perdidos e não há outro lugar para ir. Entende, Sal?