Não houve resposta do grande vazio. Ela se flagrou concordando com o homem bonito.
— Tudo bem. Eu fico. Digo, sei que não vão me deixar ir embora, mas vou ficar por livre e espontânea vontade.
O sorriso dado como resposta por ele quase aliviou o coração dela.
— Entendemos a diferença. Red e Kim Toy levarão você ao seu quarto. — Ele se levantou e esticou o braço para lhe dar a mão. — Bem-vinda, Jane. Você é um dos nossos agora.
Ela se encolheu, erguendo as duas mãos como se estivesse na linha de tiro.
— Não sou, não — disse com firmeza. — Fico aqui por vontade própria, mas é tudo. Não sou uma de vocês.
Aquela frieza assustadora voltou aos olhos dele. Ele deixou a mão cair.
— Tudo bem. Você fica, mas não é uma das nossas. Entendemos essa diferença também.
O quarto que deram a ela ficava no canto de alguma área maior de pedras lúgubres e frias convertidas num aglomerado de quartos menores com paredes de gesso pré-fabricadas. Cuidadosamente, haviam buscado seus poucos pertences do conjugado mínimo que alugara, e também com cuidado lhe trouxeram uma televisão e uma cama. Ela assistiu ao noticiário, buscando mais vídeos do Jumpin’ Jack Flash. Ou se ocupava produzindo gotículas de água com as pontas dos dedos e vendo-as se distenderem e caírem.
— Ela é bonita? — perguntou o Astrônomo, sentando-se em sua cadeira de rodas ao lado do túmulo de Jean d’Alluye. Ainda havia um pouco de sangue na imagem de pedra; ultimamente, o Astrônomo sentia a necessidade de recarregar seu poder.
— Bem bonita. — Roman deu um golinho da taça de vinho e a descartou sobre a mesa do pregador ao lado. O Astrônomo sempre lhe oferecia coisas – álcool, drogas, mulheres. Ele experimentava por cortesia e deixava o que fosse de lado. Ninguém sabia exatamente até onde o Astrônomo deixaria aquilo continuar. Cedo ou tarde, ele teria de fazer algum pedido bizarro que envolvesse a humilhação de Roman. Ninguém saía da associação com o Astrônomo ileso. A atenção de Roman pairou sobre uma área sombria embaixo de um arco de tijolos onde a ruína maldita e magrela chamada Ceifador se arrastava taciturno, seu olhar insondável fixo em algo que ninguém podia ver. Em outra parte da sala, próximo dos postes com lamparinas, Kafka chiava impaciente. Não conseguia parar de chiar com aquele maldito exoesqueleto. Parecia uma multidão de baratas passando de élitro para élitro. Roman não se importava em tentar esconder sua repulsa pela aparência de Kafka. E o Ceifador – bem, ele era mais que nojento. Às vezes, Roman pensava que mesmo o Astrônomo ficava cheio de dedos com o Ceifador. Porém, tanto o Ceifador como Kafka passaram pelas humilhações reservadas do vírus carta selvagem, enquanto ele conseguia apenas esperar e conferir o que o Astrônomo tinha em mente para ele. Esperava que houvesse tempo o suficiente para saber para que lado saltar. E, então, havia Ellie… O pensamento em sua mulher era um soco no estômago. Não, por favor, não mais por Ellie. Ele olhou para a taça de vinho e recusou-se pela milionésima vez a sucumbir ao desejo por anestesia. Se eu cair… não, quando eu cair, caio em plena posse das minhas faculdades…
De repente, o Astrônomo riu.
— Melodramas combinam com você, Roman. É sua boa aparência. Posso ver você em outra vida, resgatando viúvas e órfãos em nevascas. — O riso esmaeceu, deixando um sorriso malicioso. — Cuide-se ao lado da garota. Pode acabar um pouco cedo demais como o pó que todos somos.
— Eu poderia. — O olhar de Roman foi até a galeria superior. As esculturas de madeira italiana estavam desgastadas; ele não conseguia lembrar a aparência delas. — Mas não irei.
— E o que te dá tanta certeza?
— Ela é tranquila. Boa moça. Uma inocente de 21 anos, não tem o assassinato na alma. — Tardiamente, olhou para o Ceifador, que o encarava de um jeito que ninguém gostaria de ser encarado pelo Ceifador.
Roman agarrou um pedestal partido. Seria horrível, mas não duraria muito, não mesmo. A eternidade de poucos segundos. Ao menos, o colocaria além do alcance do Astrônomo por todo o tempo. Mas também significaria que ele não poderia ajudar Ellie. Desculpe, querida, ele pensou, e esperou pela escuridão.
Um quarto de segundo depois, o Astrônomo ergueu um dedo. Ceifador mergulhou de volta em si mesmo e voltou a olhar para o nada. Roman forçou-se a não suspirar.
— Vinte e um — refletiu o Astrônomo, como se alguém do seu pessoal não tivesse escapado por pouco de ser morto por uma de suas máquinas assassinas. — Que bela idade. Cheia de vida e força. Não é a idade mais criteriosa. Uma idade impulsiva. Tem certeza de que não tem nem um pouco de medo dos impulsos dela, Roman?
Roman não conseguiu evitar um olhar furtivo para o Ceifador, que não estava mais prestando atenção.
— Não ligo de arriscar minha vida por alguém cujo coração está no lugar certo.
— Sua vida. — O Astrônomo deu uma risadinha. — Que tal algo que tenha valor?
Roman permitiu-se um sorriso em resposta.
— Desculpe, senhor, mas se minha vida não tem valor algum para o senhor, teria deixado o Ceifador acabar comigo há muito tempo.
O Astrônomo estourou numa gargalhada surpreendentemente animada.
— Cérebro e boa aparência. São eles que fazem você útil demais para todos nós. Deve ter sido o que atraiu sua mulher também, não acha?
Roman manteve seu sorriso.
— É muito provável.
Os sonhos dela estavam cheios de figuras estranhas, coisas que ela nunca tinha visto antes. Atrapalhavam seu sono, passando pela cabeça com uma urgência que parecia direcionada, e a lembrava dos pedidos ardentes de Roman para que ela se juntasse a eles. Fossem lá quem fossem. Maçons egípcios. Seus sonhos lhe diziam tudo sobre eles. E o Astrônomo.
O Astrônomo. Um homúnculo, menor do que ela, esquálido, cabeça grande demais. O que Sal teria chamado de olhos malditos enquanto fazia aquele sinal com a mão, o indicador e o dedo mínimo erguidos como chifres, o do meio curvado sobre a palma, algum tipo de coisa italiana. O rosto de Sal flutuava brevemente pelos sonhos e era varrido de repente.
Ela via a entrada de algum tipo de igreja… não, um templo, definitivamente não uma igreja. Viu, mas ela não estava lá, não poderia ter estado lá; era um tempo antes de ela ter nascido. Sua presença desencarnada percorria uma rua noturna e então flutuava pelos degraus do templo, passando por um homem na porta que parecia estar congelado. Teve um lampejo de uma sala grande brilhando com velas, duas colunas, e um homem numa plataforma, vestindo uma coisa gritante, vermelha e branca sobre a fronte, pouco antes de os gritos começarem.
Não apenas gritos, mas gritos, GRITOS, arrancados da garganta de uma alma que se perdia. O som a aguilhoava. Era o momento, do ponto de vista dela, de dar uma volta como uma câmera para que pudesse ver que era o homenzinho gritando, o Astrônomo, cambaleando para dentro do salão. Então, houve uma rápida confusão de imagens, um rosto de chacal, uma cabeça de falcão, outro homem, seu rosto largo e pálido; luz reluzindo dos óculos do homenzinho e, então, uma coisa, uma criatura-coisa-lodo-massa-maldita-coisa-coisa-coisa…
Ela se flagrou sentando na cama, seus braços erguidos na frente do rosto.
— TIAMAT. — Espontânea, a palavra brotou dela, e indesejada pairou lá na escuridão. Ela esfregou o rosto com as mãos e deitou-se novamente.
O sonho voltou de imediato, arrastando-a com força horrível. O homenzinho com cabeça enorme sorria para ela — não, não para ela, ela não estava lá e ficou feliz; não queria ninguém sorrindo para ela daquele jeito. Seu ponto de vista retrocedeu e ela viu que ele agora estava em pé, na plataforma, e em torno dele viu diversas figuras —Roman, o homem vermelho, a oriental, uma ruína de homem com o sentimento de morte em torno dele, uma mulher com o arrependimento tão talhado nas suas feições que doía olhar para ela (de alguma forma, ela sabia que a mulher era uma enfermeira), um jovem albino com um rosto prematuramente velho, uma criatura — macho, ela pensou — que poderia ser uma barata antropomórfica. Pela graça de Deus não foi comigo, ela pensou.