Deus ainda está na pausa para o café, garotinha. Ela estava olhando para o rosto do homem que a levara ali, aquele que chamavam de Judas. Era o único que podia vê-la. É apenas a sorte da carta que tiramos, querida, e você foi sortuda. E eu também. Blackjack!
Tudo ficou escuro. Uma sensação de movimento incrivelmente rápido. Algo a impelia na direção de um pontinho de luz adiante na escuridão.
E, então, de repente, ela estava lá; a luz cresceu de um ponto para uma massa ardente e ela se chocou com toda a força na velocidade do pensamento. A luz estilhaçou-se e ela tropeçou de leve no chão musgoso de uma floresta. Rolou uma vez e pousou gentilmente na base de uma grande árvore.
Bem, ela pensou, melhor assim. Devo ter perdido o Coelho Branco, mas o Chapeleiro Maluco deve estar em algum lugar por aqui. Ela mudou de posição e teve de se agarrar a uma grande raiz para evitar a flutuação.
Olhe, sussurrou uma voz bem perto dela. Ela virou a cabeça, os cabelos flutuando em torno dela como se estivesse sob a água, mas ela não viu ninguém. Olhe. Olhe! Olhe e você os verá!
Uma baforada de névoa soprou entre dois lariços diante dela e se desintegrou, deixando para trás um homem vestido no alto do refinamento do século XVIII. Seu rosto era aristocrático, os olhos tão penetrantes que ela tomou fôlego enquanto seu olhar pousava nela. Mas ela não tinha o que temer. Ele se virou, o ar atrás dele reluziu e uma máquina estranha surgiu. Ela piscou diversas vezes, tentando vê-la claramente, mas os ângulos recusavam-se a se firmar. Por mais que tentasse, ela não conseguia dizer se era grande e pontuda ou pequena e moldada, esculpida em mármore ou cravejada com madeira e pregos. Algo brilhou e soltou-se da máquina. Ela ficou maravilhada; uma parte dela simplesmente se ergueu e afastou-se.
Não. O que ela pensou foi que parte da máquina era um ser vivo. Ela queria desviar o olhar por um momento, mas não conseguia. Ele não a deixaria. Alienígena. Reminiscente de outros alienígenas que ela tinha visto no noticiário no ataque. Jumpin’ Jack Flash. O pensamento foi impecavelmente descartado.
O alienígena virou-se para o homem e esticou um braço, ou um apêndice. Agora, ele começou a parecer mais uma matéria viva do que parte de uma máquina. O alienígena transformou-se suavemente em algo quase bípede, embora parecesse manter a forma apenas por uma vontade intensa — a hipótese ergódica (de onde veio aquilo?). O apêndice tocou a máquina e se integrou a ela. Um momento depois algo se projetou da lateral próxima ao homem. Ele o segurou e removeu-o com todo o cuidado. O alienígena afundou um pouco, diminuído. Ela percebeu que ele despendeu uma quantidade grande de sua força vital para dar ao homem… o quê?
O homem levou a coisa até os lábios, à testa, e então ergueu-a sobre a cabeça. Por um momento, aquilo assumiu a forma de um osso humano, um taco, uma arma, então algo mais.
Shakti, sussurrou a voz. Lembre-se disso. O dispositivo Shakti.
Nunca esquecerei, ela pensou. A sensação flutuante estava começando a sair dela e o medo cresceu.
Agora, olhe. Olhe para cima.
Sem querer, ela ergueu a cabeça e olhou para o céu. Sua visão subiu, correndo através da luz do sol, através do azul, das nuvens, até deixar totalmente a Terra, e ela estava olhando para as estrelas nuas. As estrelas dispersaram-se diante dela até que enxergasse a escuridão do espaço e, tranquilamente, sua visão estava viajando.
Havia algo à sua frente, invisível na escuridão. Algo… estava tão distante que ela não conseguia começar a conceber a distância. Estava a caminho da Terra. Estava nesta distância em 1777, quando aquele homem (Cagliostro, disse sua mente e ela não se perguntou como ela o conhecia) aceitou a coisa… Shakti… do alienígena, e então… e então… seguiu para realizar muitas façanhas vistas como milagrosas, inclusive leitura da mente, levitação, transubstanciação, surpreendendo a todos nas cortes da Europa, enquanto recrutava apaixonadamente maçons egípcios…
Ela lutou para absorver as informações despejadas nela pelo sonho. Não que importasse, porque quando acordasse não se lembraria de nada daquilo. É como são os sonhos. Não é?
… porque queria uma organização que mantivesse o dispositivo Shakti seguro e passasse de geração para geração, apenas a pessoas das mais confiáveis, até seus mistérios poderem ser desencadeados e concluídos, quando seria necessário para a chegada na Terra de…
Algo se contorceu diante dela na escuridão. Ou, talvez, a própria escuridão tivesse se retorcendo em agonia por precisar conter aquela coisa, este…
… para a chegada na Terra de…
Surgiu diante dela sem aviso ou misericórdia, muito pior do que foi quando ela a tocou na mente do Astrônomo. Era a reunião, a cristalização das formas mais finas, baixas, mais desenvolvidas, polidas e refinadas do mal no universo, mal que faria as maiores atrocidades humanas parecerem pequenas, mal que ela não conseguia entender, a não ser com suas entranhas, mal que corria na direção deste mundo havia milhares de anos, engolindo tudo em seu caminho, mal que chegaria em qualquer dia agora, qualquer dia.
TIAMAT.
Ela acordou aos gritos. Tinha mãos sobre ela, e ela lutava contra as mãos, contorcendo-se, golpeando. A água brotava dela, deixando o ar denso, encharcando a cama e o tapete.
— Sh, sh, tudo bem — disse uma voz. Não a voz do seu sonho, mas uma voz feminina. A oriental, Kim Toy, estava lá, tentando acalmá-la como se ela fosse uma criança delirante. Uma luz acendeu; Kim Toy a envolveu num abraço tranquilizador. Ela se deixou abraçar e quis que a água escorrendo sobre as duas parasse.
— Estou bem — disse quando conseguiu falar. O cabelo molhado pingava sobre os olhos, mesclando-se com as lágrimas. A cama inteira estava ensopada, mas ela viu com um pouco de alívio que havia poupado o restante do quarto.
— Você estava gritando — disse Kim Toy. — Pensei que alguém estivesse te matando.
TIAMAT.
— Tive um pesadelo.
Kim Toy acariciou gentilmente o cabelo da outra.
— Um pesadelo?
— Sonhei que alguém jogava um balde de minhocas no meu rosto.
O Astrônomo rugiu uma gargalhada.
— Ah, ela é excelente, realmente excelente!
O albino que estava sentado no chão próximo à cadeira de rodas olhou para cima, implorando.
— Foi um sonho bom, então?
— Ah, sim, o sonho foi excelente também. — O Astrônomo deu tapinhas sobre o cabelo branco. — Você fez certinho, Espectro.
O homem sorriu, a pele prematuramente envelhecida em torno dos olhos róseos enrugados com alegria patética.
— Roman.
No outro lado da sala sombria, Roman tirou os olhos da tela do terminal de computador.
— Vamos dar a ela apenas um pouco mais de tempo para que o horror amadureça antes de você apresentá-la ao resto de nossa pequena confederação. E mantenha Kim Toy protegendo-a.
Roman concordou com a cabeça, olhando furtivamente para o computador.
— Amanhã à noite de novo, Espectro — o Astrônomo disse para o albino. — Fará mais uma vez. Quero que ela acorde gritando nas próximas duas noites.