Os olhos róseos baixaram-se, envergonhados.
— Agora, agora. Você sabe que está bem melhor do que antes, quando vendia sonhos pervertidos a dez pratas. Perdoe-me a expressão. — O Astrônomo deu uma risadinha. — Você é um dos meus ases mais úteis. Agora, vá descansar um pouco.
Assim que o albino desapareceu numa galeria escurecida, o Astrônomo afundou na cadeira de rodas.
— Ceifador.
O Ceifador chegou ao lado dele de imediato.
— Sim, Ceifador. Nós dois precisamos disso agora, não? Chame o carro.
Roman permaneceu no terminal de computador enquanto Ceifador empurrava a cadeira do Astrônomo para fora. Sair para encontrar andando pela rua algum pobre-diabo, que não sabia que esse seria seu último encontro. Recusava-se a pensar naquilo. Não sentiria pena por nenhuma delas, não sentiria. Todos eles — Espectro, Kim Toy, Red, Judas, John F. X. Black, Coleman Hubbard (ah, não foi uma parte da obra, o grande ás do Astrônomo no buraco, um-zero-zero-um), mesmo aquele pedacinho de inocência chamado Jane Nenúfar — todos eram os mesmos, cada um deles. Peças no xadrez do Astrônomo. Ele mesmo também, mas apenas em nome de Ellie, para protegê-la.
ELLIE, ele digitou, as letras brilhando no monitor. EU TE AMO.
As palavras EU TE AMO TAMBÉM brilharam por um instante na tela antes que fossem substituídas por ENTRADA INVÁLIDA, PROGRAMA NULO.
Em algum outro lugar na cidade, Fortunato acordou, tremendo, o rosto coberto pelo suor frio.
— Calma. Calma, querido. — A voz de Michelle era suave, suas mãos macias e mornas. — Michelle está aqui. Estou aqui, meu amor, estou aqui.
Fortunado deixou que ela o embalasse nos braços e apertou o rosto em seus seios perfeitos.
— São aqueles sonhos de novo, não? Não se preocupe, estou aqui.
Ele esfregou o nariz no dela, acariciando a carne morna e desejando que ela dormisse. Então, escorregou para fora de seu abraço e trancou-se no banheiro elegante.
Uma vez que você entrou, entrou. O que aprendeu não pode ser desaprendido. Conhecimento era poder e o poder poderia aprisionar.
Ele teria que ligar para Tachyon; melhor, ir até o Village e acordá-lo.
Eileen.
Fortunato apertou os olhos até o pensamento sobre ela ter passado. Deveria ter feito Tachyon lhe dar algo para aquilo, algum tipo de droga do esquecimento para que não ficasse o tempo todo tropeçando nela dentro da mente, mas de alguma forma não conseguia fazer isso. Porque, então, ela realmente estaria acabada.
Ele jogou água no rosto e parou no ato de enxugá-lo com uma toalha, olhando para si mesmo no espelho. Por meio segundo, viu outro rosto coberto com água; jovem, mulher, olhos grandes e verdes, cabelos escuros avermelhados, muito bonita, uma estranha para ele, pedindo ajuda. Sem chamar por ele especificamente, mas clamando sem esperança por uma resposta. Rezando. Então, o rosto desapareceu e ele estava sozinho com seu reflexo.
Ele apertou a toalha contra o rosto. Um conjunto macio e luxuoso que Michelle havia trazido. Quando ela o levou para casa, esfregaram-se com elas e fizeram amor.
Kundalini. Sinta o poder.
(Lenore. Erika. Eileen. Todas perdidas para ele.)
Ele saiu para encontrar Michelle.
Jane aceitou a xícara fumegante de chá verde de Kim Toy e bebericou delicadamente.
— Já é a segunda noite seguida sem pesadelos — disse ela com um leve sorriso. — Eu espero.
O sorriso em resposta de Kim Toy foi menos que entusiasmado. A garota deveria ter virado um amontoado trêmulo de gelatina após os sonhos que o Astrônomo enviou para ela, e aquele mal foi um gostinho de TIAMAT. O contato real a teria deixado louca para sempre. Mas aqui está ela, a frágil e pequena inocente, bebendo chá e recuperando a cor. Foi feita de uma matéria mais dura do que qualquer um deles poderia acreditar. Sempre foi dos inocentes que você precisou cuidar, Kim Toy pensou, irônica. Sua força era como a força de dez, pois seus corações eram puros e sua sinceridade os tornava letais. Ela pensou se velhos pervertidos malucos como o Astrônomo tinham qualquer suspeita ou se ele estava tão longe de qualquer coisa que sequer lembrasse remotamente a inocência que ele mal conseguia conceber algo assim. Quando ela pensou sobre o jeito pelo qual o Astrônomo recarregava seus poderes, sim, ela poderia imaginar que era totalmente possível. O que um velho maldito e doente como esse saberia sobre inocência?
E ele estava prestes a dominar o mundo. Com certeza.
Mas ela acreditava naquilo. Era inabalável naquilo. Tinha sido inabalável. Não, ainda era. Não era? E quem estava chamando de velho maldito e doente? Então, o que era quando você confundia o cérebro de um homem para fazer com que ele se apaixonasse por você e, em seguida, quando ele servia ao seu propósito, você passava de confundir a liquefazer, e as mesmas pessoas que se livraram dos corpos para o Astrônomo se livrariam daquele também. Ela olhou para Jane. Não era de surpreender que preferisse a companhia das mulheres se não podia estar com Red.
Jane esticou o braço e apertou o botão Ligar do controle remoto. A tela da TV veio à vida, piscando.
— Eu assisti ao Pouso da Peregrina na noite passada e não tive sonhos — disse ela, um pouco tímida. — Virou uma superstição. Sinto como se tivesse que assistir para manter os pesadelos longe de mim. Mesmo se for reprise.
Kim Toy concordou com a cabeça.
— Você e cerca de um bilhão de outras pessoas.
— Sal adorava talk shows. Especialmente o Pouso da Peregrina. Dizia que assistia porque morria de ansiedade para saber como eles enfeitariam aquelas asas toda noite. — Ela fez uma pausa quando um comercial deu lugar às feições estonteantes da Peregrina. — Sal dizia que eles nunca o decepcionavam.
— Quem?
— O departamento de figurinos.
— Ah. — Kim Toy ficou em silêncio e assistiu ao programa com a garota, cumprindo o dever. Meia hora depois, a imagem de um homem bonito e ruivo com olhos cor de mel e um rosto magro e esculpido apareceu na tela, fazendo com que Jane pulasse da cadeira.
— É ele! — Ela ajoelhou perto da TV. — Jumpin’ Jack Flash. Acompanhei todas as histórias de noticiários sobre ele. É um dos meus heróis.
Kim Toy aumentou o som. O rosto do homem desapareceu e foi substituído pelo set do talk show, onde Peregrina entrevistava uma mulher com roupas muito caras segurando uma câmera que parecida ainda mais cara.
— Acho que você capturou exatamente o espírito do Jumpin’ Jack Flash — Peregrina estava dizendo. — Não poderia ter sido mais fácil.
— Bem, foi tudo mais difícil, porque foi uma foto ingênua — disse a outra mulher. — Acredite ou não, só tive sorte, estando no lugar certo na hora certa. J.J. não sabia que eu estava tirando a foto, embora mais tarde ele tenha me dado permissão para usá-la.
— J.J.? — perguntou Peregrina.
A fotógrafa baixou os olhos, modesta.
— Assim que as pessoas íntimas o chamam.
— Posso apostar — murmurou Kim Toy.
— Oi? — Jane perguntou.
— As “pessoas íntimas”. Dá um tempo. Ele deve dizer a todas as mulheres com quem dorme para chamá-lo de J.J., assim ele pode rastrear. É mais fácil que lembrar os nomes, e muito menos problemático do que cortar um pedaço da orelha ou arrebanhar todas e marcá-las.
Jane olhou um pouco magoada. Um dos seus heróis, certo. Kim Toy balançou a cabeça. Na idade dela, a garota já havia passado do tempo de aprender que certos heróis não tinham… bem, paus de barro, mas certamente uns bem hiperativos.
Como seus heróis, senhora? Como o Astrônomo, talvez?
Kim Toy espantou aquele pensamento e se forçou para se concentrar na entrevista. A fotógrafa aparentemente especializada em fotografar ases. Mais fotos piscaram na tela; para alegria de Jane, Jumpin’ Jack Flash reapareceu várias vezes entre as imagens de Modular, Dr. Tachyon, a carapaça do Grande e Poderoso Tartaruga, Estelar e da própria Peregrina.