— Que pena que ela não possa tirar sua foto — disse Kim Toy quando o quadro acabou e o programa foi novamente para o comercial.
Jane deu de ombros.
— Sou curinga.
— Você está começando a me dar nos nervos.
— Mas o curinga está comigo. Uma a cada duas pessoas que significavam muito para mim se afogou; a outra sangrou até a morte. — Ela virou as costas para a TV. — Sim, o curinga está definitivamente comigo e não tem graça nenhuma.
Kim Toy estava prestes a responder quando algo brilhou no ar à direita do aparelho de TV. As duas mulheres ficaram muito quietas enquanto a imagem do Astrônomo se cristalizava nas sombras.
— Kim Toy. Jane. Quero ver vocês.
Não havia necessidade de responder. Kim Toy permaneceu numa espécie de atenção, esperando não mostrar sua chateação. Um teatrinho barato para o bem de Jane. O Astrônomo deve ter pensado que ela era um inferno de bilhete premiado, já que foi tão longe a fim de impressioná-la. Poderia ter conservado a energia e enviado Red para buscá-las.
Dr. Tachyon ainda estava no seu melhor estilo, mesmo já passando da meia-noite.
— Sei que ele tinha alguns ases lá. Mas a máquina que você descreve dos sonhos… bem, ela não existe e é muito velha para os seus padrões. — Seus olhos apertaram-se enquanto estudava a testa inchada de Fortunato. — Muito mais estranho para você ter uma experiência fora do corpo espontânea, não é?
Fortunato virou as costas para Tachyon (maricas maldito, tudo de que precisamos, maricas do espaço) e olhou para a janela na direção do Mosteiro.
— Vim aqui só pra te contar. Há um poder imenso se acumulando lá. Ele me chamou. Poder atrai poder.
— De fato — murmurou Tachyon. Maricas do espaço. Fortunato nunca o amaria, mas nunca tinha visto o terráqueo alto e exótico nesse estado abertamente emocional antes.
— Estão chamando aquela coisa lá. TIAMAT. Toda a organização já existe há séculos apenas para trazer aquele horror até nós.
O suspiro de Tachyon foi pesado. De repente, sentiu-se muito cansado. Quarenta anos de um horror atrás do outro, tinha direito de se sentir fatigado. Sabia que Fortunato, ali, em pé, em sua sala de estar elegante com sua testa protuberante e o poder praticamente estalando no ar, não teria concordado com ele.
Poder atrai poder? Ah, o que ele poderia ter dito sobre isso, Tachyon pensou. E se pudesse voltar o suficiente para ver o grandioso desenho do universo, o que poderia ter aprendido sobre seu próprio povo e o Dia da Carta Selvagem e a aproximação de TIAMAT ou do Enxame ou fosse lá o que tiver sido. Talvez houvesse um grande desenho verdadeiro para o universo; ou talvez fossem apenas os poderes do carta selvagem chamando o Enxame. Claro, isso significaria que o vírus atraiu o Enxame antes de ele sequer existir, mas Tachyon estava acostumado a lidar com os absurdos do espaço e do tempo.
Não que isso importasse de qualquer jeito. Ele olhou para Fortunato, que estava energizado com kundalini e impaciência. O tempo de agonizar já havia passado havia muito, muito; agora era tempo de fazer, de fazer o máximo que podia, e nem um pouco menos. Talvez, para expiar por um tempo em que poderia ter feito mais, mas falhou.
Quando ele falhou com Blythe.
Após tantos anos, a sensação da perda não arrefeceu. Não estaria escondida no fundo de uma garrafa, não poderia ser obscurecida por uma fileira interminável das amantes mais belas. Apenas o trabalho que fazia na clínica parecia dar a ele algum tipo de conforto, inadequado, mas melhor do que nada.
Seu olhar encontrou o de Fortunato, e ele reconheceu o olhar nos olhos do outro.
— Poder atrai poder e aflição atrai aflição. — Ele deu a Fortunato seu sorriso mais sincero. — Todos perdemos algo de precioso para nós nesta batalha contra o horror. Mas ainda precisamos seguir em frente, seguir em frente e virar as costas para a escuridão, se pudermos.
Fortunato não retribuiu o sorriso. Tudo parecia levar para um de seus malditos discursos de maricas de merda.
— Sim, claro — disse ele, ríspido, virando-se. — Vamos lá pra cima dar uma surra nos caras, você e eu e qual exército?
Tachyon pegou o telefone.
— Temos que convocá-lo.
O policial jogou mesmo uma rede sobre ele. Foi tão assustador que ele se reverteu para a forma humana, ralando cotovelos e joelhos e arranhando a carne enquanto rolava várias vezes na calçada. O policial estava rindo enquanto ele puxava a arma e enfiava através da rede.
— Nem pense em se transformar — disse o policial —, ou terei que tirá-lo de sua desgraça. Meu Deus, espere até eles verem o que você faz lá no Mosteiro. Mal posso acreditar.
Ele estremeceu na rede, incapaz de tirar os olhos do cano da pistola. O policial realmente atiraria nele, disso ele não duvidava. Em silêncio, xingou-se por não ter se contentado em simplesmente pairar sobre a cidade, aproveitando as luzes e matando de medo os casais ocasionais nos telhados. Quantas pessoas poderiam dizer que foram assustadas por um pterodátilo… ultimamente?
O policial o jogou no banco traseiro do carro e seguiu até a cidade, ainda abafando o riso enquanto falava.
— Não sei o que o Astrônomo vai querer fazer com você, mas provavelmente ele vai se divertir à beça. Você se transforma no menor tiranossauro que já houve.
— Ornithosuchus — ele murmurou, engolindo com dificuldade. Outro ignorante sobre dinossauros portando uma arma. Não tinha certeza do que deveria temer mais – a arma, o tal Astrônomo, ou o próprio pai, que logo descobriria que ele não estava no quarto, dormindo. Tinha apenas 13 anos e não devia estar a essa hora numa escola noturna, especialmente na forma de um carnívoro veloz do período triásico.
— Venha aqui, minha querida. Para que eu possa te ver melhor.
Jane hesitou. A aura de maldade que seus sonhos sugeriram estava mesmo presente em torno do velho na cadeira de rodas. A umidade começou a brotar levemente do seu rosto e pescoço. Olhou para Kim Toy, mas a atenção da mulher estava voltada para o Astrônomo, como a de todos no grande salão. Fossem quem fossem. Maçons. Ela reconheceu o homem que a trouxera — Judas, assim Roman o chamava. Roman estava sentado diante de um terminal de computador afastado, na lateral, perto de uma parede de tijolos baixa que parecia ter sido atacada com uma picareta. Escrito com spray em dourado metálico estava a legenda: COMA-ME.
— Você tem um grande poder, minha querida — disse o velho. — Um que seria de grande utilidade para o visitante que está chegando das estrelas. TIAMAT. — Ele fez uma pausa, aguardando a reação dela. Ela estava em pé, desconfortável sob o olhar dele. A iluminação extra que trouxeram e penduraram de forma tão negligente apenas fez as sombras nos cantos mais distantes ficarem ainda mais escuras. Dava a sensação de coisas horríveis esperando por um sinal desse Astrônomo, para rastejar para longe das sombras e devorá-la. COMA-ME. Pousou o cotovelo no punho, apertando a outra mão contra a boca para que não pudesse começar a rir e nunca mais parar.
— Este nome é familiar para você? TIAMAT? — continuou o Astrônomo. Jane apertou a mão com mais força sobre a boca e deu de ombros de uma forma desajeitada.
— Bem. — O velho reclinou-se um pouco para a frente. — Seria útil se pudéssemos ter uma demonstração do seu poder. Além daquilo que você fez na rua com o hidrante. — Ele semicerrou os olhos para ela. — Ou você está fazendo isso agora, minha querida?
— Ah, é realmente sutil — disse o homem magro e pálido em pé do lado direito do Astrônomo. Seus olhos faziam Jane pensar em lápides. — Era tudo de que precisávamos, uma ás cujo grande poder é suar muito. Dominação do mundo, aí vamos nós.