O Astrônomo deu uma risadinha e Jane pensou que foi o som mais maléfico que ela já tinha ouvido.
— Muito bem. Todos sabemos que os poderes dela são muito maiores. Não é? Claro. Por exemplo, você poderia supostamente tirar toda a água de um corpo, deixando… bem, não muito. — Ele gesticulou para o restante das pessoas e riu novamente, olhando para o rosto dela. — Não, acho que não. O único em quem você poderia querer usar bem agora é em mim, e eu sou imune. — Ele balançou a cabeça na direção de Red, que desapareceu sob um dos arcos de pedra. Momentos depois, ele reapareceu, trazendo dois homens que empurravam uma jaula sobre rodas para o meio da sala. Jane piscou diversas vezes, incapaz de acreditar em seus olhos naquela penumbra.
Havia um dinossauro na jaula. Um tyrannosaurus rex com quase um metro de altura.
Enquanto ela observava, ele arreganhou os dentes ferozes e correu para a frente e para trás dentro da jaula, seus braços pequenos enrolados perto do corpo escamoso. Um olho escuro de réptil observava Jane com um lampejo de inteligência.
— Criatura odiosa — disse o Astrônomo. — Se eu a deixasse sair, poderia arrancar sua perna com uma mordida. Mate-a. Tire toda a água do corpo dela.
Jane baixou os braços, as mãos ainda fechadas em punhos.
— Ah, vamos lá. — Outra daquelas risadinhas maléficas. — Não me diga que você se emociona com cada dinossauro perdido que passa.
— Há alguém dentro dele — ela falou. — Quer uma amostra do meu poder? Aqui está um close-up!
Algo quase aconteceu. Ela se concentrou numa área bem na frente do rosto do Astrônomo, pretendendo jogar uns três litros de água nos olhos dele. O ar ficou difuso por um momento, então clareou. O velho lançou a cabeça para trás e rugiu uma gargalhada.
— Você estava certo, Roman, ela fica bem ousada nos momentos mais estranhos! Eu disse a você, minha queridíssima, que seu poder não funcionará se eu não quiser. Não importa quanto poder tenha, eu tenho mais. Não é mesmo, Ceifador?
O homem esquálido deu um passo à frente, pronto para obedecer a alguma ordem. O Astrônomo sacudiu a cabeça.
— Existe outro esperando por nós, muito mais receptivo. Ela não tentará jogar um balde de água na nossa cara.
Jane enxugou o próprio rosto, em vão. A água estava começando a empoçar ao redor dos seus pés. O Astrônomo a observava, imóvel.
— Para ter um poder verdadeiro, é necessário ser capaz de usá-lo, ser capaz de fazer certas coisas, não importa quanto você possa achá-las terríveis. Há mais poder do que você pode imaginar em ser capaz de fazer essas coisas, ou ser capaz de obrigar alguém a fazê-las. — Ele gesticulou na direção da jaula. Jane seguiu o movimento e então teve de cobrir a boca com as mãos para não berrar.
O tiranossauro tinha sido substituído por um garoto com não mais do que 12 ou 13 anos, com cabelos castanho-claros, olhos azuis acinzentados e uma pequena marca rósea na testa. Ele já seria surpreendente o bastante, exceto que também estava completamente nu. Encolheu-se nas barras, fazendo o máximo para se cobrir.
— Não há mais tempo para tentar cortejá-la, minha querida — disse o Astrônomo e toda a gentileza pretensa desapareceu da sua voz. — TIAMAT está muito próximo agora e não posso gastar nem um momento tentando convencê-la a ficar conosco. É muito ruim; matar uma criança, mesmo disfarçada de um dinossauro perigoso, teria unido você a nós de uma vez, de forma traumática, mas completa. Mas se eu tivesse mais algumas semanas, você teria sido nossa, sem nenhuma dor. Agora, é uma questão de escolher entre sua vida e sua pequena e corajosa ética. Você precisa decidir até eu acabar de cruzar esta sala. Não tenho dúvida de que você escolherá. Que sua ética possa sustentá-la na próxima vida. Se houver uma. — Ele gesticulou para o homem esquálido. — Ceifador…
Diversas coisas aconteceram ao mesmo tempo. O homem-barata deu um passo à frente com um som alto chiado e gritou Não!, bem quando a água espirrou no rosto do Ceifador com força suficiente para fazê-lo tombar e, então, outra voz, incrivelmente alta, rugiu “AQUI É O GRANDE E PODEROSO TARTARUGA! VOCÊS SAIRÃO PACIFICAMENTE, CERCAMOS ESTE LOCAL E NINGUÉM PRECISA SE MACHUCAR!”. E, então, como se fosse impossível, Jane pensou ter ouvido algo que soava como o velho tema dos desenhos Super Mouse: Vai salvá-los do perigooooooo! Foi seguido por um miado terrível que foi do baixo extremo a um agudo ensurdecedor, sacudindo o prédio inteiro. Houve um estouro quando a jaula tombou no chão, lançando o garoto para fora. Jane lutou para manter o equilíbrio e alcançou o garoto no meio do caos de pessoas tentando correr em todas as direções. Ele se transformou num outro dinossauro menor, muito magro e com aparência ágil, com dedos finos e garras. Ela se forçou a agarrar os dedos enquanto ele corria na direção dela.
— Precisamos sair daqui! — ela disse, sem fôlego, e mais do que um pouco desnecessário, e olhou em volta. O Ceifador e o Astrônomo haviam desaparecido. O pequeno dinossauro a puxou pelo salão e entrou numa galeria sombria sob as passagens abobadadas. De mãos dadas com um dinossauro, ela pensou enquanto fugiam pela galeria. Só em Nova York.
Ela não percebeu Kafka se movendo com dificuldade atrás deles.
Era realmente uma visão linda, o Grande e Poderoso Tartaruga disse mais tarde. Ases de todo o jeito saindo das árvores em torno do Mosteiro, lançando-se sobre os maçons que corriam para fora do prédio sobre os caminhos de tijolos e jardins arruinados. Ele viu praticamente tudo durante a batalha. Uma das coisas que ele perdeu, contudo, foi Jane e o garoto-dinossauro esgueirando-se em parte de uma arcada de colunas que cercava uma área externa coberta por ervas daninhas. Eles viram o Tartaruga pairando sobre eles com diversos ases em trajes coloridos agarrando-se à carapaça. Um dos ases apontou para algo; no momento seguinte, ele estava flutuando suavemente sobre a terra, sustentado pelo poder do Tartaruga. Jane, alarmada, ouviu o chiado do dinossaurinho. Quando ela se virou para ver o que acontecia, ele voltou a ser um garoto, sua nudez coberta pelas sombras.
— Aquele é o Tartaruga — ele sussurrou para Jane. — Se pudéssemos chamar a atenção dele, poderíamos sair daqui!
— Que tal você fazer isso?
Como resposta, ele se reverteu num dinossauro novamente, este bem musculoso e com olhos quase tão ferozes quanto o tiranossauro. Parecia levemente familiar a Jane, que não conseguia diferenciar um crocodilo de um jacaré. Tentou lembrar o nome. Um Alice-alguma-coisa-assim. Alice ou talvez alas, pelo olhar malvado que tinha, não era muito maior do que um pastor-alemão. Ele rosnou e a empurrou com suas mãos de três garras. Outro daqueles uivos grotescos; Jane sentiu o arrepio passando por ela e o pequeno dinossauro — alossauro, ela lembrou de repente, sem motivo — rugiu em resposta, agarrando a cabeça, cheio de dor. Ela se curvou com a intenção de abraçá-lo ou confortá-lo, quando houve uma lufada de penas, um tinir de metal, e então uma mulher extraordinariamente bonita pousou numa parede de mármore baixa.
— Peregrina! — Jane suspirou.
O alossauro fez um som baixo, empolgado, mirando a mulher alada com seus olhos selvagens.
— Melhor sair daqui — disse Peregrina, carinhosa. — O Uivador vai gritar até derrubar este lugar. Vocês conseguem aguentar, você e seu, hum, lagarto de estimação?
— É um garoto. Digo, ele é um garotinho, um ás…
O alossauro rugiu, concordando ou protestando por ter sido chamado de garotinho.
— Cruel, realmente cruel. — Peregrina sorriu para Jane enquanto ela se lançava para o alto, suas grandes asas batendo no ar. — Melhor saírem agora. É sério — ela falou e voou para longe, as famosas garras de titânio erguidas e prontas.