Jane e o alossauro correram pelo jardim arruinado e derrubaram outra arcada. Ela ouviu o pequeno dinossauro ficar para trás, e parou, apertando os olhos na escuridão.
— O que houve?
Ela conseguiu apenas vislumbrar uma silhueta humana.
— Tive que mudar. Preciso de um corredor mais rápido, estou ficando cansado. Hipsilofodonte é melhor do que um alossauro para correr.
Um momento depois ela sentiu longas garras tomando-a gentilmente e arrastando-a. Este era mais ou menos do tamanho de um canguru.
— Não acho que estamos indo pro caminho certo da saída — ela bufou quando chegaram a uma área de luz difusa e uma escadaria que descia. O dinossauro transformou-se num garoto por um instante antes de virar um pterodátilo e deslizar escada abaixo. Jane conseguia apenas trotar atrás dele. No fim da escada, o pterodátilo de repente arremeteu e voltou para ela. Por reflexo, ela desviou, tropeçou e bateu no fundo a tempo de ficar cara a cara com um homem mais bonito do que Roman. Vestia um traje de paraquedista azul-marinho e um capacete justo e havia armas que pareciam estar presas diretamente aos ombros.
— Olá — disse ele. — Não vi você na fuga do macaco?
Jane piscou, sacudindo a cabeça, atordoada.
— O que… eu não… — E então, quando as armas do homem se voltaram para rastrear o pterodátilo que o circundava. — Não! Ele é apenas um garoto, é um bom garoto!
— Ah, tudo bem, então — disse o homem, sorrindo para ela. — É melhor vocês dois irem. — Jane passou correndo por ele, o pterodátilo pairou sobre a cabeça dela. — Você tem certeza de que não vi você na fuga do macaco? — ele gritou atrás dela.
Ela não teria fôlego para responder, mesmo se quisesse. O pterodátilo planava diante dela, enquanto ela sentia as pernas enfraquecerem. Arfando, ela continuou aos tropeções, observando a distância entre ela e o pterodátilo começar a crescer.
O pterodátilo virou bruscamente numa esquina do corredor e desapareceu. Meio segundo depois, houve um flash de luz azul, um guinchado e um baque. Jane parou, encostando-se na parede de pedra. Por favor, ela rezou. O garotinho não. Não deixe que machuquem o garotinho, e eles podem fazer o que quiserem comigo. Ela se forçou a continuar, apoiando-se na parede, e espiou na curva.
Ele estava novamente transformado num garoto quando bateu no chão, mas ela conseguiu ver o peito subindo e descendo enquanto ele respirava. O homem-barata estava em pé diante dele com uma arma que parecia maldosa, como um ferrão.
— Tive de pará-lo — o homem-barata disse, olhando para ela. — Não está ferido de verdade. Sairá dessa em poucos minutos. Eu juro. Preciso de sua ajuda. — Ele esticou sua mão livre para Jane. Ela deu um passo à frente. O rosto não era humano, mas os olhos eram. Somente antes que ela pudesse pegar a mão dele, ele a tirou de volta.
— Foi apenas um gesto. Não me toque. Pegue ele no colo e venha comigo.
Jane ajoelhou-se ao lado do garoto inconsciente.
Judas estava em pé ao lado da tumba com as mãos sobre as orelhas, incapaz de clarear a mente tempo suficiente para decidir o que deveria fazer. Todas as vezes que tentava pensar, outro daqueles uivos terríveis vibrava através dele. Ele jurou que seus ouvidos estavam sangrando.
O caos estava além do acreditável. O pessoal do Astrônomo estava correndo para dentro e para fora do salão como o bando de perdedores de merda que realmente eram. Ele sabia que eram todos merdas no início, era policial tempo o bastante para reconhecer a raça. Isso era suficiente para fazer uma pessoa querer mudar de lado e começar a se livrar deles, e talvez aquela não fosse uma má ideia, com os ases detonando o lugar; claro, tinha sua insígnia, tinha sua arma, podia alegar que estava disfarçado, que se deu ao trabalho de verificar, ao menos aquela noite. Claro.
Olhou em volta e viu Red e Kim Toy seguindo para uma das galerias escuras, procurando a saída. Poderia começar com eles antes de qualquer outro, pensou, e sacou a arma.
— Parados! Parados ou eu atiro!
A cabeça de Kim Toy virou-se, seu cabelo longo, escuro e liso voando com o movimento.
Judas voltou sua mira do rosto dela para o de Red.
— Disse para não se mover!
Red ergueu a mão diante da cabeça quando Judas estava prestes a puxar o gatilho e então, de repente, Judas estava apaixonado. Pássaros estavam cantando, fazendo ninhos em seu cérebro, e o mundo todo era lindo, especialmente Kim Toy, a mais excitante e exótica das mulheres. Lançou sua arma longe e cambaleou na direção de Kim Joy, amando-a tanto que sentiu doer quando ela fugiu dele com Red.
Seus ouvidos estavam realmente sangrando agora, mas ele não se importava mais com a descoberta.
Como todos os cômodos naquele lugar, aquele ali lembrava uma capela. Ela conseguiu ver onde um altar ou uma pia batismal poderia ter existido; aquele local agora era ocupado por uma máquina.
— Você viu isso num sonho — Kafka disse para Jane, pousando a mão num dos ângulos impossíveis da máquina. Jane teve de virar o rosto – a loucura do contorno ameaçava embolar sua visão. Ela encarou para a forma mais prosaica de um gabinete de computador próximo com um monitor grande apagado e silencioso sobre ele.
— O dispositivo Shakti — disse ela.
— Sim. O dispositivo Shakti. — Ele se encolheu quando outro daqueles uivos horríveis atravessou o prédio. — Hoje à noite, todos poderemos morrer, mas isso deve ser protegido.
A boca de Jane torceu-se com aversão.
— Aquela criatura, TIAMAT…
— Nossa única chance…
Houve um farfalhar quando o garoto-dinossauro — Kid Dinossauro, ele disse a ela — enrolou um lençol do catre de Kafka bem forte em volta do corpo. Ela pediu para que ele ficasse na forma humana para que pudesse falar com ele e, de modo relutante, ele concordou, desde que o homem-barata lhe desse algo para se cobrir.
— Não sei quanto você acha que pode confiar neste cara — disse o garoto —, mas com certeza eu não confiaria.
Os passos eram ouvidos como baques surdos no salão lá fora, e Roman correu para dentro com olhos arregalados.
— O gabinete do computador… está tudo bem? — Sem esperar a resposta, ele empurrou Kafka de lado, mexendo loucamente no computador. — Ellie! Estou aqui, Ellie, estou aqui!
Kafka foi até ele.
— Onde está o Astrônomo?
— Quero que ele se foda — Roman disse e empurrou Kafka para longe. — Que ele e vocês todos se fodam! — Outro uivo sacudiu o prédio e os dois caíram contra o computador. Um dos painéis se soltou nas mãos de Roman, expondo parte dos circuitos do computador.
— Puta merda! — disse o garoto. — Que nojento!
Mesmo na penumbra, Jane conseguiu ver os circuitos pulsando, podia ver a textura das placas e a umidade nelas, a carne viva misturada com o maquinário rígido, morto. Ou a carne havia apenas endurecido? — Jane pousou a mão sobre os olhos, sentindo-se enjoada.
— Nenúfar!
O aviso de Kafka chegou apenas quando ela sentiu as mãos que vinham de trás. Elas a giraram e Jane encarou o olhar tumular do Ceifador. Ela pousou as mãos nos ombros dele e, por um momento absurdo, era como se ela o abraçasse.
— Está com medo de morrer? — ele perguntou para ela.
A essa altura, ela não achava a pergunta estranha.
— Sim — disse ela, simplesmente.
Algo no rosto dele mudou e suas mãos soltaram-se devagar.
— Nenúfar! — Kafka gritou novamente, a voz cheia de desespero. Mas ela permaneceu em pé, permaneceu viva, pousando uma das mãos no rosto seco do Ceifador. Ele recuava ao sentir o toque dela.
— Dói, não é?
— Tudo dói — disse ele com violência e empurrou-a para longe. Ela foi ao chão, perto da máquina de Kafka, e começou a levantar quando uma janela de vitrais grossos explodiu, espalhando estilhaços multicoloridos na sala. Ela cobriu a cabeça com os braços, encolhendo-se no chão; uma chama longa atravessou a sala, chamuscando madeira e pedra. Ouviu alguém gritar. Houve um chiado quando Kafka rastejou pelo chão até ela e tentou empurrá-la para perto da máquina.