— A única coisa — ele arquejou. Outro uivo os sacudiu como um terremoto. — … TIAMAT… proteger… precisa da sua ajuda para TIAMAT…
Ele foi separado dela; ouviu-o gritar com o contato. Então, alguém a ergueu e ela viu Kafka cair de costas depois de levar um chute na cabeça.
— Nãããão! — ela gritou. — Não o machuque, não! — Ela tinha visto aqueles olhos castanhos-claros milhares de vezes, a mais recente naquela noite. Sua boca movia-se, mas ela não conseguia emitir um som. Os olhos claros enrugaram-se com um sorriso rápido antes de eles a empurrarem para o lado.
— Para trás, querida, não quero que você se machuque. — Ele virou e começou a apontar para Kafka, para o dispositivo Shakti e para o garoto, que havia se transformado num dinossauro, um estegossauro dessa vez, e era muito óbvio que estava na linha de tiro. Jane lutou por sua voz e pelas palavras certas e soltou possivelmente a única coisa que poderia tê-lo parado de transformar todos em cinzas.
— J.J., não!
Jumpin’ Jack Flash virou-se para ela, boquiaberto com a surpresa.
Um momento depois, ficou ainda mais surpreso ao ver que ela estava coberta de água.
Fortunato entrava e saía correndo de cada cômodo, galeria e alcova que pudesse encontrar, buscando ases ou qualquer outra pessoa, o maricas do espaço em sua bota de saltos. Até então, haviam encontrado apenas um palhaço rastejando num chão de pedra com sangue correndo dos ouvidos. O maricas espacial quis parar e examiná-lo, mas Fortunato teve de dar um jeito. Aquilo não era a clínica à tarde, ele disse, e puxou o maricas espacial pelo colarinho pomposo do seu casaco de maricas… maricas, sim, claro, cara, vamos falar de maricas, chame o tal de Crowley de maricas, e, já que estamos aqui, como foi que você acordou aquele garoto dos mortos, falando em maricas… ele fechou o fluxo de pensamentos com firmeza enquanto descia para uma sala estreita.
— Fortunato… onde… o que você… está tentando fazer? — arfou Tachyon.
— Eu o sinto — Fortunato disse por sobre os ombros.
— Sente quem?
— Ele fez Eileen. E Balsam. E muitos outros. — Ele cambaleou quando o Uivador lançou mais um dos seus gritos longos e terríveis. Tachyon tropeçava sobre ele, e os dois quase caíram. — Merda, eu queria que ele calasse a boca — Fortunato murmurou. Parou de repente e agarrou Tachyon pelas abas de seu casaco afrescalhado. — Ouça aqui, você fica pra trás. Ele é todo meu, entende?
Tachyon olhou para a testa inchada de Fortunato, seus olhos escuros e raivosos. Então, ele empurrou as mãos de Fortunato.
— Nunca te vi desse jeito.
— Sim, bem, você não viu merda nenhuma ainda — Fortunato rosnou e continuou o trajeto, enquanto o maricas espacial o seguia.
Por vários e longos momentos, parecia que ninguém sabia o que fazer. Roman havia levantado e estava protegendo com o corpo o computador exposto. Kafka correu para a máquina Shakti; o pequeno estegossauro estava olhando de um lado para o outro. Até mesmo Jumpin’ Jack Flash parecia congelado, olhando de Jane para a máquina estranha e para Kafka, para Roman e de volta para Jane.
Então, tirou os olhos dela e o tempo recomeçou, e viu-se esticando um braço na direção da máquina de Kafka.
— Ele não — Jane disse, desesperada, e estendeu a mão na direção dele quando o Ceifador falou, quase muito suave para se ouvir:
— Ei. Você.
Antes que Jumpin’ Jack Flash pudesse reagir, o estegossauro transformou-se num garoto nu e, em seguida, num tiranossauro, e lançou-se pela sala para enterrar os dentes na coxa do Ceifador. O Ceifador gritou e caiu de costas, lutando com o tiranossauro. Kafka começou a gritar; surgiu um redemoinho de luz, um cintilar, e o Astrônomo estava em pé no meio da sala. A cabeça era algo saído de um pesadelo agora — tinha um focinho estranho, curvado, orelhas retangulares e olhos caídos, mas Jane sabia que aquilo era o Astrônomo. Ouviu Kafka dizer “O deus Setekh!”, com medo e alívio ao mesmo tempo. O Astrônomo sorriu para Jane, e ela viu o sangue escorrendo dos dentes e lábios dele. Sem cadeira de rodas agora, parecia estar pleno de vitalidade e força. Como se para confirmar seus pensamentos, ele de repente se ergueu um metro e meio no ar.
Jumpin’ Jack Flash deu um passo para trás, ergueu as duas mãos e, então, parecia confuso. O Astrônomo sacudiu um dedo para ele como se fosse uma criança malvada, e voltou-se para o Ceifador, que ainda estava rolando no chão com o tiranossauro. Um momento depois, o dinossauro era novamente um garoto nu.
— Ai, merda! — o garoto berrou, e escapou das mãos do Ceifador, lutando para chegar até a porta. Quando chegou, um homem negro e alto, com a testa inchada, apareceu na soleira. Jane engasgou, não pelo surgimento dele, mas ao sentir o poder em torno dele; conseguia sentir as forças não liberadas carregando o ar.
— Eu senti você — disse o Astrônomo — agitando as margens, aqui e ali.
— Mais do que agitando, desgraçado. — O homem empertigou-se tanto que parecia até mais alto e esticou o braço na direção do Astrônomo, como se para abraçá-lo. O Astrônomo desceu levemente, ainda sorrindo.
— Eu gostaria de colocar você à prova… — disse o Astrônomo e, de repente, se afastou flutuando pela sala até a máquina de Kafka. Girou os punhos para cima rapidamente. O homem alto cambaleou para a frente vários passos, parou e preparou-se com os pés bem afastados.
— Não seja tímido, Fortunato. Chegue mais perto. — A atração sobre Fortunado parecia crescer cada vez mais. Jumpin’ Jack Flash olhou para Jane.
— Se você sabe outros truques além de se afogar, querida — disse ele em voz baixa —, é melhor usá-los.
Outro homem apareceu de repente na porta. Jane teve apenas tempo suficiente para observar o impensável cabelo vermelho e as roupas extravagantes antes que houvesse ainda mais vermelho, um corpo todo vermelho, acertando o homem. As duas formas rolaram pelo chão, Red lutando para imobilizar o homem menor. Então, Kim Toy estava lá, puxando o marido, dizendo a ele para esquecer, apenas esquecer e sair dali.
Perto da máquina de Kafka, Astrônomo e Fortunato ainda estavam equilibrados frente a frente. Jane tinha a sensação de que o Astrônomo tinha um pouco de vantagem. O esforço no rosto de Fortunato intensificou-se com um brilho estranho ao lado dele e chifres se projetaram de sua testa inchada. Em resposta, o corpo do Astrônomo estava assumindo uma forma animal, como um cão cinzento, com cauda grande e forcada erguendo-se como algo venenoso. Seu medo começou a aumentar e não havia ninguém para apoiar, ninguém que oferecesse abrigo, conforto ou escapatória.
O garoto-dinossauro, magro e de cauda longa agora, voltou rapidamente para a sala e caiu sobre Red, arrancando-o de cima do homem em roupas pomposas. Kim Toy saltou para trás e uma quarta pessoa estava confundindo as coisas, lançando-se sobre Kim Toy. Com um choque, Jane viu que era Judas. O sangue pingava de suas orelhas, mas ele não pareceu notar quando ajoelhou-se sobre as pernas de Kim Toy, prendendo o peito dela com uma das mãos e então, de forma absurda, começou a tirar as calças.
Jane sacudiu a cabeça, incrédula. Era uma visão bizarra do inferno, o Astrônomo, Roman, aquele computador obsceno, Kafka, a máquina Shakti, o dinossauro e Red e o negro com chifres e o outro — Tachyon, ela o reconheceu, ele parecia atordoado —, e Jumpin’ Jack Flash, incapaz de reagir, e aquele nojento desmazelado que a trouxera até ali — que ela permitiu trazê-la ali, ela se corrigiu, como o cão de alguém em coleira curta —, o nojento tentava estuprar Kim Toy no meio de uma luta pela vida de todos.