Tudo aquilo passou na sua mente num segundo e o poder reuniu-se sem esforço e fluiu para fora dela.
Dessa vez, Judas foi o único que não percebeu o que ela estava fazendo. Ele nunca soube, mesmo quando o atingiu, que tudo que ela queria era cegá-lo causando uma inundação de lágrimas nos olhos dele, mas o poder estava se acumulando sem a liberação adequada por tempo demais e ela estava muito assustada e muito forte no seu receio. Ele nunca soube, mesmo quando se recuperou. Então ele não era, e no seu lugar estava uma forma feita de pó que pairou brevemente no ar por um momento impossível antes de se desintegrar. A umidade respingou nas paredes, no chão e em Kim Toy.
Jane tentou gritar, mas deu apenas um suspiro leve. Tudo parou; até mesmo a luta entre o Astrônomo e Fortunato parecia diminuir aos poucos. Então, Jumpin’ Jack Flash gritou:
— Ninguém se mexe ou ela fará isso de novo!
Jane irrompeu em lágrimas.
A sala inteira irrompeu em lágrimas; de repente, houve uma tempestade dentro da sala, água espirrando de todas as direções. Jumpin’ Jack Flash lançou-se pela janela e ficou suspenso no ar.
— Afogue todos ou desliga isso! — ele gritou.
Então, aquilo desligou, com um gesto do Astrônomo, que presenteou Jane com outro sorriso odioso.
— Faça de novo. Por mim.
Ela sentiu que era virada pela mão invisível e o poder reuniu-se novamente dentro dela, mirando para o negro, Fortunato…
Que não estava mais lá, mas atrás do Astrônomo, em pé sobre a máquina Shakti de Kafka com os dois braços erguidos…
E Kafka berrou NÃO!, e a palavra ecoou na mente de Jane enquanto o poder fluía dela contra sua vontade, desviado no momento final com seu último fiapo de força para que contornasse a todos, até mesmo o Astrônomo, e atingisse o computador assim que a máquina Shakti fosse destruída com um som muito parecido com um grito humano.
A força de Fortunato atingiu a máquina novamente e houve outro grito, dessa vez muito humano, enquanto os horríveis circuitos vivos do computador se retorciam até virar pó que escoava sobre os braços e o peito de Roman.
Fortunato virou-se para o Astrônomo, estendendo os braços para ele. A forma animal se dissolveu, deixando o Astrônomo humano novamente e muito pequeno. Ele agitou a mão no ar por um instante e a luz em torno dele começou a diminuir.
— Tolo — ele sussurrou, mas o sussurro penetrou a sala inteira e todos nela. — Tolo preto, cego e estúpido. — Ele olhou ao redor para todos eles. — Vocês todos morrerão gritando.
E, então, como fumaça, desapareceu.
— Espere! Espere, seu maldito! — O Ceifador lutou para ficar em pé, puxando a perna quase boa. — Você prometeu, maldito, você prometeu!
Sob seus berros irados, os soluços de Roman traziam um contraponto bizarro.
Jane sentiu seus joelhos começarem a ceder. Nada restava dentro dela. Mesmo com seu poder, não tinha mais forças. Tachyon estava ao seu lado, segurando-a em pé.
— Venha — disse ele, gentil, conduzindo-a até a porta. Ela sentiu algo fluir sobre a incipiente histeria em sua mente, tão consoladora quanto um cobertor quente. Meio em transe, ela se deixou levar para fora da sala. Com a outra parte de sua mente, ouviu Kafka chamá-la e, de longe, ficou triste por não poder responder-lhe.
Sob o abrigo de um grupo de árvores, ela observou as últimas ações do que ficou conhecido como o Grande Ataque ao Mosteiro. Ocasionalmente, ela vislumbrava Peregrina precipitando-se em torno da torre ou voando em círculos ao redor da carapaça do Tartaruga, às vezes acompanhada por um pteranodonte gracioso, mesmo que pequeno (aos seus olhos). Colunas de fogo erguiam-se noite adentro, explodindo através dos telhados, chamuscando as pedras. Em vão ela buscou um lampejo de Kafka ou do Ceifador nos grupos de pessoas — maçons, ela pensou, sacudindo sua cabeça diante do absurdo, maçons — reunidos de forma organizada e retirados do perigo pelo poder do Tartaruga.
— No fim, tentei cuidar de alguém. Tentei cuidar do garotinho — ela murmurou, sem se importar se Tachyon, que estava ao seu lado, sabia do que ela estava falando. Mas ele sabia. Ela podia sentir a presença dele buscando os pensamentos dela, tocando suas memórias de Debbie e Sal e de como Judas a encontrou. E onde ele tocava, sentia o calor do conforto e da compreensão.
O Uivador soltou outro de seus berros horrendos, mas foi um curto.
Ela poderia ter chorado, exceto que parecia não haver mais lágrimas pelos próximos tempos.
Pouco depois, vozes familiares a trouxeram de volta à consciência. Jumpin’ Jack Flash estava lá com o garoto-dinossauro, que havia escolhido outra forma estranha que ela não conhecia. (“Iguanodonte”, Tachyon sussurrou para ela. “Olhe como se apreciasse.” E, de alguma forma, ela obedeceu.) Fortunato emergiu de uma entrada que reluzia com o fogo que apagava; ele pisou em fragmentos incandescentes e foi até eles, parecendo muito mais cansado do que Jane se sentia.
— Eu os perdi — disse para Tachyon. — O barata, o maluco da morte, o outro. Aquele cara vermelho e a mulher. Fugiram, a menos que o Tartaruga tenha pegado eles. — Ele apontou o queixo para Jane. — Qual é a história dela?
Ela olhou através dele para o Mosteiro em chamas, recuperou-se, buscou poder. Havia um valor espantoso restante, suficiente para o que ela queria fazer.
A água caiu sobre a pior das chamas, ajudando um pouco, não muito. Havia um incendiário nas proximidades quando você precisava de um no fim das contas, ela pensou, lançando um olhar para Jumpin’ Jack Flash.
— Não desperdice sua energia — disse ele e, como se para apoiá-lo, ela ouviu o som dos carros de bombeiros se aproximando.
— Nasci num corpo de bombeiros — ela falou. — Minha mãe não chegou ao hospital a tempo.
— Fascinante — ele falou —, mas eu tive de sair bem antes. — Ele olhou para Tachyon. — Eu, hum, gostaria de saber como você sabia… hum, por que você me chamou de J.J.
Ela deu de ombros.
— J.J. Jumpin’ Jack. Era mais rápido para dizer. — Ela conseguiu abrir um sorriso mínimo. — É isso. Nunca nos encontramos antes. Sério.
O alívio tomou todo o rosto do rapaz.
— Ah. Bem, olha, talvez a gente possa se conhecer melhor em breve…
— Sessenta minutos — disse Tachyon. — Eu diria que você está quase sem tempo. O que poderíamos chamar de fator Cinderela. Quando alguém precisa viajar.
Jumpin’ Jack Flash lançou um olhar de reprovação para ele e ergueu-se no ar. Um halo de fogo inflamou-se ao redor dele enquanto se afastava num rugido para dentro da escuridão.
Jane o encarou por um momento e, em seguida, olhou para baixo com tristeza.
— Eu quase o machuquei lá dentro. Eu machuquei alguém… eu…
Tachyon passou o braço na cintura dela.
— Apoie-se em mim. Tudo bem.
Gentilmente, ela tirou o braço dele.
— Obrigada. Mas já estou bem apoiada. — Certo, Sal?
Ela virou-se novamente para o Mosteiro incendiado e continuou a lançar água nas chamas piores.
Curvado num beco, o Ceifador tremia. Sua perna estava bem ruim, pois ainda não tinha se recuperado totalmente, mas se curaria; sabia disso da mesma forma como sabia quanto odiava o Astrônomo por abandoná-lo, por sempre enganá-lo com promessas e favores no início. TIAMAT, inferno. Levaria aquele velho desgraçado diante de TIAMAT, e aquilo era uma promessa. Colocaria aquele velho maldito numa dança que ele levaria para o inferno com ele.
Estava à deriva num semidelírio. Não muito longe, mas sem que ele soubesse, Kafka observava a destruição do Mosteiro. Quando a água foi derramada sobre as chamas vindas do nada, ele virou o rosto, disposto a deixar que a morte fria do ódio permanecesse nele.