Sorrindo, o Sr. Koyama saboreava a ideia da sensação que sua observação causaria, o pânico entre os cosmógrafos tentando descobrir novas fórmulas para explicá-la. Seu lugar na astronomia estaria garantido. Os cometas Koyama estavam se provando tão regulares quanto planetas. De uma forma, ele pensou, era uma sorte que o Enxame tivesse aterrissado, porque de outra forma a observação poderia ter sido feita antes…
O pensamento ecoou com vagar em sua mente. O sorriso do Sr. Koyama se transformou num franzir de sobrancelha. Olhou para seu gráfico e fez alguns cálculos matemáticos na cabeça. O franzir se aprofundou. Tirou uma calculadora do bolso e confirmou os cálculos. Seu coração deu um pinote. Ele se sentou bem rápido.
O Enxame: um casco duro com quilômetros de largura protegendo imensas quantidades de biomassa. Algo assim seria vulnerável a mudanças de temperatura. Se chegasse perto do Sol, teria de expelir o calor excessivo de alguma forma. O resultado seria uma fluorescência não muito diferente da de um cometa.
Suponhamos que o Enxame estivesse em uma órbita rápida com o Sol em um foco e a Terra no outro. Com a Terra em movimento relativo ao Sol, a órbita seria complicada, mas não impossível. Porém, com todas as visões de cometas tipo Koyama, seria impossível identificar a localização aproximada do Enxame. Algumas centenas de mísseis revestidos de hidrogênio então encerrariam a Guerra dos Mundos em estilo primoroso.
— Filho da puta — suspirou o Sr. Koyama, uma expressão forte que tinha aprendido com os praças durante a ocupação. Para quem deveria falar sobre isso?, ele se perguntou. O UAI era um fórum de discussão forte. O primeiro-ministro? O Jieitai, as forças de defesa japonesas?
Não. Não teriam motivo para acreditar num empresário obscuro aposentado que liga desvairado para falar sobre o Enxame. Sem dúvida, eles receberam ligações suficientes desse tipo.
Ligaria para os camaradas da Mitsubishi. Eles tinham influência suficiente para fazer com que fosse ouvido.
Quando chegou ao telefone e começou a discar, o Sr. Koyama sentiu o coração começar a afundar. Seu lugar na história astronômica estava garantido, ele sabia, mas não como ele queria. Em vez de seis cometas, tudo que ele descobriu foi um maldito bloco de levedo.
Metade morta
John J. Miller
I.
Brennan seguiu o Mercedes cheio de Garças Imaculadas até o portão do cemitério numa BMW cinza que havia roubado da gangue três dias antes.
Ele parou a quase cem metros atrás deles, seus faróis desligados, enquanto um dos Garças saía do Mercedes e abria com tudo o portão de ferro forjado caindo aos pedaços. Esperou até entrarem no cemitério, então se esgueirou para fora da BMW, pegou o arco e a aljava de flechas do banco traseiro, puxou o capuz sobre a cabeça e cruzou a rua atrás deles.
O muro de tijolos de um metro e oitenta em torno do cemitério estava manchado com a imundície da cidade e esfarelando com a idade. Ele o escalou facilmente e desceu sem fazer nenhum ruído.
O Mercedes estava em algum lugar perto do centro do cemitério. O motorista desligou o motor e os faróis enquanto Brennan observava. As portas do carro se abriram e fecharam num estrondo. Ele não conseguia ouvir ou ver nada de significativo de onde estava. Precisava se aproximar dos Garças.
Era uma noite escura, a lua cheia seguia escondida atrás das nuvens densas e móveis. As árvores que cresciam selvagemente dentro do cemitério filtravam a maior parte daquela luz urbana que havia. Ele se moveu lentamente na escuridão, os sons dos passos cobertos pelo soprar do vento com uma centena de vozes sussurrando através dos galhos acima.
Como uma sombra deslocando-se entre as sombras, ele movia-se atrás de uma antiga lápide grossa, inclinada como um dente torto na boca de um gigante despenteado. Ele observava três dos Garças entrarem em um mausoléu que antigamente fora a glória suprema do cemitério. O monumento de uma família rica no passado, e agora esquecida, foi entregue à decadência assim como o restante do cemitério. Sua estrutura em mármore erodiu com a chuva ácida e os cocôs de pássaro, seus detalhes dourados descascaram durante tantos anos de negligência. Um dos Garças ficou para trás enquanto os outros atravessaram a porta de ferro forjado para o interior do mausoléu. Ele fechou a porta atrás dos outros e recostou-se na parede frontal do sepulcro. Acendeu um cigarro e seu rosto brilhou por um instante sob a chama do fósforo. Era Chen, o tenente dos Garças que Brennan esteve seguindo nas últimas duas semanas.
Brennan agachou-se atrás de uma lápide, franzindo a testa. Sabia, desde o Vietnã, que Kien estava direcionando heroína para os Estados Unidos através de uma gangue de rua de Chinatown chamada Garças Imaculadas. Sondou a gangue e agarrou-se a Chen, que parecia ser do alto escalão da organização, com a esperança de encontrar provas concretas da ligação dos Garças com Kien. Testemunhou uma dúzia de crimes nas últimas semanas, mas não descobriu nada no que dizia respeito a Kien.
Havia algo inexplicável. Nas últimas semanas houve um fluxo de entrada incrível de heroína na cidade. Foi tão abundante que o preço de rua despencou e ocorreu um número recorde de overdoses. Os Garças Imaculadas, por meio de quem a droga chegava, estavam vendendo a preços baixíssimos, roubando clientes a torto e a direito da Máfia e do pessoal do Harlem de Sweet William. Contudo, Brennan foi incapaz de descobrir como conseguiram a droga de forma tão barata e abundante.
Esconder-se atrás de uma lápide não estava levando a lugar algum. As respostas, se o cemitério tivesse alguma, estariam no mausoléu.
Decidido, puxou uma flecha da aljava presa com velcro em seu cinto e prendeu-a na corda do arco. Respirou fundo, levemente, uma, duas vezes, tomou fôlego e se levantou. Quando o fez, vislumbrou o nome talhado na pedra desgastada da lápide. Arqueiro. Esperava que não fosse um mau presságio.
Não foi um tiro difícil, mas ainda recorria ao treinamento zen para limpar a mente e firmar os músculos. Mirou um metro mais baixo e um pouco à esquerda da ponta brilhante do cigarro e, quando chegou o tempo certo, deixou o cordão deslizar dos dedos.
Seu arco era um composto de quatro rodízios com cames elípticos que, assim que o ponto de tensão fosse alcançado, reduziam o empuxo inicial de 120 libras para 60. O cordão de náilon do arco trilava, mandando a seta através da noite como um falcão planando sobre um alvo distraído. Ele ouviu um baque e um gemido estrangulado quando a flecha atingiu o objetivo. Esgueirou-se para fora das sombras como um animal precavido e correu para onde Chen jazia curvado contra a parede do mausoléu.
Ele se demorou tempo suficiente para garantir que Chen estava morto e deixar uma de suas cartas, um ás de espadas plastificado, enfiado na ponta da flecha que varou as costas de Chen.
Encaixou outra flecha na corda do arco e abriu com um ranger a porta de ferro forjado que fechava o interior da tumba. Dentro, uma escadaria de 12 degraus descia para outra porta circundada por um halo mortiço, luz contínua que queimava numa câmara além dela. Esperou um momento, ouvindo, então desceu as escadas em silêncio. Parou diante da porta da câmara interna para ouvir novamente. Alguém andava para lá e para cá. Contou até vinte, lentamente, mas ouviu apenas passos quietos, arrastados. Havia chegado até aí. Não fazia sentido voltar.
Brennan passou pela porta e ficou sobre um joelho, a corda do arco esticada atrás da orelha. Um homem vestindo as cores dos Garças Imaculadas estava na sala. Contava sacos plásticos de pó branco e marcava o cômputo na folha de papel sobre uma prancheta. Ficou boquiaberto, surpreso, quando Brennan soltou a flecha. Acertou-o no meio do peito e o lançou para trás sobre uma pilha de chaves na altura dos joelhos.