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O telefone tocou.

— Com licença — disse. Depois, secamente, ao aparelho:

— Falei que não queria interrupções!

— É o Sr. Haply, do Guardian, disse que é importante

— falou sua secretária e sobrinha, Mary Yok. — E a secretária do tai-pan ligou. A reunião de diretoria da Nelson Trading foi antecipada para hoje, às cinco da tarde. O Sr. Mata telefonou avisando que também vai comparecer a ela.

O coração de Richard Kwang falhou três batidas. "Por quê?", perguntou-se, estupefato. "Dew neh loh moh, ela devia ser adiada para a semana que vem. Oh ko, por quê?" Afastou da cabeça rapidamente a pergunta para considerar Haply. Concluiu que atender agora, na frente de Barre, era perigoso demais.

— Ligo para ele daqui a alguns minutos. — Sorriu para o homem de rosto vermelho, à sua frente. — Deixe tudo como está por um dia ou dois, Dunstan, não estamos com problemas.

— Não posso, meu velho, desculpe. Houve uma reunião especial, tenho que resolver hoje. A diretoria insistiu.

— Temos sido generosos, no passado... vocês têm quarenta milhões do nosso dinheiro não garantido, agora... vamos investir mais setenta milhões junto com vocês, no seu' novo programa de construções.

— É verdade, Richard, e seu lucro será substancial. Mas isso é outra história, e aqueles empréstimos foram negociados em boa fé faz meses, e serão pagos em boa fé quando chegar a hora do vencimento. Nunca falhamos num pagamento ao Ho-Pak, ou a outro qualquer. — Barre devolveu o jornal e, junto com ele, documentos assinados e carimbados com o selo da companhia. — As contas são consolidadas, portanto um cheque será o bastante.

A quantia passava um pouco de nove milhões e meio.

Richard Kwang assinou o cheque administrativo e acompanhou Sir Dunstan Barre até a porta, sorrindo; depois, quando era seguro, xingou todo mundo à vista, e voltou para o seu escritório, batendo com força a porta atrás de si. Chutou a mesa, depois pegou o telefone e berrou para a sobrinha que completasse a ligação para Haply, e quase quebrou o aparelho ao repô-lo no gancho.

— Dew neh loh moh para todos os quai loh nojentos — berrou para o teto, e depois sentiu-se muito melhor. "Esse bolo de carne de cachorro! Será que... ah, será que posso pedir ao Cobra para impedir a formação de filas, amanhã? Talvez ele e seus homens pudessem quebrar alguns braços."

Sombriamente, Richard Kwang deixou o pensamento vagar. Fora uma merda de dia. Já começara mal no prado. Tinha certeza de que seu treinador (ou o jóquei) estava dando estimulantes a Butterscotch Lass para fazê-la correr mais depressa, para torná-la a favorita... depois, no sábado, cortariam os estimulantes, apostariam num azarão e ganhariam uma nota, sem que ele participasse dos lucros. "Ossos de cão sujos, todos eles! Mentirosos! Acham que sou dono de um cavalo de corrida para perder dinheiro?"

O banqueiro escarrou e cuspiu na escarradeira.

"Barre boca de verme, e Tio Wu osso de cachorro! As retiradas deles acabarão com a maioria do meu dinheiro. Não faz mal. Com Lando Mata, Mo Contrabandista, Tung Pão-Duro e o tai-pan, estou bem seguro. Ah, terei que gritar, berrar, xingar e chorar, mas nada pode realmente tocar-me, ou ao Ho-Pak. Sou importante demais para eles."

É, fora uma merda de dia. O único ponto alto fora o seu encontro matinal com Casey. Curtira olhar para ela, curtira seu jeito americano de vida ao ar livre, cheiroso, vivo, elegante. Haviam esgrimido agradavelmente sobre financiamento, e estava certo de que poderia conseguir todos, ou pelos menos parte dos seus investimentos. Era evidente que os lucros seriam imensos. "Ela é tão ingênua", pensou. "Seu conhecimento de finanças e operações bancárias é impressionante, mas não conhece coisa alguma do mundo asiático! É tão ingênua, falando abertamente dos planos deles. Graças a todos os deuses pelos americanos!"

— Adoro os Estados Unidos, srta. Casey. É. Duas vezes por ano vou até lá, para comer bons bifes e ir a Las Vegas... e para tratar de negócios, é claro.

"Eeee", pensou, satisfeito, "as prostitutas do País Dourado são as quai loh melhores e mais disponíveis do mundo, e as quai loh são tão baratas, comparadas às garotas de Hong Kong! Oh, oh, oh! Sinto-me tão bem indo para a cama com elas, com suas grandes axilas desodorizadas, suas grandes mamas, coxas e bundas! Mas, em Las Vegas, é que há as melhores. Lembra a beldade de cabelos dourados, tão mais alta que você, mas que deitada..."

Seu telefone particular tocou. Atendeu, irritado como sempre por ter tido que instalá-lo. Mas não tivera escolha. Quando sua secretária anterior, que o servira durante muitos anos, saíra para se casar, a mulher dele colocara a sobrinha favorita no lugar dela. "Claro que para me espionar", pensou, com azedume. "Eeee, o que pode um homem fazer?"

— Sim? — perguntou, imaginando o que a mulher queria, agora.

— Você não ligou para mim o dia todo... Há horas que estou esperando!

Seu coração deu um salto, ao som inesperado da voz da garota. Ignorou a petulância dela, seu cantonense doce como o seu Portão de Jade.

— Ouça, Tesourinho — falou, apaziguadoramente. — Seu pobre Pai esteve muito ocupado hoje. Tive...

— Você não quer mais a sua pobre Filha. Vou ter que me jogar na baía, ou achar outra pessoa para cuidar de mim, oh, oh, oh...

A pressão sangüínea dele subiu ao escutar o som das lágrimas da moça.

— Escute, sua bajuladorazinha, vejo você logo mais às dez horas. Vamos comer um banquete de oito pratos em Wan-chai, no meu restau...

— Dez horas é muito tarde, e não quero nenhum banquete, quero um bife e quero ir para a cobertura do Victoria e tomar champanha!

O espírito dele gemeu à idéia do perigo de ser visto e delatado secretamente para a sua tai-tai. Oh, oh, oh! Mas perante os amigos e inimigos e toda a Hong Kong ele ficaria prestigiadíssimo por levar ao Victoria a sua nova amante, a jovem e exótica estrela que subia no firmamento da TV, Vênus Poon.

— Apanho você às dez...

— Dez é muito tarde. Nove.

Rapidamente, tentou escalonar todas as suas reuniões para aquela noite, para ver como poderia encaixá-la. — Escute, Tesourinho, vou ver...

— Dez é muito tarde. Nove. Acho que vou morrer, já que você não gosta mais de mim.

— Ouça. O seu Pai tem três reuniões, e ach...

— Ah, minha cabeça dói só de pensar que você não me quer mais, oh, oh, oh. Esta pessoa abjeta terá que cortar os pulsos ou... — Ele notou a alteração na voz dela, e seu estômago se revirou com a ameaça. — Ou atender aos telefonemas de outros, inferiores ao amado Pai, é claro, mais igualmente ricos em...

— Está certo, Tesourinho. Às nove!

— Ah, você me ama, não é? — Embora estivesse falando em cantonense, Vênus Poon usou a palavra inglesa, e o coração dele deu uma cambalhota. O inglês era o idioma do amor para os chineses modernos. Não havia palavras românticas na língua deles. — Diga! — ordenou, imperiosamente. — Diga que me ama!

Ele lhe disse, abjetamente, depois desligou. "Piranha safadinha", pensou com irritação. "Mas, afinal, aos dezenove anos, ela tem o direito de ser exigente, petulante e difícil, pois você está com quase sessenta, e ela o faz se sentir como se tivesse vinte, e torna feliz o Yang Imperial. Eeee, mas Vênus Poon é a melhor que já possuí. Eeee, e tem músculos na sua Ravina Dourada iguais aos que descreveu o lendário imperador Kung!"