Выбрать главу

— Ela não é a minha Ciranoush — disse ele.

Claudia abriu um sorriso mais amplo.

— Está com vinte e seis anos, e é sagitariana.

— Você arranjou alguém para roubar o passaporte dela... ou para dar uma espiada nele?

— Pela madrugada! Não, tai-pan. — Claudia fingiu estar chocada. — Não espiono as pessoas. Só faço perguntas. Mas aposto cem que ela e o Sr. Bartlett foram amantes, numa época ou noutra.

— Essa aposta não vale, eu ficaria atônito se não fossem. Ele está apaixonado por ela, sem dúvida... e ela por ele. Viu como dançavam juntos. Isso não é aposta que se faça.

As ruguinhas à volta dos olhos dela se aprofundaram.

— Quanto me dá de vantagem se eu apostar que nunca foram amantes?

— Hem? O que você está sabendo?.— perguntou, desconfiado.

— Quanto me dá, tai-pan?

Ele a observou, atento, depois disse:

— Mil contra... não, dou dez contra um.

— Feito! Cem. Obrigada, tai-pan. Agora, quanto à Nels...

— Onde arranjou toda essa informação, hem?

Ela extraiu um telex do meio dos papéis que carregava. O resto, colocou na bandeja de entrada de expediente, na mesa dele.

— O senhor mandou um telex para o nosso pessoal em Nova York, anteontem, pedindo que arranjassem informações sobre ela, e verificassem o dossiê de Bartlett. Isto acaba de chegar.

Ele tomou o telex das mãos dela, e correu os olhos pelo papel. Lia muito rapidamente, e tinha uma memória quase fotográfica. O telex dava as informações que Claudia relatara, em termos simples, sem a interpretação floreada dela, e acrescentava que K. C. Tcholok não tinha ficha na polícia, tinha quarenta e seis mil dólares numa caderneta de poupança no Banco de Poupança e Empréstimos de San Fernando, e oito mil e setecentos dólares na sua conta corrente no Los Angeles and Califórnia Bank.

— É chocante a facilidade com que nos Estados Unidos se descobre quanto uma pessoa tem num banco, não é, Claudia?

— Chocante. Jamais me utilizaria de um, tai-pan. Ele deu um largo sorriso.

— Exceto para pedir um empréstimo! Claudia, basta me dar o telex, da próxima vez.

— Sim, tai-pan. Mas meu jeito de contar certas coisas não é mais excitante?

— É. Mas onde é que fala aí em nudez? Foi você que inventou!

— Ah, não, isso eu soube da minha própria fonte, aqui. A Terceira Camarei...

Claudia se deteve, mas era tarde demais, e já caíra na armadilha.

O sorriso dele era angelical.

— Ora vejam só! Uma espiã no Victoria! Uma Terceira Camareira! Quem? Qual delas, Claudia?

Para não desmoralizá-lo, ela fingiu estar aborrecida.

— Ayeeyah! Uma espiã-chefe não pode revelar nada, heya? — O sorriso dela era bondoso. — Eis aqui uma lista dos seus telefonemas. Adiei o máximo que pude para amanhã... avisarei o senhor na hora da reunião.

Ele fez que sim com a cabeça, mas ela viu que o sorriso dele havia desaparecido, e estava de novo imerso em seus pensamentos. Ela saiu, e ele nem ouviu a porta se fechar. Estava pensando em espiões-chefes, Alan Medford Grant e sua reunião com Brian Kwok e Roger Crosse, pela manhã, às dez horas, e a reunião que teria às dezoito horas.

A reunião matinal fora curta, brusca e tempestuosa.

— Primeiro, alguma novidade sobre Alan Medford Grant? — indagara.

Roger Crosse respondera imediatamente:

— Aparentemente, foi mesmo um acidente. Nenhuma marca suspeita no corpo dele, ninguém foi visto nas proximidades, não havia marcas de carros, marcas de impacto ou de derrapagem... exceto as da motocicleta. Agora, Ian, quanto às pastas... oh, a propósito, sabemos agora que você tem as únicas cópias existentes.

— Lamento, mas não posso fazer o que me pedem.

— Por quê?

Havia uma nota de azedume na voz do policial.

— Ainda não estou admitindo ou negando que elas existam, mas...

— Ora, pela madrugada, Ian, não seja ridículo! Claro que as cópias existem. Acha que somos idiotas? Se elas não existissem, você teria dito logo ontem à noite, sem rodeios. Aconselho-o severamente a nos deixar copiá-las.

— E eu o aconselho severamente a controlar mais o seu mau gênio.

— Se acha que me descontrolei, Ian, então sabe muito pouco a meu respeito. Estou lhe pedindo, formalmente, que apresente esses documentos. Se recusar, usarei dos poderes que me concede a Lei dos Segredos Oficiais, às seis horas de hoje à tarde, e tai-pan ou não, da Casa Nobre ou não, amigo ou não, às seis e um você será preso, incomunicável, e nós revistaremos todos os seus documentos, cofres, caixas de depósito bancário, até encontrá-las! Agora, queira ter a gentileza de nos entregar as pastas!

Dunross lembrou-se do rosto esticado e dos olhos gelados a fitá-lo, do seu amigo verdadeiro Brian Kwok em estado de choque.

— Não.

Crosse soltara um suspiro. A ameaça contida naquele som fizera com que um arrepio o percorresse.

— Pela última vez, por quê?

— Porque, nas mãos erradas, acho que seriam prejudiciais à Sua Majes...

— Santo Deus, sou o chefe do Serviço Especial de Informações!

— Eu sei.

— Então queira fazer a gentileza de atender o meu pedido.

— Lamento. Passei a maior parte da noite tentando descobrir uma maneira segura de da...

Roger Crosse se pusera de pé.

— Voltarei logo mais, às seis horas, para buscar as pastas. Não as queime, Ian. Eu saberei se você tentar, e você será impedido. Seis horas.

Na noite anterior, enquanto a casa dormia, Dunross fora ao seu escritório e relera os relatórios. Ao relê-los agora, sabendo da morte de Alan, do seu possível assassinato, do envolvimento da MI-5 e da Ml-6, provavelmente do KGB, da ansiedade espantosa de Crosse, imaginando que talvez parte daquele material não estivesse ainda à disposição do serviço secreto, pensando na possibilidade de que muitas das coisas que ele achara exageradas demais talvez não o fossem... agora todos os relatórios ganhavam uma nova importância. Alguns deles o deixaram alucinado.

Entregar os relatórios era arriscado demais. Guardá-los, agora, era impossível.

Na quietude da noite, Dunross pensara em destruí-los. Finalmente, concluiu que era seu dever não fazê-lo. Por um momento, pensou em deixá-los abertamente sobre a sua mesa, as portas envidraçadas escancaradas dando para a escuridão do terraço, e ir para a cama dormir. Se Crosse estava tão preocupado com os papéis, então ele e seus homens o estariam vigiando. Trancá-los no cofre não era seguro. Já haviam mexido no cofre uma vez, mexeriam de novo. Nenhum cofre era à prova de um ataque profissional completo e organizado.

Lá, na escuridão, os pés para o alto, confortavelmente, sentira a excitação borbulhando, o calor magnífico, intoxicante, gostoso do perigo a cercá-lo, perigo físico. De inimigos próximos. De estar por um fio, entre a vida e o vácuo. A única coisa que atrapalhava o seu prazer era saber que a Struan estava sendo atraiçoada por gente de dentro, a mesma pergunta sempre a remoê-lo: o espião da Sevrin era o mesmo que entregara os segredos deles para Bartlett? Um dos sete? Alastair, Phillip, Andrew, Jacques, Linbar, David MacStruan, em Toronto, ou o pai dele. Impossível acreditar que fosse qualquer um deles.

Sua mente examinara cada um. Clinicamente, sem paixão. Todos tinham oportunidade, todos o mesmo motivo: inveja e ódio, nos mais variados graus. Mas nenhum deles venderia a Casa Nobre a um estranho. Nem um só deles. No entanto, um deles o tinha feito.

Quem?

As horas se passaram.

Quem? Sevrin. O que fazer com as pastas? Alan fora mesmo assassinado? Quanta coisa existente nos relatórios era verdade?

Quem?

A noite agora estava fresca, e o terraço o atraía. Caminhou sob as estrelas. A brisa e a noite lhe deram boas-vindas. Sempre adorara a noite. Voando sozinho acima das nuvens, à noite, era tão melhor do que de dia, as estrelas tão próximas, os olhos sempre atentos ao bombardeiro ou ao caça inimigo, o polegar a postos no gatilho... Ah, como a vida era simples, então. Matar ou ser morto.