Ficou parado ali, por certo tempo. Depois, descansado, voltou, trancou as pastas no cofre e ficou sentado na grande poltrona que dava para as portas envidraçadas, atento, matutando nas suas opções, escolhendo. Depois, satisfeito, cochilou cerca de uma hora, e acordou, como de costume, pouco antes da aurora.
Seu quarto de vestir dava para o escritório, que ficava ao lado do dormitório principal. Vestira-se informalmente e saíra. A estrada estava desimpedida. Abateu dezesseis segundos do seu recorde. Na cobertura da Struan, tomara banho, barbeara-se e vestira um terno de tropical. Depois dirigira-se ao seu gabinete, no andar inferior. O dia estava muito úmido, e o céu tinha uma aparência curiosa. "Uma tempestade tropical está a caminho", pensara. "Talvez tenhamos sorte e ela não passe por nós, como todas as outras, e traga chuva." Afastou-se das janelas e concentrou-se em dirigir a Casa Nobre.
Tinha que enfrentar uma pilha de telex chegados durante a noite, sobre todo tipo de negociações e empreendimentos, problemas e oportunidades comerciais em toda a colônia, e no exterior. De todos os pontos da bússola. Tão ao norte quanto o Yukon, onde a Struan tinha uma joint venture de prospecção de petróleo, junto com a gigantesca companhia canadense de madeira e mineração, a McLean-Woodley. Cingapura, Malásia, e tão ao sul quanto a Tasmânia, para frutas e minerais a serem transportados para o Japão. A oeste, para a Inglaterra, a leste, para Nova York, os tentáculos da nova Casa Nobre internacional com que Dunross sonhara estavam começando a se estender, ainda fracos, ainda especulativos e sem o sustento que ele sabia ser vital para o seu crescimento.
"Não importa. Logo serão fortes. A transação com a Par-Con fortalecerá nossa teia, Hong Kong será o centro da terra, e nós, o núcleo do centro. Graças a Deus pelo telex e pelos telefones."
— O Sr. Bartlett, por favor.
— Alô?
— Ian Dunross, bom dia. Desculpe incomodá-lo tão cedo. Poderíamos adiar o nosso encontro para as dezoito e trinta?
— Claro. Algum problema?
— Não. Só negócios. Estou com muita coisa acumulada.
— Alguma notícia de John Chen?
— Não, ainda não. Lamento. Avisarei a você logo que houver. Dê lembranças a Casey.
— Darei. Foi uma festa e tanto a de ontem à noite! Sua filha é uma graça!
— Obrigado. Chegarei ao hotel às dezoito e trinta. Naturalmente, Casey está convidada. Até logo mais, então.
Ah, Casey!, pensou.
Casey e Bartlett. Casey e Gornt. Gornt e Wu Quatro Dedos.
Naquele dia cedinho soubera notícias do encontro de Gornt com Wu Quatro Dedos, pelo último. Uma corrente de prazer correu pelo seu corpo ao saber que seu inimigo quase morrera. A Peak Road não era lugar para se perder os freios, pensou.
"Uma pena que o filho da mãe não tenha morrido. Isso me pouparia muita angústia." A seguir, deixou Gornt de lado e pensou de novo em Wu Quatro Dedos.
Juntando o inglês errado do velho marujo e o seu haklo, os dois conseguiam conversar direitinho. Wu lhe contara tudo o que pudera. O comentário de Gornt, aconselhando Wu a sacar seu dinheiro, era surpreendente. E motivo de preocupação. Aquilo, e o artigo de Haply.
"Será que o sacana do Gornt sabe de alguma coisa que não sei?"
Fora até o banco.
— Paul, o que está havendo?
— Com quê?
— Com o Ho-Pak.
— Oh, a corrida? Muito má para a nossa imagem bancária, tenho que admitir. Pobre Richard! Temos quase certeza de que ele tem todas as reservas de que precisa para superar essa crise, mas não sabemos direito a extensão dos seus compromissos. Claro que liguei para ele no momento em que li o artigo ridículo de Haply. Devo dizer-lhe, Ian, que também liguei para Christian Toxe e lhe disse, sem rodeios, que ele devia controlar os seus repórteres, e que era melhor ele cessar e desistir, senão ia ver.
— Contaram-me que havia uma fila no Tsim Sha Tsui.
— É? Dessa não sabia. Vou verificar. Mesmo assim, é certo que os bancos Ching Prosperity e Lo Fat o ajudarão. Meu Deus, ele fez do Ho-Pak uma importante instituição bancária. Se falisse, sabe lá Deus o que aconteceria. Nós mesmos tivemos algumas retiradas em Aberdeen. Não, Ian, vamos torcer para que tudo passe logo. Mudando de assunto, acha que vamos ter chuva? Está estranho, hoje, não é? O noticiário informou que pode estar chegando uma tempestade. Acha que vai chover?
— Não sei. Vamos torcer para que chova. Mas não no sábado!
— Meu Deus, isso mesmo! Se os páreos forem cancelados por causa da chuva, será terrível. Isso não pode acontecer. Oh, a propósito, Ian, a festa de ontem foi linda. Gostei de conhecer Bartlett e a namorada. Como vão indo as suas negociações com Bartlett?
— Muitíssimo bem! Ouça, Paul...
Dunross sorriu consigo mesmo, lembrando-se de como baixara o tom de voz, mesmo estando no escritório de Havergill... O referido escritório, que tinha uma vista que abrangia todo o distrito central, era forrado de livros, e à prova de som.
— Fechei meu negócio. São dois anos, inicialmente. Assinamos os papéis dentro de sete dias. Eles vão entrar com vinte milhões em dinheiro em cada um dos anos, e os anos seguintes poderão ser negociados.
— Parabéns, meu caro. Meus calorosos parabéns! E o pagamento à vista?
— Sete.
— Que maravilha! Isso cobre tudo, direitinho. Vai ser uma maravilha afastar o espectro da Toda do balanço... e com mais um milhão para o Orlin, bem, quem sabe lhe darão mais tempo, depois? Finalmente, você poderá esquecer todos os anos ruins e caminhar para um futuro muito rendoso.
— É.
— Já arranjou fretador para seus navios?
— Não. Mas terei os fretadores a tempo de saldar o nosso empréstimo.
— Notei que suas ações subiram dois pontos.
— Está só começando. Vão dobrar de valor, dentro de trinta dias.
— É. O que o faz pensar assim?
— A alta.
— Hem?
— É o que todos os sinais indicam, Paul. O pessoal está confiante. Nossa transação com a Par-Con vai liderar a alta, que já vem com atraso!
— Isso seria uma maravilha! Quando vai fazer a declaração inicial sobre a Par-Con?
— Na sexta, após o encerramento do expediente da Bolsa.
— Excelente. Concordo inteiramente. Quando chegar a segunda-feira, estará todo mundo embarcando nessa!
— Mas vamos manter o assunto em família, até lá.
— Naturalmente. Ah, você soube que Quillan quase morreu, ontem à noite? Depois da sua festa. Os freios dele falharam, na Peak Road.
— É, eu soube. Devia mesmo ter morrido... isso faria as ações da Segunda Grande Companhia subirem como um foguete, de felicidade!
— Pare com isso, Ian. Uma alta repentina, hem? Acha mesmo que vai haver?
— Sim, o bastante para comprar maciçamente. Que tal um milhão de crédito... para comprar ações da Struan?
— Pessoal... ou para a Casa?
— Pessoal.
— Ficaríamos com as ações?
— É claro.
— E se elas baixarem?
— Não baixarão.
— Mas, e se baixarem, Ian?
— O que você sugere?
— Bem, está tudo em família. Portanto acertemos assim: se estiverem dois pontos abaixo do preço do mercado no fechamento de hoje da Bolsa, podemos vender e debitar as perdas na sua conta?
— Três. A Struan vai dobrar de valor.
— Sei. Nesse meio tempo, fiquemos com dois, até você assinar o negócio com a Par-Con. A Casa já ultrapassou bastante o seu crédito. Fiquemos com dois, certo?
— Está bem.
"Estou seguro com dois", pensou Dunross novamente, tranqüilizando a si mesmo. "Acho eu."
Antes de sair do banco, passara pela sala de Johnjohn. Bruce Johnjohn, segundo vice-gerente, e futuro herdeiro de Havergill, era um sujeito atarracado e suave, com uma vitalidade de colibri. Dunross lhe contara as mesmas notícias. Johnjohn ficara igualmente satisfeito. Mas aconselhara cautela nos projetos de uma alta e, ao contrário de Havergill, ficara preocupadíssirno com a corrida ao Ho-Pak.