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— Não estou gostando nada disso, Ian. Não me está cheirando bem.

— É. E quanto ao artigo de Haply?

— Qual! Tudo uma tolice. Não aprontamos esse tipo de coisa. O Blacs? A mesma bobagem. Por que desejaríamos eliminar um importante banco chinês, mesmo que pudéssemos? O Ching Bank pode ser o culpado. Quem sabe? Talvez o velho Ching Sorridente fosse capaz... há anos que ele e Richard são rivais. Podia ser uma combinação de meia dúzia de bancos, incluindo o Ching. Pode até mesmo ser que os depositantes de Richard estejam realmente assustados. Há uns três meses que ouço todo tipo de boato. Eles estão atolados em dúzias de negócios imobiliários dúbios. De qualquer modo, se ele afundar, isso nos afetará a todos. Tenha o máximo cuidado, Ian!

— Ficarei contente quando você estiver lá no andar superior, Bruce.

— Não subestime o Paul... é muito esperto, e tem sido excelente para Hong Kong e o banco. Mas tempos difíceis nos esperam na Ásia, Ian. Acho que você está agindo muito sensatamente, tentando diversificar para a América do Sul... é um mercado imenso, ainda não alcançado por nós. Já pensou na África do Sul?

— Como assim?

— Vamos almoçar juntos na semana que vem. Na quarta? Ótimo. Tenho uma idéia para você.

— É? Qual?

— Dá para esperar, amigão. Soube do que aconteceu com o Gornt?

— Soube.

— Incomum para um Rolls, não é?

— É.

— Ele está certíssimo de que pode tirar a Par-Con de você.

— Mas não vai.

— Viu Phillip, hoje?

— Phillip Chen? Não, por quê?

— Por nada.

— Por quê?

— Encontrei-o no prado. Parecia... bem, estava com uma cara horrível, muito perturbado. Ele está reagindo... está reagindo muito mal ao seqüestro de John.

— Você não sentiria o mesmo?

— Sim, sentiria. Mas nunca imaginei que ele e o Filho Número Um fossem tão unidos.

Dunross pensou em Adryon, em Glenna e no filho Duncan, que tinha quinze anos e estava de férias na fazenda de um amigo que criava ovelhas, na Austrália. "O que eu faria se um deles fosse seqüestrado? O que faria se recebesse pelo correio uma orelha mutilada?

"Ficaria louco.

"Ficaria louco de ódio. Esqueceria tudo o mais e sairia à caça dos seqüestradores, e então, então minha vingança duraria mil anos. Eu..."

Bateram à porta.

— Sim? Oh, alô, Kathy — cumprimentou, feliz como sempre ao ver a irmã mais moça.

— Desculpe interrompê-lo, Ian querido — falou Kathy Gavallan, aos borbotões, da porta da sala —, mas Claudia me disse que você tinha alguns minutos livres antes do próximo compromisso. Posso entrar?

— Claro que pode — disse ele, com uma risada, deixando de lado o memorando em que estava trabalhando.

— Ah, ótimo, obrigada.

Ela fechou a porta e sentou-se na poltrona de espaldar alto que ficava perto da janela.

Ele se espreguiçou para aliviar a dor nas costas e sorriu para ela.

— Ei, gosto do seu chapéu. — Era de palha clara, com uma faixa amarela combinando com o vestido de seda leve. — O que há?

— Estou com esclerose múltipla. Ele a fitou, apalermado.

— O quê?

— Foi o que revelaram os exames. O médico me contou ontem, mas ontem não podia contar a você ou... Hoje ele examinou os testes junto com outro especialista, e não há possibilidade de erro. — A voz dela estava calma, seu rosto calmo, e sentava-se muito ereta na cadeira, mais bonita do que ele jamais a vira. — Precisava contar para alguém. Desculpe ter contado assim, de chofre. Pensei que você poderia me ajudar a fazer um plano, não hoje, mas quando tiver tempo, quem sabe no fim de semana... — Viu a expressão do rosto dele e riu nervosamente. — A coisa não é assim tão ruim. Acho.

Dunross recostou-se na grande poltrona de couro e lutou para pôr sua mente abalada para funcionar.

— Esclerose múl... é barra pesada, não é?

— É, sim. Aparentemente, é uma coisa que ataca o sistema nervoso da gente, e que eles ainda não conseguem curar. Não sabem o que é, ou onde ou como... a gente pega.

— Vamos consultar outros especialistas. Melhor ainda, você vai para a Inglaterra com Penn. Lá haverá especialistas, ou na Europa. Tem que haver alguma forma de cura, Kathy!

— Não há, querido. Mas a Inglaterra é uma boa idéia. Eu... o dr. Tooley disse que gostaria que consultasse um especialista da Harley Street, para fazer o tratamento. Gostaria muito de ir com Penn. A doença ainda não está numa fase muito avançada, e não há com que se preocupar, se eu tomar cuidado.

— Como assim?

— Se eu me cuidar, tomar os remédios que eles mandarem, tirar um cochilo à tarde, para evitar o cansaço, ainda serei capaz de cuidar do Andrew, da casa e das crianças, e jogar um pouco de tênis ou golfe, ocasionalmente. Mas só uma partida, de manhã. Sabe, eles podem deter a moléstia, mas não podem consertar o mal que já está feito. Ele disse que se eu não me cuidar e descansar... o descanso é o mais importante, falou... se eu não descansar, ela vai recomeçar, e cada vez a gente baixa mais um degrau. É. E nunca mais se pode subi-lo de novo. Entendeu, querido?

Ele a fitava, trancando dentro de si a agonia que sentia por ela. O coração dele se retorcia dentro do peito, e ele tinha planos para ela, e pensava: "Oh, Deus, pobre Kathy!"

— Entendi. Bem, graças a Deus que você pode descansar à vontade — falou, mantendo a voz tão calma quanto a dela. — Incomoda-se se eu falar com Tooley?

— Acho que não faz mal. Não há necessidade de ficar alarmado, Ian. Ele disse que eu ficaria bem se me cuidasse, e e eu lhe disse que seria muito obediente, e que quanto a isso não precisava se preocupar.

Kathy se surpreendeu ao notar que sua voz estava calma e que as mãos e os dedos repousavam tranqüilamente em seu colo, sem deixar transparecer o horror que sentia dentro de si. Quase podia sentir os germes, micróbios ou vírus da moléstia infiltrando-se no seu organismo, alimentando-se dos seus nervos, devorando-os muito devagarinho, segundo após segundo, hora após hora, até que houvesse mais formigamento e mais dormência nos dedos das mãos e dos pés, depois nos pulsos, tornozelos e pernas e... "Ah, Deus Todo-Poderoso..."

Pegou um lencinho de papel de dentro da bolsa e enxugou suavemente os lados do nariz e a testa.

— Está um bocado úmido hoje, não é?

— Está. Kathy, por que foi tão repentino?

— Mas não foi, querido. Só que eles não conseguiam diagnosticar o que era. Para isso foi que pediram tantos exames.

A coisa começara com uma leve tontura e dores de cabeça, há uns seis meses. Ela as sentia mais quando estava jogando golfe. Ficava de pé, com a bola à sua frente, firmando-se, mas os olhos ficavam turvos, ela não conseguia focalizá-la, e depois a bola se dividia em duas ou três, depois duas de novo, e não ficava parada. Andrew achara graça, e mandara que fosse ao oculista. Mas não era necessidade de óculos, e aspirina não adiantava, nem comprimidos mais fortes. Então o querido velho Tooley, o eterno médico da família deles, mandara que ela fosse ao Matilda Hospital, no Pico, para exames e mais exames, e exames de cérebro para ver se havia algum tumor, mas eles nada revelaram, assim como todos os demais testes e exames. Apenas a horrível punção na espinha dera uma pista. Outros exames levaram à confirmação. No dia anterior. "Oh, meu Deus, foi mesmo ontem que me condenaram a uma cadeira de rodas, para acabar virando uma coisa impotente?"

— Já contou ao Andrew?

— Não, querido — respondeu, voltando mais uma vez da beira do abismo. — Ainda não contei a ele. Não pude, ainda não. O pobrezinho do Andrew fica perturbado com tanta facilidade! Vou lhe contar logo mais à noite. Não podia contar a ele antes de contar a você. Tinha que contar primeiro a você. Sempre contávamos tudo primeiro a você, não é? Lechie, Scotty e eu? Você sempre sabia em primeiro lugar...