Estava recordando a época em que eram todos jovens, todas as horas felizes ali em Hong Kong e em Ayr, no Castelo Avisyard, em sua antiga, adorável e espaçosa casa, no topo da colina, em meio ao urzal, com vista para o mar... Natal, Páscoa e as longas férias de verão, ela e Ian... e Lechie, o mais velho, e Scott, o irmão gêmeo dela... dias tão felizes quando o pai não estava presente, todos mortos de medo dele, exceto Ian, que era sempre o porta-voz deles, sempre o seu protetor, que sempre recebia os castigos... dormir sem jantar, escrever quinhentas vezes "Não vou mais discutir. As crianças só devem falar com permissão"... que levava todas as surras e não se queixava. Oh, pobres Lechie e Scotty...
— Oh, Ian — falou, as lágrimas vindo à tona, repentinamente —, que tristeza! — E então sentiu os braços dele à sua volta, sentiu-se finalmente segura, e o pesadelo tornou-se mais suave. Mas sabia que nunca acabaria. Nem agora, nem nunca. Nem seus irmãos voltariam, exceto nos seus sonhos, ou o seu querido Johnny. — Tudo bem, Ian — falou, em meio às lágrimas. — Não choro por mim. Verdade. Estava lembrando de Lechie e Scotty, da nossa casa em Ayr quando éramos pequenos, e do meu Johnny, e senti tanta tristeza, por todos eles...
Lechie fora o primeiro a morrer. Segundo-tenente, Infantaria Ligeira da Escócia. Perdera-se na França, em 1940. Nunca se encontrou resto algum dele. Num minuto estava de pé, ao lado da estrada, no seguinte tinha sumido, o ar cheio da fumaça acre do fogo de barragem que os Panzers nazistas haviam aberto sobre a pequena ponte de pedras que cruzava o riacho no caminho para Dunquerque. Durante o resto da guerra, tinham vivido com a esperança de que Lechie estivesse como prisioneiro de guerra num bom campo de concentração... não num daqueles terríveis. E, depois da guerra, os meses de busca, mas sem ter nunca uma pista, uma testemunha, nem o mais ínfimo sinal, e então eles, a família, e finalmente o pai, consagraram o espírito de Lechie ao repouso.
Scotty tinha dezesseis anos em 39, e fora para o Canadá por medida de segurança, para terminar os estudos, e então, já piloto, no dia em que fez dezoito anos, apesar dos uivos de protesto do pai, ingressara na Força Aérea Canadense, querendo vingar-se pelo que acontecera a Lechie. Recebera as asas prontamente, fora engajado em um esquadrão de bombardeiros e voltara bem a tempo para o Dia D. Alegremente, destruíra muitas cidades, grandes e pequenas, até o dia 14 de fevereiro de 1945. Então, líder de esquadrilha, DFC¹, voltando do supremo holocausto de Dresden, seu Lancaster fora atacado de surpresa por um Messerschmitt, e embora o seu co-piloto conseguisse pousar com o avião avariado na Inglaterra, Scotty estava morto no assento esquerdo.
¹ Distinguished Flying Cross, Medalha de Mérito Aeronáutico. (N. da T.)
Kathy comparecera ao enterro, e Ian também... fardado, de licença, vindo de Chungking, onde se ligara à força aérea de Chang Kai-chek, depois que fora abatido e impedido de voar. Ela chorara então no ombro de Ian, chorara por Lechie, chorara por Scotty e chorara pelo seu Johnny. Já era viúva. O capitão-aviador John Selkirk, dfc, outro alegre deus da guerra, inviolado, invencível, explodira nos céus, fora abatido no espaço, os destroços descendo em chamas até o chão.
Johnny não tivera enterro. Não sobrara nada para enterrar. Tal como Lechie. Só veio um telegrama. Um para cada um dos dois.
"Oh, Johnny, meu querido, meu querido, meu querido..."
— Que desperdício terrível, Ian, todos eles. E para quê?
— Não sei, minha pequena Kathy — falou, ainda abraçado a ela. — Não sei. E não sei por que sobrevivi e ele não.
— Ah, mas como estou feliz que tenha sobrevivido! — Ela deu-lhe um breve abraço apertado e se controlou. Deu um jeito de afastar sua tristeza por todos eles. A seguir, enxugou as lágrimas, pegou um espelhinho e se mirou. — Puxa, mas estou um horror! Desculpe.
O banheiro particular dele ficava oculto atrás de uma estante de livros, e ela foi para lá retocar a maquilagem. Quando retornou, ele ainda olhava pela janela.
— Andrew não está no escritório, no momento, mas logo que ele voltar, falarei com ele — disse Ian.
— Ah, não, querido, essa tarefa é minha. Tenho que cumpri-la. Preciso. É minha obrigação. — Sorriu para ele, e tocou-o. — Amo você, Ian.
— Amo você, Kathy.
22
16h55m
A caixa de papelão que os Lobisomens haviam mandado para Phillip Chen encontrava-se sobre a mesa de Roger Crosse. Ao lado da caixa estavam o bilhete de resgate, o chaveiro, a carteira de motorista, a caneta, até mesmo os pedaços amarfanhados do jornal rasgado que fora usado como envoltório. O saquinho de plástico estava lá, assim como o trapo manchado. Só faltava o seu conteúdo.
Tudo fora etiquetado.
Roger Crosse estava sozinho na sala, e fitava os objetos, fascinado. Pegou um pedaço do jornal. Cada pedaço havia sido cuidadosamente desamassado, a maioria tinha uma etiqueta com a data e o nome do jornal chinês a que pertencia. Ele o virou ao contrário, buscando informações ocultas, uma pista oculta, alguma coisa que houvesse deixado escapar. Não tendo achado nada, recolocou-o direitinho no lugar, e apoiou-se nas mãos, imerso em pensamentos.
O relatório de Alan Medford Grant também estava sobre a mesa, junto do intercomunicador. A sala estava em silêncio completo. Janelas pequenas davam para Wanchai e para parte do porto, na direção de Glessing's Point.
O telefone dele tocou.
— Pronto?
— O Sr. Rosemont, da CIA, e o Sr. Langan, do FBI, senhor.
— Ótimo.
Roger Crosse repôs o fone no gancho. Destrancou a primeira gaveta da sua escrivaninha, colocou com cuidado a pasta de Alan Medford Grant sobre o telex decifrado e trancou-a de novo. A gaveta do meio continha um gravador de excelente qualidade. Examinou-o, e tocou num botão oculto. Silenciosamente, os carreteis começaram a rodar. O intercomunicador sobre a mesa continha um potente microfone. Satisfeito, trancou também essa gaveta. Outro botão oculto na mesa fez correr silenciosamente uma tranca na porta da sala. Levantou-se e foi abrir a porta.
— Alô, pessoal. Vamos entrando, por favor — falou, amavelmente. Fechou a porta às costas dos dois americanos e apertou-lhes as mãos. Sem ser percebido, tocou no botão, e a tranca voltou ao seu lugar, na porta. — Sentem-se. Um chá?
— Não, obrigado — disse o homem da CIA.
— Em que lhes posso ser útil?
Os dois homens carregavam envelopes de papel pardo. Rosemont abriu o dele e tirou de dentro um maço de fotos 20 x 24, dividido em duas partes, presas com clipes.
— Tome — falou, passando-lhe o maço de cima.
Havia diversas fotos de Voranski correndo pelo cais, nas ruas de Kowloon, entrando e saindo de táxis, telefonando, e muitas mais dos seus assassinos chineses. Uma das fotos mostrava os dois chineses saindo da cabine telefônica, com uma visão clara do corpo caído ao fundo.
Somente a disciplina soberba de Crosse impediu-o de demonstrar assombro, depois uma fúria cega.
— Muito boas — falou, gentilmente, colocando-as sobre a mesa e fitando aquelas que Rosemont guardava nas mãos. — E então?
Rosemont e Ed Langan franziram o cenho.
— Vocês também o estavam seguindo?
— Claro — falou Crosse, mentindo com uma sinceridade maravilhosa. — Meu caro rapaz, estamos em Hong Kong. Gostaria muito que vocês nos deixassem fazer o nosso serviço, sem interferir.
— Rog, nós não... queremos interferir, queremos apenas escorá-lo.
— Talvez não precisemos de escoras — retrucou ele, e havia um toque de aspereza em sua voz.
— Claro. — Rosemont apanhou um cigarro e acendeu-o. Era alto e magro, com cabelos grisalhos cortados à escovinha e feições regulares. Tinha as mãos fortes, como todo o resto do corpo, — Sabemos onde os dois assassinos estão escondidos. Achamos que sabemos — continuou. — Um dos nossos acha que os encontrou.