— Como assim?
— Bêbado, mas não demais. Relaciona-se com alguns dos nossos britânicos "cor-de-rosa", como Sam e Molly Finn.
— Os tais que vivem escrevendo cartas para os jornais?
— É. São mais uns chatos do que propriamente uma ameaça à segurança. Bem, de qualquer modo, seguindo as minhas instruções, meu subordinado que fala russo disse ao comandante Suslev que sentíamos demais, mas que parecia que um de seus marujos sofrerá um ataque cardíaco dentro de uma cabine telefônica, no Terminal da Balsa Dourada. Suslev mostrou-se convenientemente chocado, e muito razoável. "Por acaso", havia no bolso de Voranski um relatório exato, palavra por palavra, da conversa telefônica do assassino. Escrevemo-lo em russo, para demonstrar ainda mais o nosso desprazer. Todos são profissionais, a bordo daquele navio, e sofisticados o bastante para saber que não removemos os agentes deles sem causa e provocação fora de série. Sabem que apenas vigiamos aqueles cuja existência conhecemos, e que, se ficamos realmente irritados, nós o deportamos. — Crosse lançou um olhar para Rosemont, os olhos duros, embora a voz se mantivesse natural. — Achamos que nossos métodos são mais eficazes do que a faca, o garrote, o veneno ou a bala.
O homem da CIA balançou a cabeça.
— Mas quem iria querer matá-lo?
Crosse voltou a olhar para as fotos. Não reconheceu os dois chineses, mas seus rostos eram nítidos, e o corpo ao fundo era uma prova incrível.
— Nós os encontraremos. Sejam quem forem. O que telefonou para a nossa delegacia disse que eram da 14K. Mas falava apenas xangaiense com um dialeto ningpo, portanto não é provável. Talvez fosse alguma espécie de tríade. Poderia ser um Pang Verde. Era certamente um profissional treinado... a faca foi usada à perfeição, com grande precisão... foi assassinado num piscar de olhos, sem emitir um som. Poderia ser um dos seus estagiários da CIA no serviço de informações de Chang Kai-chek. Ou quem sabe da CIA coreana, mais gente treinada por vocês... são anti-soviéticos também, não é? Possivelmente agentes da RPC, mas isso é improvável. Os agentes deles não costumam assassinar quai loh, especialmente aqui em Hong Kong.
Rosemont sacudiu a cabeça, e ignorou a censura. Entregou a Crosse as fotografias restantes, querendo a cooperação do inglês, precisando dela.
— Estas são fotos da casa em que entraram. E o nome da rua. Nosso homem não sabia ler os caracteres, mas traduzido dá "Rua da Primeira Estação, número 14". É um becozinho nojento nos fundos da rodoviária, em North Point.
Crosse começou a examiná-las com igual cuidado. Rosemont olhou para o relógio, depois levantou-se e foi até a única janela que dava para parte do porto.
— Olhem! — exclamou, com orgulho.
Os outros dois foram para junto dele. O grande porta-aviões nuclear acabava de dobrar o North Point, dirigindo-se para o arsenal, no lado de Hong Kong. Estava todo engalanado, todas as bandeiras obrigatórias ao vento, uma multidão de marujos de branco no seu imenso convés, com fileiras bem-arrumadas dos seus ferozes caças a jato. Quase oitenta e quatro mil toneladas. Nada de chaminé, apenas um complexo de ponte vasto e ameaçador, com uma pista angular de trezentos e trinta metros que podia lançar e receber jatos, simultaneamente. O primeiro de uma geração.
— É um navio e tanto — comentou Crosse, com inveja. Era a primeira vez que o colosso entrava em Hong Kong, desde que fora posto em serviço, em 1960. — Bonito — falou, odiando o fato de o navio ser americano, e não britânico. — Qual a sua velocidade máxima?
— Não sei... é segredo, assim como tudo o mais. — Rosemont virou-se para encará-lo. — Não pode mandar aquele maldito navio espião soviético sair daqui do porto?
— Posso, e poderíamos explodi-lo, o que seria uma tolice igual. Stanley, relaxe. Tem que ser um pouco mais civilizado quanto a essas coisas. O reparo desses navios (e alguns deles realmente estão precisando) é uma boa fonte de renda, e de informações, e eles pagam as contas com presteza. Nossos métodos têm sido experimentados e testados, ao longo dos anos. "É", pensava Rosemont, sem rancor, "mas seus métodos não funcionam mais. O Império Britânico não existe mais, os rajás britânicos não existem mais, e agora temos um inimigo diferente, mais esperto, mais durão, um fanático dedicado e totalitário, que não segue as regras de Queensberry, e tem um plano mundial com fundos inesgotáveis. Vocês, britânicos, agora não têm dinheiro, nem força, nem marinha, nem exército, nem aeronáutica, e seu maldito governo está cheio de socialistas e pústulas inimigos, e nós achamos que eles venderam vocês ao bandido. Vocês foram fodidos de dentro para fora, sua segurança já era, de Klaus Fuchs e Philby para baixo. Meu Deus, ganhamos as duas guerras para vocês, pagamos pela maior parte delas, e nas duas vezes vocês esculhambaram com a paz. E se não fosse pelo nosso Comando Aéreo Estratégico, nossos mísseis, nossa força de ataque nuclear, nossa marinha, nosso exército, nossa aviação, nossos contribuintes, nossa grana, vocês todos estariam mortos ou na porra da Sibéria. Entrementes, quer me agrade ou não, tenho que tratar com você. Precisamos de Hong Kong como janela, e nesse momento precisamos dos seus tiras para tomarem conta do porta-aviões."
— Rog, obrigado pelos homens extras — falou. — Ficamos muito agradecidos.
— Também não íamos querer nenhuma encrenca enquanto ele estiver aqui. Belo navio. Invejo vocês por possuírem-no.
— Seu comandante vai manter o navio e a tripulação sob rédea curta... o pessoal que vier a terra será bem instruído, e advertido, e vamos colaborar cem por cento.
— Darei a vocês uma cópia da lista de bares que sugeri que seus marujos evitassem... alguns são "pontos" conhecidos de comunistas, alguns são freqüentados pelos nossos rapazes do H.M.S. Dart. — Crosse sorriu. — São capazes de puxar uma ou outra briguinha entre si.
— Claro. Rog, este assassinato do Voranski é coincidência demais. Posso mandar um orador de Xangai para ajudar no interrogatório?
— Avisarei se precisarmos de ajuda.
— Pode nos dar agora as cópias dos outros relatórios de Alan para o tai-pan? Aí nós o deixaremos em paz.
Crosse devolveu-lhe o olhar, retorcendo-se por dentro, embora estivesse preparado para o pedido.
— Precisarei da aprovação de Whitehall. Rosemont ficou surpreso.
— Nosso homem-chefe na Inglaterra já esteve com o seu
Grande Pai Branco, e a coisa foi aprovada. Você já devia ter recebido a notícia faz uma hora.
— É?
— Claro. Pombas, não tínhamos a menor idéia de que Alan estava na folha de pagamento do tai-pan, e ainda mais que lhe estava passando informações sigilosas! Os fios de comunicação têm estado em brasa desde que Ed recebeu a cópia principal das últimas vontades e testamento de Alan. Recebemos ordens expressas de Washington para arranjar cópias dos outros relatórios, e estamos tentando localizar a chamada para a Suíça, mas...
— Como disse?
— O telefonema de Kiernan. O segundo que deu.
— Não estou entendendo. Rosemont explicou. Crosse franziu o cenho.
— Meu pessoal não me falou nele. Nem Dunross. Ora, por que Dunross mentiria... ou evitaria me contar isso? — Relatou aos outros exatamente o que Dunross lhe dissera. — Não havia motivo para ele ocultar isso, havia?
— Não. Bem, Rog: o tai-pan é legal? Crosse riu.
— Se está querendo saber se ele é um flibusteiro monarquista britânico cem por cento, fiel à sua Casa, a si mesmo e à rainha... não necessariamente nessa ordem... a resposta é um enfático sim.
— Então, Rog, se puder nos dar as nossas cópias agora, já vamos andando.
— Quando eu tiver a aprovação de Whitehall.
— Ligue para a sua sala de decifrar códigos... é uma Prioridade l-4a. Diz para você nos entregar as cópias ao receber a mensagem.