As l-4a eram muito raras. Exigiam liberação e ação imediatas.
Crosse hesitou, querendo evitar a armadilha em que se encontrava. Não ousava dizer-lhe que ainda não estava de posse dos relatórios de Alan. Pegou no telefone e discou.
— Aqui fala o Sr. Crosse. Alguma coisa para mim da Fonte? Uma l-4a?
— Não, senhor, exceto aquela que já lhe enviamos faz uma hora, cujo talão de recebimento o senhor assinou — respondeu a mulher do sei.
— Obrigado — Crosse desligou. — Nada, ainda — falou.
— Merda — resmungou Rosemont, e depois acrescentou: — Juraram que já a tinham enviado, e que estaria nas suas mãos quando chegássemos aqui. Vai chegar a qualquer segundo. Esperaremos, se não se importar.
— Tenho um encontro na Central daqui a pouquinho. Quem sabe logo mais à noite?
Os dois homens sacudiram a cabeça. Langan falou:
— Vamos esperar. Ordenaram-nos que os enviássemos de volta, imediatamente, por mensageiro, com uma guarda vinte quatro horas por dia. Um avião-transporte do exército deve chegar agora em Kai Tak, para levar o mensageiro: não podemos nem copiar os relatórios aqui.
— Não estão exagerando?
— Isso é você quem pode responder. O que há neles? Crosse brincava com o isqueiro, onde estavam gravadas as palavras "Universidade de Cambridge". Possuía-o desde antes de se formar.
— É verdade o que Alan Medford Grant disse sobre a CIA e a Máfia?
Rosemont devolveu-lhe o olhar.
— Não sei. Vocês utilizaram todo tipo de vigaristas durante a Segunda Guerra Mundial. Aprendemos com vocês a tirar vantagem do que tivéssemos... essa era a sua primeira regra. Além disso — acrescentou Rosemont, cheio de convicção —, esta guerra é nossa, e vamos ganhá-la, não importa como.
— É, é, sim, temos que ganhar — ecoou Langan, igualmente convencido. — Porque, se a perdermos, o mundo inteiro irá pro beleléu, e jamais teremos nova chance.
Na ponte envidraçada do Soviétski Ivâttov, três homens observavam com binóculos o porta-aviões nuclear. Um dos homens era civil, e usava um microfone ligado a um gravador. Estava fazendo um relatório técnico, pericial, sobre o que via. De quando em vez, os outros dois acrescentavam um comentário. Ambos usavam um uniforme naval claro. Um deles era o comandante Grigóri Suslev, o outro, seu imediato.
O porta-aviões vinha entrando direitinho no porto, com rebocadores a postos, mas sem cordas de rebocadores. Barcas, balsas e cargueiros apitavam as boas-vindas. Uma banda de fuzileiros tocava no tombadilho de popa. Marujos de branco acenavam para navios que passavam. O dia estava muito úmido, e o sol da tarde projetava longas sombras.
— O comandante é um cobra — comentou o imediato.
— É. Mas com todos aqueles radares, até uma criança poderia manejá-lo — replicou o comandante Suslev. Era um homem de ombros fortes, barbudo, os olhos eslavos castanhos e fundos, num rosto amistoso. — Aquelas varredeiras no topo dos mastros me parecem as novas ge para radar de longuíssimo alcance. São, Vassíli?
O perito técnico interrompeu momentaneamente a sua transmissão.
— Sim, camarada comandante. Mas, olhe para a popa! Há quatro interceptadores F5 estacionados no convés de pista direito.
Suslev soltou um assobio mudo.
— Não deviam estar em uso senão no ano que vem.
— Não — concordou o civil.
— Relate isso em separado logo que ele atraque. Somente essa notícia já valeu a nossa viagem.
Suslev apurou o foco do binóculo, enquanto o navio virava ligeiramente. Dava para ver as prateleiras de bombas dos aviões.
— Quantos F5 mais carregará no bojo, e quantas ogivas atômicas para eles?
Todos observaram o porta-aviões, por um momento.
— Talvez dessa vez tenhamos sorte, camarada comandante — disse o imediato.
— Espero que sim. Desse modo, a morte de Voranski não terá saído tão cara.
— Os americanos são idiotas em trazê-lo para cá... não sabem que todos os agentes na Ásia serão tentados por ele?
— Sorte nossa que sejam. Torna o nosso serviço bem mais fácil.
Mais uma vez, Suslev concentrou-se nos F5, que pareciam vespões-soldados entre outros vespões.
À sua volta, a ponte estava lotada de equipamento de vigilância avançadíssimo. Um radar varria o porto. Um marujo de cabelos grisalhos, impassível, fitava a tela, o porta-aviões representado por um blip alto e nítido, que se destacava dos demais.
O binóculo de Suslev moveu-se para o ominoso complexo da ponte do porta-aviões, depois percorreu toda a extensão do navio. Sem conseguir se controlar, estremeceu frente ao seu tamanho e potência.
— Dizem que nunca foi reabastecido... desde o seu lançamento, em 1960.
Às suas costas a porta da sala de rádio anexa à ponte se abriu e um radiotelegrafista chegou junto dele, bateu continência e estendeu um telegrama.
— Urgente, do Centro, camarada comandante.
Suslev pegou o telegrama e assinou um recibo. Era um amontoado de palavras sem sentido. Com um último olhar para o porta-aviões, ele pousou o binóculo sobre o peito e saiu em largas passadas da ponte. Seu camarote ficava no mesmo convés, um pouco mais para a popa. Havia um guarda na porta, assim como nas duas entradas da ponte.
Trancou de novo a porta do camarote atrás de si, e abriu o pequeno cofre disfarçado. Seu livro de códigos estava escondido numa parede falsa. Sentou-se à sua mesa. Rapidamente, decifrou a mensagem. Leu-a com atenção, depois ficou com o olhar perdido no espaço, por um momento.
Leu-a pela segunda vez, depois guardou o livro de códigos, fechou o cofre e queimou o original do telegrama num cinzeiro. Pegou o telefone.
— Ponte? Mandem o camarada Metkin ao meu camarote! Enquanto esperava, ficou de pé junto à vigia, imerso em pensamentos. O camarote dele estava desarrumado. Fotos de uma mulher corpulenta, que sorria constrangida, pousavam emolduradas sobre sua mesa. Havia outra foto de um jovem bem-apessoado, com a farda da marinha, e de uma garota adolescente. Livros, uma raquete de tênis e um jornal sobre o beliche desfeito.
Bateram à porta. Ele foi destrancá-la. O marujo que estivera observando a tela de radar estava à sua frente.
— Entre, Dmítri.
Suslev indicou o telegrama decifrado com um gesto e trancou novamente a porta do camarote.
O marujo era baixo e atarracado, de cabelos grisalhos e um rosto simpático. Era, oficialmente, comissário do povo, e portanto o oficial mais antigo do navio. Apanhou a mensagem decifrada. Dizia: "Prioridade Um. Grigóri Suslev. Assumirá imediatamente os deveres e responsabilidades de Voranski. Londres relata interesse máximo da CIA e da MI-6 em informações contidas em pastas de capa azul, entregues extra-oficialmente a Ian Dunross, da Struan, pelo coordenador do Serviço de Informações Britânico, Alan Medford Grant. Ordene a Arthur que obtenha cópias imediatamente. Se Dunross destruiu as cópias, mande avisar por telegrama se é exeqüível um plano para detê-lo e extrair dele o que sabe por processos químicos".
A fisionomia do marujo se fechou. Olhou para o comandante Suslev.
— Alan Medford Grant?
— É.
— Que ele arda no inferno por mil anos!
— Arderá, se existir alguma justiça neste mundo ou no outro. — Suslev deu um sorriso sombrio. Foi até um aparador, onde pegou uma garrafa de vodca pela metade e dois copos. __ Ouça, Dmítri, se eu falhar ou não voltar, assuma o comando. — Mostrou a chave. — Destranque o cofre. Lá há instruções para decifrar códigos e tudo o mais.
— Deixe-me ir hoje, em seu lugar. Você é mais impor...
— Não. Obrigado, velho amigo. — Suslev deu-lhe um abraço caloroso. — Em caso de acidente, assuma o comando e cumpra a nossa missão. Para isso fomos treinados. — Tocou com seu copo no do outro. — Não se preocupe. Tudo vai dar certo — falou, contente por poder fazer o que queria, e muito satisfeito com o seu emprego e posição na vida. Secretamente, era vice-controlador na Ásia do primeiro diretório do KGB, Departamento 6, responsável por todas as atividades sigilosas na China, na Coréia do Norte e no Vietnam; conferencista sênior no Departamento de Assuntos Externos da Universidade de Vladivostok, 2A-Contra-Informações; coronel do KGB; e, o que era o mais importante, membro destacado do partido no Extremo Oriente. — O Centro deu a ordem; você precisa vigiar a nossa retaguarda aqui. Hem?