— Claro. Não precisa se preocupar com isso, Grigóri. Posso cuidar de tudo. Mas fico preocupado com você — disse Metkin. Há anos navegavam juntos, e ele respeitava muito Suslev, embora não soubesse de que fonte provinha a sua autoridade suprema. Às vezes, sentia-se tentado a procurar descobrir. "Você está ficando velho", dizia consigo mesmo. "Vai se aposentar no ano que vem, e talvez precise de amigos poderosos, e o único meio de ter a ajuda de amigos poderosos é conhecer os seus segredos. Mas, com ou sem Suslev, sua bem-merecida aposentadoria será honrosa, tranqüila, em sua casa na Criméia." O coração de Metkin bateu mais forte ao pensar naquela linda paisagem e no clima excelente do mar Negro, na vida que levaria ao lado da mulher, e vendo de vez em quando o filho, um oficial promissor do KGB, no momento em Washington, não mais correndo riscos ou perigos, vindos de dentro ou de fora.
"Oh, Deus, proteja o meu filho de ser traído ou cometer um erro", orou fervorosamente. Logo sentiu uma onda de náusea, como sempre, temendo que seus superiores soubessem que, intimamente, era um crente, e que seus pais, camponeses, o haviam criado dentro dos ensinamentos da Igreja. Se eles soubessem, jamais haveria aposentadoria na Criméia, só um lugar remoto e gelado qualquer, e nunca um lar de verdade.
— Voranski — falou, como sempre disfarçando cuidadosamente o ódio que sentia pelo homem. — Ele era dos grandes, não? Onde foi que errou?
— Foi traído, eis o problema — falou Suslev, com ar sombrio. — Vamos achar seus assassinos, e eles pagarão. Se eu for o próximo da lista... — O homenzarrão deu de ombros, depois serviu-se de mais vodca, com uma risada repentina. — E daí, não é? Tudo em nome da causa, do partido e da Mãe Rússia!
Encostaram os copos um no outro, e os esvaziaram.
— Quando vai para terra?
Suslev sentiu o travo da bebida forte. Depois, agradecido, saboreou o gostoso calor que crescia dentro de si, e seus terrores e ansiedades pareceram menos reais. Fez um sinal para a vigia.
— Logo que ele esteja atracado e seguro — falou, com sua risada ressonante. — Ah, mas é um belo navio, não?
— Não temos nada que se iguale àquele filho da mãe, comandante, temos? Ou àqueles caças. Nada.
Suslev sorriu enquanto se servia de novo.
— Não, camarada. Mas se o inimigo não tiver força de vontade real para resistir, pode ter cem daqueles porta-aviões, não faz diferença.
— É, mas os americanos são excêntricos. Um general pode tornar-se um tanto belicoso, e eles podem nos varrer da face da terra.
— Concordo que agora possam, mas não o farão. Não têm colhões para tanto. — Suslev bebeu de novo. — E então? Só mais um tempinho e acabaremos com a alegria deles! — Soltou um suspiro. — Vai ser bom, quando começarmos.
— Vai ser terrível.
— Não; uma guerra curta, quase sem derramamento de sangue contra os Estados Unidos, e depois o resto desabará, como um cadáver cheio de pus.
— Sem derramamento de sangue? E quanto às bombas atômicas deles? Bombas de hidrogênio?
— Jamais usarão armas atômicas ou mísseis contra nós, têm medo demais, mesmo agora, dos nossos! Porque estão certos de que os usaremos.
— E usaremos?
— Não sei. Alguns comandantes usariam. Eu não sei. É certo que replicaremos com eles. Mas usá-los em primeiro lugar? Não sei. A ameaça será sempre o bastante. Estou certo de que jamais precisaremos de uma guerra de verdade. — Tocou fogo num dos cantos da mensagem decifrada e botou-a no cinzeiro. — Mais vinte anos de detente (ah, que gênio russo inventou isso) e teremos uma marinha maior e melhor que a deles, uma força aérea maior e melhor que a deles. Agora temos mais tanques e mais soldados, mas sem navios e aviões, teremos que esperar. Vinte anos não é esperar muito para que a Mãe Rússia domine a terra.
— E a China? E quanto à China?
Suslev engoliu a vodca e encheu os dois copos de novo. Agora a garrafa estava vazia, e ele a jogou sobre o beliche. Fitou o papel que ardia no cinzeiro, retorcendo-se e crepitando, morrendo.
— Talvez a China seja o único lugar onde usar nossas armas atômicas — disse, com naturalidade. — Não há ali nada de que precisemos. Nada. Isso resolveria o nosso problema chinês definitivamente. Quantos homens em idade militar tinham eles, na última estimativa?
— Cento e dezesseis milhões com idade entre dezoito e vinte e cinco.
— Imagine só! cento e dezesseis milhões de demônios amarelos partilhando oito mil quilômetros das nossas fronteiras... e depois os estrangeiros dizem que somos paranóicos quando se trata da China! — Bebericou a vodca, saboreando-a devagar, desta feita. — Armas atômicas resolveriam o nosso problema com a China. De modo rápido e permanente.
O outro homem fez que sim com a cabeça.
— E esse Dunross? Os documentos de Alan Medford Grant?
— Nós os tiraremos dele. Afinal de contas, Dmítri, um dos nossos, é gente da família dele, outro é um de seus sócios, outro trabalha no sei. Arthur e a Sevrin estão em qualquer lado para onde ele se vire, e ainda temos uns doze decadentes para quem apelar no seu Parlamento, alguns no seu governo.
Os dois desataram a rir.
— E se ele tiver destruído os papéis? Suslev deu de ombros.
— Dizem que ele tem uma memória fotográfica.
— Faria o interrogatório aqui?
— Seria perigoso utilizar as substâncias químicas, em profundidade, e depressa. Nunca fiz um serviço desses. E você?
— Não.
O comandante franziu o cenho.
— Quando fizer seu relatório, hoje à noite, diga ao Centro para deixar um perito a postos, para o caso de precisarmos — Koronski, de Vladivostok, se estiver disponível.
Dmítri concordou com a cabeça, imerso em pensamentos. O Guardian matutino, meio amassado, largado sobre o beliche do comandante, chamou sua atenção. Foi até lá pegá-lo, os olhos acesos.
— Grigóri... se tivermos que prender Dunross, por que não culpá-los? Então você teria todo o tempo que fosse preciso. — A manchete berrava suspeitos em caso de seqüestro dos lobisomens. — Se Dunross não voltar... quem sabe nosso homem seria o tai-pan! Hem?
Suslev começou a rir baixinho.
— Dmítri, você é um gênio.
Rosemont lançou um olhar ao relógio de pulso. Já esperara o bastante.
— Rog, posso usar seu telefone?
— É claro — respondeu Crosse.
O homem da CIA apagou o cigarro e ligou para o ramal central da CIA no consulado.
— Aqui é Rosemont... ligue-me com 2022. Era o número do centro de comunicações da CIA.
— 2022. Chapman... quem está falando?
— Rosemont. Alô, Phíl, alguma novidade?
— Não, exceto que o Marty Povitz relatou que há um bocado de atividade na ponte do Ivánov, binóculos superpoten-tes. Três sujeitos, Stan. Um é civil, os outros são o comandante e o imediato. Uma das suas varredeiras de radar de curto alcance está sempre operando. Quer que a gente avise ao comandante do Corregidor?
— Pombas, não, para que aborrecê-lo mais do que o necessário? Escute, Phil, tivemos confirmação do nosso 40-41?
— Claro, Stan. Chegou às... chegou às dezesseis horas e três minutos, hora local.
— Obrigado, Phil, até logo.
Rosemont acendeu outro cigarro. Azedamente, Langan, que não fumava, fitou-o, mas ficou calado, já que Crosse também estava fumando.
— Rog, que brincadeira é essa? — perguntou Rosemont, com aspereza, chocando Langan. — Você recebeu a sua Prioridade l-4a às dezesseis e três, na mesma hora que nós. Por que toda essa protelação?