Os rebentos dele são na maioria esbanjadores, ou estão mais interessados no mundo ocidental — cassinos no sul da França, partidas de golfe — do que na saúde e futuro do sindicato. Para os Mos, é o destino antiqüíssimo: o cule, um em dez mil, que acha ouro, guarda dinheiro, investe em terras, poupa, fica rico, compra jovens concubinas que o desgastam rapidamente. A segunda geração é descontente, gasta o dinheiro, hipoteca as terras para comprar prestígio e os favores das mulheres. A terceira geração vende as terras, vai à falência pelos mesmos favores. A quarta geração é cule de novo. — Sua voz estava calma, até meiga. — Meu velho amigo está morto, e não sinto nada pelos filhos dele, ou pelos netos. São ricos, imensamente ricos por minha causa, e encontrarão seu próprio nível; bom, mau ou péssimo. Quanto a Pão-Duro... — Os dedos pararam de se mexer, de novo. — Pão-Duro está morrendo. Dunross ficou espantado.
— Mas eu o vi faz mais ou menos uma semana, e parecia saudável, frágil como sempre, mas cheio de vida e malícia.
— Está morrendo, Ian. Sei disso porque fui seu intérprete junto aos especialistas portugueses. Não queria confiar em nenhum dos filhos... foi o que me disse. Levei meses para conseguir que fosse aos médicos, mas ambos deram o mesmo diagnóstico: câncer do cólon. O organismo dele está saturado de câncer. Deram-lhe um, dois meses de vida... isso foi há uma semana. — Mata sorriu. — O velho Pão-Duro xingou os dois, disse que estavam errados, que eram idiotas, e que jamais pagaria por um diagnóstico errado. — O português esbelto riu sem achar graça. — Ele vale mais de seiscentos milhões de dólares americanos, mas jamais pagará aquela conta médica, ou fará outra coisa senão continuar a beber chás de ervas chineses fedorentos e amargos, e a fumar o seu cachimbo de ópio ocasional. Não vai aceitar um diagnóstico ocidental, de quai loh... você o conhece. Conhece muito bem, não é?
— É.
Quando Dunross estava em férias escolares, o pai costumava mandá-lo trabalhar para certos velhos amigos. Tung Pão-Duro fora um deles, e Dunross lembrava-se do verão pavoroso que passara suando no porão nojento do banco do sindicato em Macau, tentando agradar o seu mentor e não chorar de raiva ao pensar no que estava tendo que suportar enquanto todos os seus amigos se divertiam. Mas, agora, sentia-se grato por aquele verão. Pão-Duro lhe ensinara muita coisa sobre o dinheiro... seu valor, como ganhá-lo, como ficar com ele, sobre a usura, a cobiça e a taxa de juros normal dos chineses, de dois por cento ao mês, nos bons tempos.
— Pegue o dobro da quantia necessária, mas se ele não tiver nenhuma, olhe dentro dos olhos de quem está pedindo o empréstimo! — berrava Tung para ele. — Se não houver garantia, cobre juros maiores, é claro. Agora, pense; pode confiar nele? Vai poder pagar o empréstimo? Ele é trabalhador ou vadio? Olhe para ele, pateta, ele é a sua garantia! Quanto ele quer do meu dinheiro suado? É um trabalhador esforçado? Se for, o que são dois por cento ao mês para ele... ou quatro? Nada. Mas é o meu dinheiro que fará o sacana ficar rico, se for o destino dele ficar rico. O homem em si é toda a garantia de que jamais se precisará! Empreste qualquer coisa ao filho de um homem rico, se estiver dando a sua herança como garantia, e tiver o carimbo oficial do pai... vai ser tudo gasto com piranhas, mas e daí?, o dinheiro é dele, não seu! Como se fica rico? Poupando! Poupa-se dinheiro, compra-se terra com um terço, empresta-se um terço e guarda-se um terço em dinheiro vivo. Empreste apenas à gente civilizada, e nunca confie num quai loh... — casquinava ele.
Dunross recordava-se bem daquele velho de olhos duros como pedra, quase desdentado... um analfabeto que sabia ler e escrever apenas três caracteres (os do seu nome), mas que tinha uma mente como a de um computador, que sabia, até o último tostão, quem lhe devia, e quando tinha que receber. Ninguém jamais deixara de lhe pagar uma dívida. Não valia a pena sofrer a perseguição incessante.
Naquele verão ele tinha treze anos, e Lando Mata se tornara seu amigo. Então, como agora, Mata era quase um espectro, uma presença misteriosa que entrava e saía das esferas governamentais de Macau como bem queria, sempre discretamente, uma figura que mal se via, de quem pouco se conhecia, um asiático estranho que ia e vinha quando lhe dava na telha, apanhava o que queria, colhendo riquezas incríveis como e quando tinha vontade. Mesmo hoje havia apenas um punhado de pessoas que sabia o seu nome, e menor ainda era o número dos que o conheciam pessoalmente. O próprio Dunross nunca fora à sua villa na Rua da Fonte Quebrada, o prédio baixo e espaçoso oculto por trás dos portões de ferro e muros de pedra enormes, nem sabia direito coisa alguma a seu respeito — de onde viera, quem eram seus pais ou como conseguira adquirir aqueles dois monopólios de riqueza ilimitada.
— Lamento saber sobre o velho Pão-Duro — disse Dunross. — Sempre foi um filho da mãe durão, mas não mais durão para comigo do que para com qualquer dos filhos.
— É. E está morrendo. Joss. E estou pouco ligando para os herdeiros dele. Como os Chins, serão ricos, todos eles. Até o Zeppelin — disse Lando Mata, com um ar de desdém. — Até o Zeppelin vai receber de cinqüenta a setenta e cinco milhões americanos.
— Santo Deus, quando a gente pára para pensar no dinheiro que o jogo dá...
As pálpebras de Mata se fecharam mais.
— Devo fazer uma mudança?
— Se quiser deixar um monumento, sim. Atualmente, o sindicato só permite jogos chineses: fan-tan, dominó e dados. Se o novo grupo tivesse visão, e se ele se modernizasse... se construísse um imenso cassino novo, com mesas para roleta, vinte-e-um, chemin-de-fer, até mesmo dados americanos, a Ásia inteira se dirigiria para Macau.
— Quais são as chances de o jogo ser legalizado em Hong Kong?
— Nenhuma... sabe melhor do que eu que sem o jogo e o ouro, Macau acabaria indo pro brejo, e é um ponto de honra da política comercial da Grã-Bretanha e de Hong Kong jamais permitir que isso aconteça. Temos as nossas corridas de cavalos... vocês, as mesas de jogo. Mas com proprietários com uma visão mais moderna, novos hotéis, novos jogos, novos hidroaviões, vocês ganhariam tanto que teriam que abrir o seu próprio banco.
Lando Mata apanhou um pedaço de papel, olhou para ele, depois passou-o a Dunross.
— Aqui estão quatro grupos de três nomes de pessoas que talvez tenham o direito de dar lances. Gostaria de saber sua opinião.
Dunross nem olhou para a lista.
— Quer que eu escolha o grupo de três que você já escolheu?
Mata riu.
— Ah, Ian, você me conhece bem demais! É, já escolhi o grupo que deve ser o mais bem-sucedido, se seu lance for substancial o bastante.
— Algum dos grupos está sabendo que você está pensando em tomá-lo como sócio?
— Não.
— E quanto ao Pão-Duro... e os Chins? Não vão perder o seu monopólio sem chiar.
— Se o Pão-Duro morrer antes do leilão, haverá um novo sindicato. Caso contrário, a mudança será feita, porém de modo diferente.
Dunross olhou para a lista. E soltou uma exclamação abafada. Todos os nomes eram de chineses conhecidos, de Hong Kong e Macau, tudo gente de peso, alguns com passado curioso.
— Bem, pelo menos são todos famosos, Lando.
— É. Para ganhar tanto dinheiro, para dirigir um império do jogo, é preciso homens de visão.
Dunross sorriu junto com ele.
— Concordo. Então, por que não estou na lista?
— Demita-se da Casa Nobre até o fim do mês e poderá formar o seu próprio sindicato. Garanto que o seu lance será aceito. Fico com quarenta por cento.
— Lamento, mas não é possível, Lando.
— Poderia obter uma fortuna pessoal de quinhentos milhões a um bilhão de dólares em dez anos.
— O que é o dinheiro? — falou Dunross, dando de ombros.