— Moh ching, moh mengl Sem dinheiro, não há vida.
— É, mas não há dinheiro bastante no mundo para fazer com que eu me demita. Apesar disso, farei um trato com você. A Struan dirigirá o jogo para você, por meio de representantes.
— Desculpe, não. Tem que ser tudo ou nada.
— Poderíamos fazer a coisa melhor e mais barato do que qualquer outro, e com mais classe.
— Se você se demitir. Tudo ou nada, tai-pan.
A cabeça de Dunross doía ao pensar em tanto dinheiro, mas percebeu o tom de voz resoluto e definitivo de Mata.
— É justo. Desculpe, não estou disponível — falou.
— Estou certo de que você, pessoalmente, seria bem-vindo como... como consultor.
— Se eu escolher o grupo certo?
— Talvez. — O português sorriu. — E então? Dunross se perguntava se poderia correr o risco de uma tal associação. Fazer parte do sindicato de jogo de Macau não era como pertencer ao Turf Club.
— Vou pensar no assunto, depois darei uma resposta.
— Ótimo, Ian. Diga-me qual a sua opinião dentro de dois dias, certo?
— Certo. Vai me contar qual foi o lance vencedor... se decidir mudar?
— Um associado ou consultor precisa ter conhecimento disso. Agora, um último tópico, depois eu vou indo. Acho que jamais verá de novo seu amigo Tsu-yan.
Dunross fitou-o.
— Como?
— Ele ligou para mim de Taipé, ontem de manhã, nervosíssimo. Pediu-me que mandasse o Catalina especialmente para apanhá-lo. Disse que era urgente, que explicaria quando me visse. Viria direto para a minha casa, logo que chegasse. — Mata deu de ombros e examinou as unhas muitíssimo bem-tratadas. — Tsu-yan é um velho amigo. Já atendi a velhos amigos antes, portanto autorizei o vôo. Ele não apareceu, Ian. Oh, veio com o hidroplano... meu chofer estava no molhe para apanhá-lo. — Mata ergueu os olhos. — É uma coisa incrível. Tsu-yan vestia trapos imundos de cule e um chapéu de palha. Resmungou que iria me ver logo mais, à noite, enfiou-se no primeiro táxi e arrancou como se estivesse sendo perseguido por todos os diabos do inferno. Meu chofer ficou estupefato.
— Não houve um engano? Tem certeza de que era ele?
— Ah, tenho, Tsu-yan é muito conhecido... felizmente meu chofer é português, e tem alguma iniciativa. Saiu correndo atrás dele. Disse que o táxi de Tsu-yan se dirigiu para o norte. Perto do Portão da Barreira, o táxi parou, e então Tsu-yan fugiu a pé, o mais rápido possível, cruzou o Portão da Barreira e entrou na China. Meu empregado o viu correr até chegar junto dos soldados do lado da RPC, e depois sumir dentro da casa da guarda.
Dunross fitou Mata, sem poder acreditar. Tsu-yan era um dos capitalistas e anticomunistas mais conhecidos de Hong Kong e Formosa. Antes da queda do continente, fora quase que um minissenhor da guerra na área de Xangai.
— Tsu-yan jamais seria bem-vindo na República Popular da China — disse. — Jamais! Deve estar no topo da lista negra deles.
Mata hesitou.
— A não ser que estivesse trabalhando para eles.
— Não é possível.
— Qualquer coisa é possível, na China.
Vinte andares abaixo deles, Roger Crosse e Brian Kwok estavam saindo do carro da polícia, seguidos por Robert Armstrong. Um policial à paisana do sei veio ao seu encontro.
— Dunross ainda está no escritório, senhor.
— Ótimo.
Robert Armstrong ficou na porta de entrada, os outros dois se dirigiram para o elevador. Saltaram no vigésimo andar.
— Ah, boa noite, senhor — cumprimentou Claudia, e sorriu para Brian Kwok. Tung Zeppelin esperava ao lado do telefone. Fitou os policiais, com choque repentino, obviamente reconhecendo-os.
Roger Crosse disse:
— O Sr. Dunross está me esperando.
— Sim, senhor. — Apertou o botão da sala de reuniões, e logo falou ao seu telefone: — O Sr. Crosse está aqui, tai-pan.
Dunross disse:
— Dê-me um minutinho, depois faça-o entrar, Claudia. — Recolocou o seu telefone no gancho, depois virou-se para Mata. — Crosse está aqui. Se não o vir logo mais no banco, falo com você amanhã de manhã.
— Sim, eu... por favor, ligue para mim, Ian. É. Quero alguns minutos em particular com você. Logo mais ou amanhã.
— Logo mais às nove — replicou Ian imediatamente. — Ou amanhã, a qualquer hora.
— Ligue para mim às nove. Ou amanhã. Obrigado. Mata cruzou a sala e abriu uma porta que mal se notava, camuflada como parte das estantes de livros. A porta se abria para um corredor particular que levava ao andar inferior. Ele fechou a porta atrás de si.
Dunross ficou olhando para o lugar por onde ele se fora, pensativo. O que estaria querendo? Guardou os papéis da agenda numa gaveta, trancou-a, depois recostou-se na cabeceira da mesa, tentando se concentrar, olhos fitos na porta de entrada, o coração batendo mais depressa. O telefone tocou e ele deu um pulo.
— Sim?
— Papai — falou Adryon, sempre afobada —, desculpe interromper, mas mamãe quer saber a que horas você vem jantar.
— Vou chegar tarde. Diga a ela para não esperar, que como qualquer coisa no caminho. A que horas chegou ontem à noite? — indagou, recordando-se de que ouvira o carro dela voltar pouco antes da aurora.
— Cedo — retrucou, e ele já ia dar-lhe uma bronca daquelas, quando percebeu a tristeza na voz da moça.
— O que há, meu bem? — perguntou.
— Nada.
— O que há?
— Nada, verdade. Tive um dia ótimo, almocei com o seu Linc Bartlett... fomos fazer compras. Mas aquela besta do Martin me deu o bolo.
— O quê?
— É. Esperei uma hora inteira por ele. Tínhamos combinado ir tomar chá juntos no Victoria, mas ele nem deu as caras. É uma besta!
Dunross abriu um sorriso.
— Não se pode confiar em certas pessoas, não é mesmo, Adryon? Veja só! Dar o bolo em você! Mas que audácia! — falou, adequadamente solene, radiante porque Haply ia ouvir poucas e boas.
— Ele é um monstro! Um monstro de vinte e quatro quilates!
A porta se abriu. Crosse e Brian entraram. Ele lhes fez um gesto de cabeça, chamando-os para perto. Claudia fechou a porta atrás deles.
— Tenho que desligar, agora. Ei, boneca, amo você! Tchau! — Desligou o aparelho, e não estava mais perturbado. — Boa noite — cumprimentou.
— As pastas, Ian, por favor.
— Por certo, mas primeiro temos que ir ver o governador.
— Primeiro eu quero aquelas pastas.
Crosse tirou do bolso o mandado de prisão, enquanto Dunross pegava o telefone e discava. Esperou apenas um momento.
— Boa noite, senhor. O superintendente Crosse está aqui... sim, senhor. — Estendeu o aparelho. — Para você.
Crosse hesitou, a fisionomia dura, depois pegou o aparelho.
— Superintendente Crosse — falou. Escutou durante um momento. — Sim, senhor. Pois não, senhor. — Colocou o fone no gancho. — Ora, que diabo você está aprontando?
— Nada. Estou apenas sendo cauteloso. Crosse ergueu o mandado.
— Se não me der as pastas, tenho autorização de Londres para entregar-lhe isto aqui às dezoito horas, com ou sem governador!
Dunross devolveu-lhe o olhar, igualmente duro.
— Por favor, à vontade.
— O mandado está entregue, Ian Struan Dunross! Sinto muito, mas está preso.
O queixo de Ian empinou um pouco.
— Muito bem. Mas antes, por Deus, iremos ver o governador!
24
18h20m
O tai-pan e Roger Crosse cruzavam o chão de pedrinhas brancas em direção à porta da frente do Palácio do Governo. Brian Kwok esperava ao lado do carro da polícia. A porta da frente se abriu e o jovem camarista com a farda da Marinha Real cumprimentou-os educadamente, depois fê-los entrar numa ante-sala exótica.
Sua Excelência, Sir Geoffrey Allison, DSO¹, OBE², era um homem de cabelos avermelhados de cinqüenta e muitos anos, impecável, de fala macia e extremamente durão. Estava sentado a uma escrivaninha antiga, e os observava.