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Sir Geoffrey servia o excelente xerez em duas exóticas xícaras de porcelana casca de ovo.

— Essa história de Alan Medford Grant é bem assustadora, Roger — falou. — Infelizmente ainda não me acostumei às traições, e a toda a podridão de que o inimigo é capaz... mesmo depois de todo esse tempo. — Sir Geoffrey servira no corpo diplomático desde que começara a trabalhar, exceto na época da guerra, quando fora oficial do estado-maior do exército britânico. Falava russo, mandarim, francês e italiano. — É terrível.

— É sim, senhor. — Crosse observava-o. — Tem certeza de que pode confiar em Ian?

— Na sexta-feira você não necessitará da autorização de Londres para prosseguir. Tem uma ordem no conselho. Na sexta-feira, nós nos apossaremos das pastas.

— Sim, senhor. — Crosse aceitou a xícara de porcelana, preocupado com a sua fragilidade. — Obrigado, senhor.

— Sugiro que mantenha dois homens nas caixas-fortes ininterruptamente, um do sei e outro do DIC, para efeito de segurança, e um vigia à paisana atrás do tai-pan... discretamente, é claro.

— Providenciarei quanto ao banco antes de sair. Quanto a ele, já está sob vigilância discreta.

— Ah, já?

— Sim, senhor. Imaginei que ele manipularia a situação para ir de encontro aos seus propósitos. Ian é um sujeito muito ardiloso. Afinal, o tai-pan da Casa Nobre nunca é um tolo.

— Não. Saúde! — Tocaram as xícaras delicadamente, uma na outra. O ruído emitido era lindo. — Este tai-pan é o melhor dentre todos com quem já lidei.

— Ian mencionou se tinha relido todas as pastas recentemente, senhor? Ontem à noite, por exemplo?

— Não creio — disse Sir Geoffrey franzindo o cenho, relembrando a conversa deles, pela manhã. — Espere aí, ele falou... falou exatamente: "Quando li os relatórios de Alan pela primeira vez, achei que algumas das idéias dele eram exageradas demais. Mas agora... e agora que está morto, mudei de idéia..." Isso pode significar que ele as tenha relido recentemente. Por quê?

Crosse examinava contra a luz a xícara de porcelana delicadíssima.

— Sempre ouvi dizer que ele tem uma memória notável. Se as pastas na caixa-forte são intocáveis... bem, não gostaria que o KGB se sentisse tentado a seqüestrá-lo.

— Santo Deus, não acha que seriam burros a esse ponto, acha? O tai-pan?

— Depende da importância que dêem aos relatórios, senhor — falou Crosse, serenamente. — Talvez nossa vigilância deva ser relativamente ostensiva... isso os faria correr, caso estivessem com tal idéia. Quer explicar isso a ele, senhor?

— Mas, claro. — Sir Geoffrey tomou nota no seu bloquinho. — Boa idéia. É um caso sério. Será que os Lobisomens... será que existe algum elo entre as armas contrabandeadas e o seqüestro de John Chen?

— Não sei, senhor. Ainda. Já encarreguei Armstrong e Brian Kwok do caso. Se houver alguma ligação, eles. a encontrarão. — Ficou olhando a luz do pôr-do-sol que tocava na porcelana translúcida, azul-pálida, que parecia realçar o brilho dourado do xerez seco La Ina. — Interessante, o jogo de cores.

— É. São T'ang Ying... têm o nome do diretor da fábrica do imperador, em 1736. Na verdade, o imperador Ch'en Leung. — Sir Geoffrey ergueu os olhos para Crosse. — Um espião infiltrado na minha polícia, na minha secretaria colonial, no meu Departamento do Tesouro, na base naval, no Victoria, na companhia telefônica, e até mesmo na Casa Nobre. Poderiam paralisar-nos e criar a maior confusão entre nós e a RPC.

— Sim, senhor. — Crosse examinou a xícara. — Parece impossível que seja tão fina. Nunca vi uma xícara assim antes.

— Você é colecionador?

— Não, senhor. Infelizmente, não sei nada sobre elas.

— Essas são as minhas favoritas, Roger. Muito raras. Têm o nome de t'o t'ai: "sem corpo". São tão finas que os esmaltes, por dentro e por fora, parecem tocar-se.

— Quase me dá medo segurá-la.

— Ah, mas são bem fortes. Delicadas, é claro, mas fortes. Quem poderia ser Arthur?

Crosse soltou um suspiro.

— Não há pista alguma neste relatório. Nenhuma. Já o li cinqüenta vezes. Deve haver alguma nos outros, não importa o que Dunross ache.

— Possivelmente.

A xícara delicada parecia fascinar Crosse.

— A porcelana é uma argila, não é?

— É. Mas este tipo é feito de uma mistura de duas argilas, Roger: caulim (em homenagem à zona montanhosa de King-tehchen, onde é encontrada) e pan tun tse, os chamados bloquinhos brancos. Os chineses os chamam a carne e os ossos da porcelana. — Sir Geoffrey foi até junto da mesa de tampo de couro trabalhado que fazia as vezes de bar e trouxe de lá a garrafa de licor. Tinha uns vinte centímetros de altura, e era bastante translúcida, quase transparente. — O azul também é admirável. Quando o corpo está bem seco, sopra-se cobalto em pó sobre a porcelana com um pedaço de bambu. Na realidade, a cor é composta de milhares de pintinhas minúsculas individuais de azul. Depois, ela é vitrificada e levada ao forno... a cerca de mil e trezentos graus.

Ele a devolveu ao bar, o toque de artesanato e a visão da peça encantando-o.

— Notável.

— Sempre houve um decreto imperial proibindo a sua exportação. Nós, quai loh, tínhamos apenas direito a artigos feitos de hua shih, "pedra escorregadia", ou tun ni, "lama de tijolo". — Olhou de novo para a sua xícara, como um connaisseur. — O gênio que fez isto provavelmente ganhava cem dólares por ano.

— Talvez estivesse ganhando demais — disse Crosse, e os dois homens sorriram juntos.

— Talvez.

— Vou descobrir Arthur, senhor, e os outros. Pode contar com isso.

— Parece que tenho que contar, Roger. Tanto o ministro quanto eu estamos de acordo. Ele terá que informar ao primeiro-ministro, e aos chefes do estado-maior.

— Então a informação passará por toda espécie de mãos e línguas, e o inimigo sem dúvida descobrirá que estamos no seu rastro.

— É. Portanto, teremos que andar depressa. Comprei quatro dias de vantagem para você, Roger. O ministro não passará nada adiante durante esse período.

— Comprou, senhor?

— É um modo de falar. Na vida, obtemos e damos vales... até mesmo no corpo diplomático.

— Sim, senhor. Obrigado.

— Nada ainda sobre Bartlett e a srta. Casey?

— Não, senhor. Rosemont e Langan solicitaram dossiês atualizados. Parece haver alguma ligação entre Bartlett e Banastasio... não temos ainda certeza do que é. Tanto ele quanto a srta. Tcholok estiveram em Moscou no mês passado.

— Ah! — Sir Geoffrey voltou a encher as xícaras. — O que fez com relação àquele pobre sujeito, o Voranski?

— Devolvi o corpo ao navio, senhor.

Crosse resumiu para ele o seu encontro com Rosemont e Langan, e a história das fotos.

— Mas que golpe de sorte! Nossos primos estão ficando muito sabidos — comentou o governador. — É melhor você achar os tais assassinos antes do KGB... ou da CIA, não?

— Tenho equipes agora cercando a casa. Tão logo apareçam, nós os agarraremos. Ficarão incomunicáveis, é claro. Mandei apertar a segurança ao redor do Ivânov. Ninguém mais vai escapar pelas malhas da rede, prometo. Ninguém.

— Ótimo. O comissário de polícia me disse que mandou o DIC ficar mais alerta, também. — Sir Geoffrey pensou por um momento. — Vou mandar um memorando ao secretário explicando por que você não obedeceu à l-4a. O pessoal americano da ligação em Londres vai ficar muito aborrecido, mas, sob tais circunstâncias, como poderia você obedecer?

— Se posso fazer uma sugestão, senhor, talvez fosse melhor pedir-lhe que não mencionasse que ainda não temos as pastas, senhor. Essa informação também poderia cair em mãos erradas. Deixemos isso de lado, enquanto pudermos.

— É, concordo. — O governador bebericou o seu xerez. — Há um bocado de sabedoria no laissez-faire, não é?

— Sim, senhor.

Sir Geoffrey lançou um olhar ao relógio de pulso.