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— Vou ligar para ele daqui a alguns minutos, para pegá-lo ainda antes do almoço. Bem. Mas há um problema que não posso deixar de lado: o Ivânov. Hoje de manhã soube pelo nosso intermediário não-oficial que Pequim encara a presença do tal navio aqui com a maior preocupação.

O porta-voz não-oficial da República Popular da China em Hong Kong, e o mais alto funcionário comunista, era, ao que constava, atualmente, um dos vice-presidentes da junta diretora do Banco da China, o banco central da China, pelo qual passava todo o câmbio exterior e todos os bilhões de dólares americanos ganhos com o suprimento de bens de consumo e de quase toda a comida e a água de Hong Kong. A Grã-Bretanha sempre afirmara, intransigentemente, que Hong Kong era solo britânico, uma colônia da coroa. Em toda a história de Hong Kong, desde 1841, a Grã-Bretanha jamais permitira que qualquer representante oficial da China residisse na colônia. Nenhum.

— Ele me atiçou ao máximo, com relação ao Ivânov — continuou Sir Geoffrey —, e fez questão de registrar o extremo desprazer de Pequim ao saber que um navio espião soviético estava aqui. Chegou a sugerir que eu talvez achasse de bom alvitre expulsá-lo... "Afinal de contas", disse, "soubemos que um dos espiões do KGB soviético, fazendo-se passar por marinheiro, chegou a ser morto em nosso solo." Agradeci-lhe pelo seu interesse e disse que falaria com meus superiores... na devida hora. — Sir Geoffrey bebericou um pouco de xerez. — O curioso é que não pareceu irritado com a presença do porta-aviões nuclear aqui.

— Que estranho! — Crosse ficou igualmente surpreso.

— Será que isso indica outra alteração na política... uma mudança distinta e significativa de política externa, um desejo de paz com os Estados Unidos? Não posso crer nisso. Tudo indica um ódio patológico aos Estados Unidos. Se transpirasse a existência da Sevrin, que estão infiltrados aqui... Deus todo-poderoso, eles teriam convulsões, e com toda a razão! — falou o governador com um suspiro e tornando a encher as xícaras.

— Encontraremos os traidores, senhor, não se preocupe. Nós os encontraremos!

— Será? É o que me pergunto. — Sir Geoffrey sentou-se no banco embutido sob a janela e fitou os gramados bem-trata-dos, o jardim inglês, arbustos, canteiros de flores cercados pelo muro alto e branco, o belo pôr-do-sol. Sua mulher estava cortando flores, caminhando por entre os canteiros nos fundos do jardim, seguida por um jardineiro chinês de cara amarrada. Sir Geoffrey observou-a por um momento. Estavam casados há trinta anos, tinham três filhos, todos casados, e viviam satisfeitos e em paz, mutuamente. — Sempre traidores — falou, tristemente. — Os soviéticos são mestres no emprego deles. É tão fácil para os traidores causarem uma agitação, espalharem um pouco de veneno aqui e ali, tão fácil deixar a China perturbada, a pobre China, que já é xenófoba, de qualquer modo! Ah, como é fácil balançar o nosso coreto aqui! O pior de tudo, quem é o seu espião? O espião da polícia? Tem que ser um inspetor-chefe, no mínimo, para ter acesso a essa informação.

— Não tenho idéia. Se tivesse, ele já estaria neutralizado há muito tempo.

— O que vai fazer sobre o general Jen e os seus agentes secretos nacionalistas?

— Vou deixá-los em paz... há meses que estão na nossa mira. É muito melhor deixar os agentes inimigos conhecidos onde estão do que ter de descobrir seus substitutos.

— Concordo... eles certamente seriam todos substituídos. Os deles, os nossos. Triste, muito triste! Nós o fazemos, eles o fazem. Tão triste e tão estúpido... este mundo é um paraíso, poderia ser um paraíso.

Uma abelha entrou zumbindo pelos janelões, depois voltou voando para o jardim, quando Sir Geoffrey afastou as cortinas.

— O ministro me pediu que eu me certificasse de que nossos deputados visitantes (a delegação comercial que foi à China, e que volta amanhã) tivessem a mais completa segurança, embora totalmente discreta.

— Sim, senhor. Compreendo.

— Parece que um ou dois deles poderão ser futuros ministros do governo, se o Partido Trabalhista for eleito. Seria bom para a colônia dar-lhes uma excelente impressão.

— Acha que terão uma chance na próxima vez? Quero dizer, o Partido Trabalhista?

— Não dou respostas a esse tipo de perguntas, Roger. — A voz do governador era seca, desaprovadora. — Não me interessa a política partidária... represento Sua Majestade, a rainha... mas, pessoalmente, gostaria muito que alguns dos seus extremistas fossem embora e nos deixassem viver a nossa vida, pois está claro que grande parte da sua filosofia socialista de esquerda é estranha ao modo de vida inglês. — Sir Geoffrey falou mais duramente. — É bastante óbvio que alguns deles ajudam o inimigo, de bom grado... ou como inocentes úteis. Já que estamos falando no assunto, algum dos nossos convidados é um risco para a segurança?

— Depende do que quer dizer com isso, senhor. Dois apoiam os sindicalistas de extrema esquerda, Robin Grey e Lochlin Donald McLean. McLean se vangloria abertamente da sua filiação ao Partido Comunista Britânico. Figura bem no alto da nossa lista de riscos para a segurança, lista S. Todos os outros socialistas são moderados. Os membros do Partido Conservador são moderados, da classe média, todos ex-militares. Um deles é um tanto imperialista, Hugh Guthrie, o representante do Partido Liberal.

— E os da extrema esquerda? São ex-militares?

— McLean era mineiro, pelo menos o pai era. Passou a maior parte da sua vida comunista como representante dos empregados e sindicalistas nas minas de carvão da Escócia. Robin Grey pertenceu ao exército, foi capitão da infantaria.

Sir Geoffrey ergueu os olhos.

— Não se costuma considerar ex-capitães como sindicalistas radicais, não é?

— Não, senhor. — Crosse tomou um gole do xerez, apreciando-o, saboreando ainda mais a informação que possuía. — Nem como aparentados com um tai-pan.

— Como?

— A irmã de Robin Grey é Penelope Dunross.

— Santo Deus! — Sir Geoffrey fitou-o, atônito. — Tem certeza?

— Tenho sim, senhor.

— Mas por que... por que motivo Ian não mencionou tal fato?

— Não sei, senhor. Quem sabe sinta vergonha dele. O Sr. Grey é o oposto absoluto da sra. Dunross.

— Mas... meu Deus do céu, tem certeza?

— Sim, senhor. Na verdade, foi Brian Kwok que percebeu a ligação. Por puro acaso. Os deputados tinham que dar as informações pessoais de praxe à RPC para obterem seus vistos, data do nascimento, parentes mais próximos, etc. Brian estava fazendo uma verificação de rotina para se certificar de que todos os vistos estavam em ordem, para evitar qualquer problema na fronteira. Ele notou, por acaso, que o Sr. Grey colocara como parente mais próximo "irmã, Penelope Grey", dando como endereço o Castelo Avisyard, em Ayr. Brian lembrou-se de que aquele era o endereço da casa da família Dunross. — Crosse tirou do bolso a cigarreira de prata. — Importa-se se eu fumar, senhor?

— Não, por favor, à vontade.

— Obrigado. Isso faz cerca de um mês. Achei que era importante o bastante para pesquisar a informação. Levou relativamente pouco tempo para estabelecermos que a sra. Dunross era realmente sua irmã e parente mais próxima. Segundo sabemos agora, a sra. Dunross brigou com o irmão logo após a guerra. O capitão Grey foi prisioneiro de guerra em Changi, preso em Cingapura em 1942. Voltou para casa no final de 1945... a propósito, os pais de ambos foram mortos na Blitz de Londres, em 1943. A essa altura, ela já estava casada com Dunross... haviam se casado em 43, senhor, pouco depois de ele ter sido abatido. Ela trabalhava no Corpo Auxiliar Feminino da Força Aérea. Sabemos que os dois irmãos se encontraram quando Grey foi solto. Ao que nos consta, jamais se encontraram novamente. Claro que não é da nossa conta, mas a briga deve ter sido...

Crosse interrompeu-se ao ouvir uma batida discreta. Sir Geoffrey respondeu, com certa irritação: