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— O que é?

A porta se abriu.

— Com licença, senhor — disse seu assessor, cortesmente. — Lady Allison pediu-me que o avisasse de que a água acaba de ser ligada.

— Ah, que maravilha! Obrigado. — A porta se fechou.

Crosse levantou-se imediatamente, mas o governador fez-lhe sinal para que voltasse a se sentar. — Não, por favor, Roger, termine. Alguns minutos não vão fazer diferença, embora deva confessar que mal posso esperar. Gostaria de tomar uma chuveirada antes de partir?

— Obrigado, senhor, mas temos as nossas caixas-d'água no QG da polícia.

— Ah, é, tinha esquecido. Continue... você falava da briga?

— A briga deve ter sido bem séria, porque parece que foi definitiva. Um amigo íntimo de Grey contou ao nosso pessoal, faz alguns dias, que, ao que lhe constava, Robin Grey não tinha parentes vivos. Devem realmente se odiar.

Sir Geoffrey fitou a sua xícara, sem vê-la. De repente estava se lembrando da própria infância desgraçada, e de como odiara o pai. Odiara-o tanto que durante trinta anos jamais lhe telefonara, ou lhe escrevera, e, quando ele estava morrendo, no ano anterior, não se dera ao trabalho de ir procurá-lo, de fazer as pazes com o homem que lhe dera a vida.

— As pessoas são terríveis umas com as outras — resmungou, tristemente. — Eu sei. É. As brigas de família são fáceis demais. E depois, quando é tarde demais, a gente as lamenta, é, lamenta de verdade. As pessoas são terríveis umas com as outras...

Crosse observava e esperava, deixando-o divagar, deixando-o revelar-se, tomando cuidado para não fazer o menor movimento para distraí-lo, querendo conhecer os segredos do outro, as coisas vergonhosas que porventura ocultasse. Como Alan Medford Grant, Crosse colecionava segredos. "Maldito seja aquele filho da mãe e suas pastas amaldiçoadas! Maldito seja Dunross e sua astúcia diabólica! Como, em nome de Deus, posso pegar aquelas pastas antes de Sinders?"

Sir Geoffrey fitava o vazio. A seguir, a água borbulhou gostosamente nos canos das paredes, e ele voltou ao presente. Viu que Crosse o observava.

— Humm, pensando em voz alta! Mau hábito para um governador, não é?

Crosse sorriu, mas não caiu na armadilha.

— Senhor?

— Bem. Como você falou, não é mesmo da nossa conta. — O governador terminou seu drinque com ar decidido, e Crosse compreendeu que fora dispensado. Levantou-se.

— Obrigado, senhor.

Quando ficou a sós, o governador soltou um suspiro. Pensou por um momento, depois apanhou o telefone especial e deu à telefonista o número particular do ministro, em Londres.

— Aqui fala Geoffrey Allison. Ele está, por favor?

— Alô, Geoffrey!

— Alô, senhor. Acabo de estar com Roger, que me assegurou que o esconderijo e Dunross serão estreitamente vigiados. O Sr. Sinders está a caminho?

— Estará aí na sexta-feira. Presumo que não houve repercussões do acidente infeliz com aquele marinheiro...

— Não, senhor. Tudo parece estar sob controle.

— O primeiro-ministro ficou muito preocupado.

— Sim, senhor. — E acrescentou: — Quanto à l-4a... quem sabe não deveríamos contar nada aos nossos amigos, ainda.

— Já tive notícias deles. Estavam tremendamente irritados. Nosso pessoal também estava. Está certo, Geoffrey. Felizmente, esse fim de semana é mais longo, portanto eu os informarei na segunda-feira, e prepararei então a reprimenda dele.

— Obrigado, senhor.

— Geoffrey, esse senador americano que está com vocês, no momento... Acho que devia ser orientado.

O governador franziu o cenho. "Orientado" era uma palavra-código entre eles, e queria dizer "vigiado muito cuidadosamente". O senador Wilf Tillman, que ambicionava ser presidente, estava de visita a Hong Kong, a caminho de Saigon, para uma missão muito divulgada de verificação de fatos.

— Vou cuidar do assunto logo que desligar. Alguma coisa mais, senhor? — perguntou, impaciente agora para tomar banho.

— Não, basta me dar um minutinho do seu tempo para me contar qual foi o programa do senador. — "Programa" era outra palavra-código, que queria dizer "fornecer à secretaria colonial informações detalhadas". — Quando tiver tempo.

— Estará na sua mesa na sexta-feira.

— Obrigado, Geoffrey. Conversaremos amanhã, na hora de costume.

O aparelho emudeceu.

O governador recolocou o fone no gancho, pensativo. A conversa deles sofrerá interferências eletrônicas, e as interferências haviam sido eliminadas, em ambos os lados. Mesmo assim, estavam protegidos. Sabiam que o inimigo tinha o equipamento de escuta secreta mais avançado e sofisticado do mundo. Para qualquer conversa ou reunião realmente sigilosa, ele se dirigia ao quarto de concreto tipo cela, no porão, permanentemente vigiado, e que era reexaminado meticulosamente por peritos em segurança semanalmente, contra possíveis aparelhos de escuta eletrônicos.

"Mas que merda", pensou Sir Geoffrey. "Uma merda duma amolação, toda essa história de capa-e-espada! Roger? Inconcebível. Mas também era inconcebível que Philby..."

25

18h20m

O comandante Grigóri Suslev acenou atrevidamente para a polícia que guardava os portões do arsenal em Kowloon, seus dois detetives à paisana seguindo-o a uns cinqüenta metros de distância. Vestia trajes civis bem-cortados, e ficou parado junto ao meio-fio por um momento, observando o tráfego, depois fez sinal para um táxi que passava. O táxi arrancou, e um pequeno Jaguar cinzento, com o sargento Lee e ao volante outro homem do DIC, à paisana, saiu em seu encalço.

O táxi seguiu a Chatham Road no trânsito pesado de costume, dirigindo-se para o sul, acompanhando a linha da estrada de ferro, depois virou para o leste na Salisbury Road, na ponta mais meridional de Kowloon, passando a estação final da estrada de ferro, perto do Terminal da Balsa Dourada. Parou aí. Suslev pagou o táxi e subiu correndo os degraus do Victoria and Albert Hotel. O sargento Lee seguiu-o, enquanto o outro detetive estacionava o Jaguar da polícia.

Suslev caminhava com passadas descontraídas, e ficou parado por um momento no saguão imenso e lotado, com seu teto alto, lindo e enfeitado, e ventiladores elétricos antiquados girando lá em cima, e procurou uma mesa vazia entre inúmeras delas. A sala inteira vibrava com o tinir do gelo nos copos de bebida e as conversas. Na maioria, europeus. Uns poucos casais chineses. Suslev caminhou por entre o povo, achou uma mesa, pediu em voz alta uma vodca dupla, sentou-se e começou a ler o jornal. E então, a garota apareceu junto dele.

— Alô — disse ela.

— Ginny, doragaya! — exclamou, com um amplo sorriso, e abraçou-a, levantando seus pezinhos do chão, ante a desaprovação chocada de todas as mulheres presentes e a inveja disfarçada de todos os homens. — Há quanto tempo, golubchik.

— Ayeeyah — disse ela, sacudindo a cabeça, o cabelo curto se movendo, e sentou-se, consciente dos olhares fixos, saboreando-os, detestando-os. — Você atrasado. Por que me deixa esperar? Uma senhora não gosta esperar sozinha no Victoria, heya?

— Tem razão, golubchik! — Suslev tirou do bolso um pacote fino e entregou-o à moça, com outro amplo sorriso. — Tome, veio de Vladivostok!

— Oh! Como agradecer você? — Ginny Fu tinha vinte e oito anos de idade, e na maioria das noites trabalhava no Bar Bebedores Felizes, num beco perto de Mong Kok, a uns oitocentos metros para o norte. Algumas noites, ia ao Salão de Baile Boa Sorte. Na maioria dos dias, substituía as amigas atrás dos balcões de lojinhas dentro de lojas, quando estavam com algum cliente. Dentes brancos, cabelos negros, olhos negros e pele dourada, o cheong-sam espalhafatoso aberto até o alto das coxas longas e cobertas com meias. Olhou toda animada para o presente. — Oh, obrigada, Grigóri, muito obrigada!

Pôs o presente na bolsa grande e sorriu para ele. A seguir, seus olhos depararam com o garçom que vinha trazendo a vodca de Suslev, ostentando o claro desprezo reservado por todos os chineses a todas as jovens chinesas que se sentavam com quai loh. Era óbvio que deviam ser meretrizes de terceira classe... quem mais se sentaria com um quai loh num local público, especialmente no saguão do Vic? Ele largou o drinque sobre a mesa com insolência estudada, e fitou a moça.