"Deus proteja Adryon, Glenna, Duncan e Penn", pensou. "E Kathy e todos os outros. E eu... até que a Casa Nobre seja inviolável." Deu uma olhada no relógio. Eram exatamente dezoito e trinta. Pegou um dos telefones do hotel.
— Sr. Bartlett, por favor.
Um momento depois, ouviu a voz de Casey.
— Alô?
— Ah, alô, Ciranoush — disse Dunross. — Quer dizer a ele que estou no saguão?
— Oh, alô, claro! Não quer subir? Estamos...
— Por que não desce? Pensei que, se você não estivesse muito ocupada, poderia ir comigo ao meu próximo compromisso... poderia ser interessante para você. Poderíamos comer depois, se você estiver livre.
— Eu adoraria. Deixe-me verificar se posso.
Ouviu-a repetir o que acabara de dizer, e ficou pensando seriamente na aposta que fizera com Claudia. "É impossível que esses dois não sejam amantes", pensou, "ou não tenham sido amantes, vivendo assim tão juntos. Não seria natural!"
— Desceremos já, tai-pan!
Notou o sorriso na voz dela, enquanto desligava.
O primeiro maitre estava a rondá-lo agora, esperando pela rara honraria de sentar o tai-pan. Fora chamado pelo segundo maitre no momento em que se soubera que Dunross vinha se aproximando da porta de entrada. Chamava-se Pok Tarde, era grisalho, majestoso, e governava seu turno com um chicote de bambu.
— Ah, Honrado Senhor, mas que prazer! — falou o velho em cantonense, com uma curvatura respeitosa. — Já comeu arroz hoje?
Esse era o modo polido de dizer-se "bom dia", ou "boa noite" ou "como está?", em chinês.
— Já, obrigado, Irmão Mais Velho — replicou Dunross. Conhecera Pok Tarde quase toda a sua vida. Até onde alcançava a sua lembrança, Pok Tarde fora o garçom-chefe do saguão do meio-dia às seis, e, muitas vezes, quando Dunross era jovem, e o mandavam ao hotel para cumprir alguma incumbência, dolorido por causa de uma surra ou uns cascudos, o velho fazia-o sentar-se numa mesinha de canto, dava-lhe um docinho, batia-lhe carinhosamente na cabeça, e nunca lhe cobrava nada. — Está com uma aparência de prosperidade!
— Obrigado, tai-pan. Ah, também está com uma cara muito saudável! Mas ainda tem um filho só! Não acha que está na hora de a sua ilustre Mulher Principal arrumar-lhe uma segunda mulher?
Sorriram juntos.
— Por favor, siga-me — disse o velho, com ar importante, e foi mostrando o caminho até a mesa especial que aparecera miraculosamente num lugar espaçoso e preferencial, conseguido por quatro garçons cheios de energia que haviam espremido para os lados outros convidados e mesas. Agora estavam em pé, sorridentes, quase em posição de sentido.
— O de costume, senhor? — indagou o garçom de vinhos. — Tenho uma garrafa do 52.
— Perfeito — falou Dunross, sabendo que ela seria do La Doucette de que tanto gostava. Teria preferido tomar chá, mas era necessário prestigiar o outro, aceitando o vinho. A garrafa já estava lá, num balde de gelo. — Estou esperando o Sr. Bartlett e a srta. Tcholok.
Um outro garçom foi imediatamente esperá-los na porta do elevador.
— Se precisar de alguma coisa, por favor, chame-me. Pok Tarde curvou-se e afastou-se, cada garçom do saguão nervosamente cônscio da sua presença. Dunross sentou-se e notou Peter e Fleur Marlowe tentando controlar duas lindas garotinhas agitadas de quatro e oito anos, e soltou um suspiro, agradecendo a Deus porque suas filhas tinham passado daquela idade. Enquanto bebia o vinho, gostosamente, viu o velho Willie Tusk olhar para o lado dele e acenar. Acenou em resposta. Quando era garoto, costumava vir de Hong Kong três ou quatro vezes por semana, com pedidos comerciais para Tusk do velho Sir Ross Struan, pai de Alastair... ou, mais freqüentemente, pedidos do seu próprio pai, que, durante anos, dirigira os negócios exteriores da Casa Nobre. Ocasionalmente, Tusk servia à Casa Nobre nas áreas em que era perito — qualquer coisa que consistisse em tirar qualquer coisa da Tailândia, Birmânia ou Malásia e a enviá-la para qualquer lugar, com só um pouquinho de h'eung yau e seus honorários comerciais normais de sete e meio por cento.
— Para que é o meio por cento, Tio Tusk? — lembrava-se de ter perguntado certo dia, olhando para cima para o homem que agora sobrepujava tanto em altura.
— É o que eu chamo de dinheiro das bonecas, jovem Ian.
— O que é dinheiro das bonecas?
— É um dinheirinho extra para você gastar com as bonequinhas, as moças que você preferir.
— Mas por que você dá dinheiro para as moças?
— Essa é uma longa história, meu rapaz.
Dunross sorriu consigo mesmo. É, era uma história muito longa. Nessa parte da sua educação tivera diversas professoras, algumas boas, algumas ótimas, e algumas ruins. O velho Chen-chen providenciara para ele sua primeira amante, quando tinha catorze anos.
— Ah, está falando a sério, Tio Chen-chen?
— É, mas não deve contar a ninguém, senão seu pai vai arrancar minhas tripas! Ah... — continuara o maravilhoso velhinho — seu pai devia ter providenciado isso, ou pedido que eu providenciasse, mas não faz mal. Agora, o que...
— Mas quando é que eu, quando é... oh, tem certeza? Quero dizer, como, quanto eu pago, e quando, Tio Chen-chen? Quando? Quero dizer, antes ou... ou depois, ou quando? É isso o que não sei.
— Não sabe muita coisa! Ainda não sabe quando falar e quando ficar calado! Como posso instruí-lo se fica falando? Tenho o dia todo?
— Não, senhor.
— Eeee — dissera o velho Chen-chen, com aquele seu imenso sorriso. — Eeee, mas que sorte você tem! Sua primeira vez num Lindo Vale Estreito! Será a primeira vez, não é? Diga a verdade!
— Bem... é... bem, é... é, sim.
— Ótimo!
Passaram-se muitos anos antes que Dunross descobrisse que algumas das mais famosas casas de Hong Kong e Macau haviam feito lances, secretamente, para obterem o privilégio de servir pela "primeira vez" um futuro tai-pan e o tataraneto do Demônio de Olhos Verdes em pessoa. Além do prestígio que a casa ganharia por gerações, por ter sido a escolhida pelo representante nativo da Casa Nobre, seria também uma sorte imensa para a mulher escolhida. A Essência da Primeira Vez até da mais ínfima personagem era um elixir de valor maravilhoso... assim como, na tradição chinesa, para o homem idoso, os sumos do yin da virgem eram igualmente valorizados e procurados, para rejuvenescer o yang.
— Santo Deus, Tio Chen-chen! — explodira ele. — É verdade? Você realmente me vendeu? Está querendo me dizer que me vendeu para um maldito bordel? A mim?
— É claro. — O velho erguera os olhos para ele, e dera muitas risadinhas abafadas, agora preso ao leito na grande casa dos Chens no cume do Mirante de Struan, quase cego e próximo da morte, mas docemente tranqüilo e satisfeito. — Quem lhe contou? Quem, hem? Hem, jovem Ian?
Fora Tusk, um viúvo, grande freqüentador dos cabarés, bares e bordéis de Kowloon, que soubera da história, agora uma lenda, contada por uma das "damas", que ouvira falar sobre o costume na Casa Nobre de que o representante nativo tinha de providenciar a "primeira vez" dos descendentes do Demônio Struan de Olhos Verdes.
— É, meu velho — contara-lhe Tusk. — Dirk Struan disse a Sir Gordon Chen, o pai do velho Chen-chen, que poria o seu Mau-Olhado na Casa de Chen, se eles não escolhessem corretamente.
— Pombas — exclamara Dunross para Tusk, que continuara, constrangido, dizendo que só estava passando adiante uma lenda que agora fazia parte do folclore de Hong Kong. "Pombas, Ian, amigão, verdade ou não, sua primeira trepada valeu mil HK para aquele velho safado!"
— Acho que isso foi uma coisa horrorosa, Tio Chen-chen!
— Mas, por quê? Foi um leilão muito lucrativo. Não lhe custou nada, mas deu-lhe muito prazer. Não me custou nada, mas lucrei vinte mil HK. A casa da garota ficou prestigiadíssima, e ela também. Não lhe custou nada, mas deu-lhe anos de uma imensa clientela, que queria partilhar do que havia de especial na sua Escolha Número Um!