O único nome pelo qual ele a conhecera fora Jade Elegante. Tinha vinte e dois anos e muita prática, uma profissional desde que fora vendida ao bordel pelos pais, com a idade de doze anos. Seu bordel chamava-se Casa dos Mil Prazeres. Jade Elegante era meiga e doce... quando queria, e um verdadeiro dragão, quando queria. Ele se apaixonara loucamente por ela, e o caso deles durara dois verões, as férias do colégio interno na Inglaterra, que era o tempo do contrato feito por Chen-chen. No minuto em que voltara no primeiro dia do terceiro verão, correra para a casa, mas ela havia sumido.
Dunross nunca se esqueceu de como ficara desesperado, de como tentara encontrá-la. Mas a garota sumira sem deixar vestígio.
— O que aconteceu com ela, Tio Chen-chen? O que aconteceu de verdade?
O velho soltou um suspiro, recostado na imensa cama, agora cansado.
— Estava na hora de ela partir. É sempre fácil demais para um jovem dedicar a uma moça tempo demais, pensamentos demais. Estava na hora de ela partir... depois dela, você poderia escolher por si mesmo, e precisava concentrar-se na Casa, e não nela... Ah, não tente disfarçar o seu desejo, eu compreendo. Como compreendo! Não se preocupe, meu filho, ela foi bem paga, e você não teve filhos com ela...
— Onde está ela, agora?
— Foi para Formosa. Certifiquei-me de que tinha dinheiro bastante para começar sua própria casa. Ela disse que era o que queria fazer e... e fazia parte do meu arranjo livrá-la do seu contrato. Isso me custou acho que cinco... ou talvez dez mil... não estou lembrado... Por favor, dê-me licença agora, estou cansado. Preciso dormir um pouco. Por favor, volte amanhã, meu filho...
Dunross bebericava o seu vinho, recordando. Aquela fora a única vez que o velho Chen-chen o chamara de "meu filho", pensou. "Que magnífico velho, aquele! Se eu pudesse ser igualmente sábio, bondoso e sábio, e digno dele!"
Chen-chen morrera uma semana mais tarde. Seu enterro fora o maior que Hong Kong já vira, com mil carpideiras profissionais e tambores acompanhando o caixão até a sepultura. As mulheres vestidas de branco haviam sido pagas para acompanhar o caixão, lamentando-se em altos brados, suplicando aos deuses que facilitassem o caminho do espírito desse grande homem para o Vácuo, o renascimento ou seja lá o que acontece ao espírito dos mortos. Chen-chen era um cristão, portanto, teve dois serviços religiosos, por medida de precaução, um cristão e o outro budista...
— Alô, tai-pan!
Casey apareceu, com Linc Bartlett ao lado. Ambos sorriam, embora estivessem com uma aparência um pouco cansada.
Ele os cumprimentou, e Casey pediu um uísque com soda. Linc, uma cerveja.
— Que tal foi o seu dia? — perguntou Casey.
— Cheio de altos e baixos — respondeu, depois de uma pausa. — E o seu?
— Atarefado, mas estamos chegando lá — disse ela. — Seu advogado, Dawson, cancelou nosso encontro de hoje de manhã... e marcou outro para amanhã ao meio-dia. O resto do dia passei ao telefone e ao telex para os Estados Unidos, organizando as coisas. O serviço é bom, este é um grande hotel. Estamos prontos para completar o nosso lado do acordo.
— Ótimo. Acho que comparecerei à reunião com Dawson — disse Dunross. — Isso apressará as coisas. Direi a ele que venha aos nossos escritórios. Mandarei um barco buscá-los às onze e dez.
— Não há necessidade, tai-pan. Já sei usar as barcas — disse ela. — Andei daqui para lá durante a tarde. Os melhores cinco cents americanos que já gastei. Como conseguem manter os preços tão baixos?
— Transportamos quarenta e sete milhões de passageiros no ano passado. — Dunross olhou para Bartlett. — Vai comparecer à reunião amanhã?
— Só se você precisar de mim para alguma coisa especial — replicou, serenamente. — Casey cuida da parte legal, inicialmente. Sabe o que queremos, e além disso Seymour Steigler III chega no vôo da Pan Am de quinta-feira... é nosso principal advogado, e encarregado da parte dos impostos. Manterá tudo funcionando suavemente com seus advogados, para que possamos fechar em sete dias, facilmente.
— Excelente.
Um garçom obsequioso e sorridente trouxe as bebidas e voltou a encher o copo de Dunross. Quando estavam novamente a sós, Casey disse, serenamente:
— Tai-pan, e quanto aos seus navios? Você os quer num contrato em separado? Se os advogados o redigirem, não será particular. Como o manteremos particular?
— Eu redigirei o documento e porei nele o nosso carimbo. Isso o tornará legal e obrigatório. Assim, o contrato fica sendo um segredo entre nós três, certo?
— Como assim, um carimbo, Ian? — indagou Bartlett.
— É o equivalente a um selo. — Dunross tirou do bolso um recipiente fino e alongado de bambu, com cerca de cinco centímetros de comprimento e um centímetro e pouco de espessura, e puxou para trás a tampa justa. Tirou o carimbo, que se encaixava no recipiente forrado de seda escarlate, e mostrou-o a eles. Era feito de marfim. Havia alguns caracteres chineses entalhados em relevo na base. — Este é o meu carimbo particular... é entalhado à mão, e portanto é quase impossível falsificá-lo. Enfia-se esta extremidade na tinta... — A tinta era vermelha e quase sólida, e ficava num compartimento numa das extremidades da caixa. —...e imprime-se no papel. É muito freqüente em Hong Kong a pessoa não assinar papéis, apenas carimbá-los. A maioria deles não é legal sem um carimbo. O selo da companhia é igual a este, só que um pouquinho maior.
— O que significam os caracteres? — perguntou Casey.
— São um trocadilho com o meu nome, e o do meu ancestral. Literalmente, querem dizer "Ilustre, afiado como uma navalha, através dos nobres mares verdes". O trocadilho é sobre o Demônio de Olhos Verdes, como Dirk era chamado, a Casa Nobre e um punhal ou faca¹. — Dunross sorriu e guardou o carimbo. — Tem outros significados... o aparente é "tai-pan da Casa Nobre". Em chinês... — Olhou à sua volta ao ouvir o ruído de uma campainha de bicicleta. O jovem empregado do hotel andava pelo meio do povo com uma pequena lousa no alto de uma vara, onde se via rabiscado o nome da pessoa a quem se procurava. Não eram eles os procurados, por isso ele continuou: — Com a escrita chinesa há sempre vários níveis de significado. É o que a torna complexa e interessante.
¹ "Dirk" quer dizer "punhal", em inglês. (N. da T.)
Casey se abanava com um cardápio. Fazia calor no salão, embora os ventiladores no teto proporcionassem uma leve brisa. Ela pegou um lenço de papel e apertou-o junto ao nariz.
— É sempre tão úmido assim? — perguntou. Dunross sorriu.
— Hoje está relativamente seco. Às vezes faz trinta e dois graus e noventa e cinco por cento de umidade durante semanas a fio. O outono e a primavera são as melhores épocas aqui. Julho, agosto e setembro são quentes e úmidos. Na verdade, estão prevendo chuva, Podemos até ter um tufão. Ouvi no rádio que há uma depressão tropical se formando a sudeste. É. Se tivermos sorte, vai chover. Ainda não há racionamento de água aqui no Victoria, não é?
— Não — disse Bartlett —, mas depois de ver os baldes na sua casa ontem à noite, acho que nunca mais farei pouco-caso da água.
— Nem eu — falou Casey. — Deve ser duríssimo.
— Ah, a gente se acostuma. A propósito, minha sugestão quanto ao documento é satisfatória? — perguntou Dunross a Bartlett, querendo resolver logo aquilo, e irritado consigo mesmo porque fora forçado a perguntar. Ficou sombriamente divertido ao notar que Bartlett hesitara uma fração de segundo e lançara um olhar imperceptível para Casey antes de responder:
— Claro. Ian — continuou Bartlett —, Forrester, o chefe da nossa divisão de espuma, vem no mesmo vôo. Achei que era melhor começarmos logo a função. Não há motivo para esperar até termos os papéis, há?
— Não. — Dunross pensou por um momento e resolveu testar sua teoria. — Ele é mesmo perito?