— Um perito. Casey acrescentou:
— Charlie Forrester conhece tudo o que é preciso saber sobre espuma de poliuretano: fabricação, distribuição e vendas.
— Ótimo. — Dunross virou-se para Bartlett e disse, inocentemente: — Gostaria de levá-lo a Taipé? — Viu um lampejo perpassar pelos olhos do americano e soube que estava certo. "Vire-se, seu filho da mãe, ainda não contou a ela! Não me esqueci do aperto que você me fez passar na noite passada, com sua informação secreta. Saia dessa sem perder a moral!" — Enquanto estivermos jogando golfe, ou lá o que for, entregarei
Forrester aos meus peritos... ele poderá examinar as possíveis localizações e botar a bola em jogo.
— Boa idéia — disse Bartlett, sem demonstrar embaraço, e subiu mais na opinião de Dunross.
— Taipé? Taipé, em Formosa? — perguntou Casey, animadamente. — Vamos a Taipé? Quando?
— No domingo à tarde — falou Bartlett, a voz calma. — Vamos passar lá dois dias, Ian e...
— Perfeito, Linc — replicou ela, com um sorriso. — Enquanto você joga golfe, posso examinar as coisas com Charlie. Deixe-me jogar na próxima vez. Qual é o seu handicap, tai-pan?
— Dez — respondeu Dunross —, e já que Linc Bartlett sabe, estou certo de que você também sabe.
Ela riu.
— Tinha me esquecido deste dado significativo. O meu é 14, num dia muito bom.
— Com uma diferençazinha de uma ou duas tacadas?
— Claro. As mulheres roubam no golfe tanto quanto os homens.
— É?
— É, mas ao contrário dos homens, roubam para baixar o seu handicap. Um handicap é um símbolo de status, certo? Quanto mais baixa a contagem, maior o status! As mulheres geralmente não apostam mais do que uns poucos dólares, portanto um handicap baixo não é vital, salvo para o prestígio. Mas os homens? Já os vi lançarem uma bola deliberadamente na parte não tratada da pista para ganhar duas tacadas extras, se estivessem numa rodada crucial que baixaria o seu handicap um ponto. Claro que só se estivessem jogando essa determinada rodada a dinheiro. Quanto vocês apostam?
— Quinhentos HK. Casey assobiou.
— Por buraco?
— Pombas, não — retrucou Bartlett. — Pelo jogo.
— Mesmo assim, acho melhor ficar só olhando. Dunross perguntou:
— O que isso quer dizer?
— Observar. Se eu não tomar cuidado, Linc vai pôr em perigo a minha parte da Par-Con.
O sorriso dela aqueceu a ambos, e depois, como Dunross havia deixado Bartlett cair deliberadamente na armadilha, resolveu tirá-lo de lá.
— É uma boa idéia, Casey — falou, observando-a com cuidado. — Mas, pensando bem, talvez fosse melhor para você e Forrester examinarem Hong Kong antes de Taipé... aqui será o nosso maior mercado. E seu advogado vai chegar na quinta-feira. Você decerto vai querer passar algum tempo aqui com ele. — Olhou diretamente para Bartlett, o retrato da inocência. — Se quiser cancelar a viagem, tudo bem. Haverá tempo de sobra para você ir a Taipé. Mas eu preciso ir.
— Não — disse Bartlett. — Casey, você fica por aqui. Seymour vai precisar de toda a ajuda que lhe puder dar. Farei uma viagem preliminar dessa vez, e depois poderemos ir juntos.
Ela tomou um gole da bebida, e manteve a fisionomia serena. "Quer dizer que não fui convidada, não é?", pensou, com um lampejo de irritação.
— Quer dizer que vão no domingo?
— É — disse Dunross, certo de que sua classe havia funcionado, sem notar nenhuma mudança nela. — No domingo à tarde. Vou subir montanhas de manhã, portanto é o mais cedo que posso partir.
— Subir montanhas? Alpinismo, tai-pan?
— Ah, não. Só de carro... nos Novos Territórios. São ambos bem-vindos, se estiverem interessados. — Acrescentou para Bartlett: — Podíamos ir direto para o aeroporto. Se puder liberar seu avião, eu o farei. Vou perguntar amanhã.
— Linc — comentou Casey —, e quanto a Armstrong e à polícia? Você está detido aqui.
— Já cuidei disso hoje — disse Dunross. — Ele está sob liberdade condicional, aos meus cuidados.
Ela riu.
— Fantástico! Não vá escapulir!
— Pode deixar.
— Vão no domingo, tai-pan? E voltam quando?
— Terça-feira, a tempo de jantar.
— É na terça que assinamos?
— É.
— Linc, não é um pouco apertado?
— Não, estarei sempre em contato com você. O negócio está feito. Só falta botá-lo no papel.
— Você é quem manda, Linc. Tudo estará pronto para ser assinado quando vocês dois voltarem. Tai-pan, devo falar com Andrew se houver algum problema?
— Sim, ou com Jacques. — Dunross lançou um olhar para a mesa deles, no canto. Agora estava ocupada por outras pessoas. "Não se preocupe", disse consigo mesmo. "Tudo o que podia ser feito foi feito." — As comunicações telefônicas com Taipé são boas, portanto não há com que se preocupar. Bem, estão livres para o jantar?
— Sem dúvida — disse Bartlett.
— Que tipo de comida vão querer?
— Que tal chinesa?
— Desculpe, mas vocês têm que ser mais específicos — falou Dunross. — Isso é como dizer que querem comida européia... que pode ir da italiana até a inglesa.
— Linc, não é melhor deixarmos nas mãos do tai-pan? — disse Casey, acrescentando: — Tai-pan, tenho que confessar que gosto de agridoce, rolinhos primavera, chop suey e arroz frito. Não curto nada muito exagerado.
— Nem eu — concordou Bartlett. — Nada de cobra, cão ou qualquer coisa exótica.
— As cobras são muito boas, na época — disse Dunross. — Especialmente a bile... misturada com chá. É muito revigorante, um grande tônico! E um cachorrinho ensopado em molho de ostra é perfeito.
— Já experimentou? Experimentou cachorro?
Ela estava chocada.
— Disseram-me que era galinha. Tinha gosto de galinha. Mas nunca coma cachorro e beba uísque ao mesmo tempo, Casey. Dizem que transforma a carne em bolas de ferro que farão você passar um mau pedaço...
Ele ouvia a si próprio fazer piadinhas, conversar fiado, enquanto observava Jacques e Susanne entrarem num táxi. Emocionou-se, sentiu tanta pena deles, de Kathy e de todos os outros, que teve vontade de tomar o avião ele mesmo, correr para lá e trazer Avril de volta em segurança... uma garota tão boazinha, parte da sua família...
"Como, em nome de Deus, se pode viver como um homem, governar a Casa Nobre e não enlouquecer? Como ajudar a família, fechar negócios e viver com tudo isso?"
— Esta é a alegria e a dor de ser tai-pan — dissera-lhe Dirk Struan em sonhos, muitas vezes.
"É, mas há muito pouca alegria.
"Você está errado, e Dirk está certo, e você está sendo sério demais", falou consigo mesmo. "Os únicos problemas sérios são a Par-Con, a alta, Kathy, os documentos de Alan Medford Grant, Crosse, John Chen, a Toda, e o fato de ter recusado a oferta de Lando Mata, não necessariamente nessa ordem. Tanto dinheiro!
"O que quero da vida? Dinheiro? Poder? Ou toda a China?"
Notou que Casey e Bartlett o observavam. Depois que aqueles dois haviam chegado, pensou, só tinha tido aborrecimentos. Voltou a olhar para eles. Valia a pena olhar para ela, com suas calças justas e a blusa colante.
— Deixe comigo — falou, resolvendo que naquela noite gostaria de jantar comida cantonense.
Ouviram de novo a campainha e viram o nome na lousa: "Srta. K. C. Tchuluk".
Dunross fez sinal para o jovem.
— Ele a levará ao telefone, Casey.
— Obrigada.
Levantou-se. Pares de olhos acompanharam as pernas longas e elegantes, e o andar sensual... as mulheres com inveja, detestando-a.
— Você é um filho da puta — disse Bartlett, calmamente.
— É?
— É. — Sorriu, e com isso anulou o xingamento. — Aposto vinte contra um que Taipé foi sacanagem... mas não estou achando ruim, Ian. Não. Fui duro a noite passada. Tive que ser. Portanto, mereci o troco. Mas não faça isso uma segunda vez com Casey, caso contrário, prometo que lhe arranco a cabeça.