— Não diga!
— Digo. Ela é intocável. — Os olhos de Bartlett se voltaram para Casey. Viu que passava pela mesa dos Marlowes, parava um segundo, cumprimentava-os, e às crianças, depois seguia em frente. — Ela sabe que não foi convidada.
Dunross ficou perturbado.
— Tem certeza? Pensei... será que não disfarcei direito? No momento em que percebi que você ainda não lhe havia contado... Desculpe, pensei ter disfarçado.
— Pombas, você esteve perfeito! Mas ainda aposto cinco contra dez que ela sabe que não foi convidada.
Bartlett sorriu de novo, e mais uma vez Dunross se perguntou o que haveria sob aquele sorriso. "Preciso ficar de olho nesse sacana", pensou. "Com que então Casey é intocável, é? O que será que ele realmente quis dizer com isso?"
Dunross escolhera o saguão deliberadamente, querendo ser visto com o agora famoso (ou mal-afamado) Bartlett e sua companheira. Sabia que isso tocaria fogo nos boatos do seu negócio iminente, agitaria ainda mais a Bolsa de Valores e deixaria tontos os apostadores. Se o Ho-Pak fosse à falência, desde que não arrastasse outros bancos junto, a alta ainda poderia acontecer. "Se Bartlett e Casey cedessem um pouco", pensou, "e se eu realmente pudesse confiar neles, poderia ter o lucro dos lucros. Tantos ses. Demais. Não estou no controle dessa batalha, no momento. Bartlett e Casey estão com todo o impulso. Até onde cooperarão?"
E então algo que o superintendente Armstrong e Brian Kwok tinham dito trouxe à baila um pensamento errante, e sua ansiedade aumentou.
— O que acha daquele sujeito, o Banastasio? — perguntou, tentando manter a voz bem natural.
— Vincenzo? — perguntou Bartlett prontamente. — Sujeito interessante. Por quê?
— Curiosidade — replicou Dunross, externamente calmo, mas intimamente chocado por estar certo. — Há quanto tempo o conhece?
— Três ou quatro anos. Casey e eu fomos às corridas com ele algumas vezes... em Del Mar. É um jogador da pesada, tanto ali quanto em Las Vegas. Chega a apostar cinqüenta mil num páreo... pelo menos foi o que nos disse. Ele e John Chen se dão muito bem. É amigo seu?
— Não. Não o conheço, mas ouvi John falar nele uma ou duas vezes — falou —, e Tsu-yan.
— Como vai Tsu-yan? É outro jogador. Quando o vi em Los Angeles, mal podia esperar para ir a Las Vegas. Estava nas corridas na última vez em que estivemos lá com John Chen. Nenhuma notícia ainda sobre John ou os seqüestradores?
— Não.
— Mas que azar.
Dunross mal ouvia. O dossiê que mandara preparar sobre Bartlett não dera nenhuma indicação de ligações com a Má-fia... mas Banastasio era o elo com tudo. As armas, John Chen, Tsu-yan e Bartlett...
Máfia significava dinheiro sujo e narcóticos, com uma busca constante de fachadas legítimas para "passar a limpo" o dinheiro. Tsu-yan costumava negociar muito com suprimentos médicos, durante a Guerra da Coréia... e agora, ao que se dizia, estava profundamente metido em contrabando de ouro para Taipé, Indonésia e Malásia, com Wu Quatro Dedos. Será que Banastasio estava enviando armas para... para quem? Será que o pobre John Chen descobrira alguma coisa por acaso, e fora seqüestrado por esse motivo?
Será que isso queria dizer que parte do dinheiro da Par-Con era dinheiro da Máfia... seria a Par-Con dominada ou controlada pela Máfia?
— Parece que ouvi John dizer que Banastasio era um dos seus maiores acionistas — falou, jogando verde de novo.
— Vincenzo tem uma porção de ações. Mas não é um funcionário ou diretor. Por quê?
Dunross viu que agora os olhos azuis de Bartlett estavam concentrados, e quase podia sentir as ondas mentais a alcançá-lo, questionando-se sobre esse tipo de interrogatório. Assim, encerrou-o.
— É curioso como esse mundo é pequeno, não é?
Casey pegou o telefone, fumegando intimamente.
— Telefonista, aqui é a srta. Tcholok. Tem uma ligação para mim?
— Ah, um momento, por favor.
"Quer dizer que não fui convidada para ir a Taipé", pensava furiosamente. "Por que o tai-pan não falou logo abertamente, sem torcer as coisas, e por que Linc também não me contou? Meu Deus, ele está sob o fascínio do tai-pan, como eu estive na noite passada? Por que o segredo? O que mais estão tramando?
"Taipé, hem? Já ouvi dizer que é um lugar para homens, portanto, se o que estão planejando é só um fim de semana de sacanagem, para mim está tudo bem. Mas não se for a negócios. Por que Linc não disse nada? O que está escondendo?"
A fúria de Casey começou a crescer. Depois lembrou-se do que a francesa dissera sobre as belas chinoises, tão acessíveis, e sua fúria transformou-se numa ansiedade incomum quanto a Linc.
"Malditos homens!
"Malditos homens e o mundo que fizeram exclusivamente para ajustar-se a eles. E aqui é pior do que em qualquer outro lugar que já estive.
"Malditos ingleses! São todos distintos e elegantes, educadíssimos, cheios de 'obrigado' e 'por favor', e ficam de pé quando a gente entra, e seguram a cadeira para a gente sentar, mas, debaixo da superfície, são tão podres quanto o resto. São piores. São hipócritas, é o que são! Bem, vou à forra. Um dia ainda jogaremos golfe, Sr. tai-pan Dunross, e é melhor que seja bom, porque eu posso jogar até chegar a 10 num bom dia... aprendi cedo sobre o golfe no mundo dos homens... portanto vou esfregar o seu nariz no chão. É. Ou quem sabe um jogo de sinuca... ou bilhar. Claro, e sei dar efeito na bola, também."
Casey pensou no pai com uma súbita pontada de alegria, em como ele lhe havia ensinado os rudimentos dos dois jogos. Mas fora Linc quem lhe ensinara a dar uma tacada baixa no lado esquerdo para dar uma torcida na bola para a direita e rodear a bola oito... mostrara-lhe isso, quando, tolamente, ela o desafiara para uma partida. Ele a massacrara antes de lhe dar qualquer lição.
— Casey, tem que se certificar de que conhece todos os pontos fracos de um homem antes de lutar com ele. Arrasei com você para lhe provar uma coisa: não jogo por prazer, jogo só para ganhar. Não estou fazendo nenhum jogo com você. Quero você, nada mais importa. Vamos esquecer o trato que fizemos, vamos nos casar e...
Isso fora alguns meses depois que ela começara a trabalhar para Linc Bartlett. Tinha apenas vinte anos, e já estava apaixonada por ele. Mas ainda desejava mais a vingança contra o outro homem, e mais a independência financeira, e mais encontrar a si mesma, portanto dissera:
— Não, Linc, concordamos com sete anos. Concordamos em ir na dianteira, como iguais. Ajudarei você a ficar rico, e ficarei rica também enquanto você ganha os seus milhões, e nenhum de nós deve nada ao outro. Você pode me despedir a qualquer hora, por qualquer motivo, e eu posso ir-me embora por qualquer motivo. Somos iguais. Não nego que o amo de todo o coração, mas ainda assim não vou modificar o nosso trato. Mas se ainda estiver disposto a me pedir em casamento no meu vigésimo sétimo aniversário, eu o farei. Casarei com você, irei viver com você, deixarei você... o que você quiser. Mas não agora. É, eu o amo, mas se nos tornarmos amantes agora, nunca... jamais conseguirei... Não posso, Linc, não agora. Existem coisas demais que tenho que descobrir sobre mim mesma.
Casey soltou um suspiro. Mas que arranjo maluco e esquisito. Será que todo o poder e as transações... e todos os anos e as lágrimas e a solidão tinham valido a pena?
"Não sei; simplesmente não sei. E a Par-Con? Será que algum dia alcançarei meu objetivo: a Par-Con e Linc, ou terei que escolher entre os dois?"
— Ciranoush? — ouviu pelo telefone.
— Oh! Alô, Sr. Gornt! — Sentiu uma onda de calor. — Mas que surpresa agradável — acrescentou, controlando-se.
— Espero não estar incomodando.
— De modo algum. O que posso fazer pelo senhor?
— Será que já pode confirmar sobre este domingo, se você e o Sr. Bartlett estão disponíveis? Quero planejar «ninha festa no barco, e gostaria que vocês dois fossem meus convidados de honra.