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— Lamento, Sr. Gornt, mas Linc não poderá ir. Está cheio de compromissos.

Ela ouviu a hesitação, depois o prazer disfarçado na voz dele.

— Gostaria de vir sem ele? Estava pensando em convidar algumas relações comerciais. Estou certo de que achará a festa interessante.

"Poderia ser muito bom para a Par-Con se eu fosse", pensou. "Além do mais, se Linc e o tai-pan vão para Taipé sem mim, por que não posso ir passear de barco sem eles?"

— Adoraria — disse, com calor na voz —, se tem certeza de que não vou atrapalhar.

— Claro que não. Apanharemos você no cais, bem em frente ao hotel, perto do Terminal da Balsa Dourada. Dez horas... vestida bem à vontade. Sabe nadar?

— Claro.

— Ótimo. A água é refrescante. Esqui aquático?

— Adoro!

— Excelente!

— Quer que eu leve alguma coisa? Bebida ou vinho ou qualquer coisa?

— Não. Acho que teremos tudo a bordo. Iremos para uma das ilhas externas e faremos piquenique, esqui aquático... voltaremos logo depois do pôr-do-sol.

— Sr. Gornt, gostaria de manter essa excursão entre nós. Disseram-me que Confúcio falou: "Em boca fechada não entra mosca".

— Confúcio disse muitas coisas. Uma vez comparou uma moça a um raio de luar.

Ela hesitou, sentindo os sinais de perigo. E então ouviu-se dizer, brincalhona:

— Devo levar uma dama de companhia?

— Talvez deva — replicou ele, e ela notou que ele sorria.

— Que tal Dunross para o papel?

— Ele não serviria para isso... seria apenas a destruição do que talvez pudesse ser um dia perfeito.

— Estou torcendo para que chegue o domingo, Sr. Gornt.

— Obrigado.

O telefone foi desligado instantaneamente.

"Seu filho da mãe arrogante!", quase exclamou em voz alta. "O que está pensando? Só 'obrigado' e desliga sem um 'até logo'?

"Pertenço a Linc, e não estou no mercado.

"Então por que banquei a coquete ao telefone e na festa?", perguntou a si mesma. "E por que quis que aquele filho da mãe ficasse de bico calado sobre o programa de domingo? "As mulheres também gostam de segredos", disse consigo mesma, sombriamente. "As mulheres gostam de um bocado de coisas de que os homens gostam."

26

20h35m

O cule estava nas sombrias caixas-fortes de ouro do Ho-Pak Bank. Era um velho miúdo, usando uma camiseta suja e rasgada, e calções esfarrapados. Enquanto os dois porteiros erguiam o saco de lona e o colocavam sobre as suas costas curvadas, ele ajustava o cabresto à testa e apoiava-se nele, suportando o peso com os músculos do pescoço, as mãos agarrando as duas tiras gastas. Agora que agüentava o peso total, sentia o coração sobrecarregado batendo forte, rebelando-se contra o fardo, as juntas gritando por alívio.

O saco pesava pouco mais de quarenta quilos... quase mais do que o seu próprio peso. Os contadores haviam acabado de lacrá-lo. Continha exatamente duzentos e cinqüenta dos pequenos lingotes de contrabandista, cada um com cinco taéis — pouco mais de cento e setenta gramas —, e bastaria um deles para mantê-lo, e à sua família, em segurança durante meses. Mas o velho nem sequer pensava em tentar roubar um só deles. Todo o seu ser estava concentrado em como dominar a agonia, como manter os pés em movimento, como fazer sua parte do trabalho, receber o seu pagamento no fim do turno e depois descansar.

— Ande logo — falou com azedume o capataz —, ainda temos mais vinte malditas toneladas para carregar. O seguinte!

O velho não replicou. Fazê-lo gastaria mais da sua preciosa energia. Tinha que poupar avaramente suas forças naquela noite, se é que pretendia terminar. Com esforço, pôs os pés em movimento, as batatas das pernas duras, cheias de varizes e cicatrizes, fruto de tantos anos de trabalho.

Outro cule tomou o seu lugar enquanto ele se arrastava devagar para fora do úmido aposento de concreto, as prateleiras abarrotadas de um suprimento aparentemente inesgotável de pilhas meticulosas de lingotes de ouro que esperavam sob os olhos atentos dos dois funcionários bem-arrumados do banco... esperavam para ser enfiados no próximo saco de lona, para ser contados e recontados, e depois lacrados, com um floreio. Na escada estreita, o velho falseou o pé. Recuperou o equilíbrio com dificuldade, depois ergueu um pé para subir mais um degrau... agora só faltavam mais vinte e oito... e depois mais outro. Mal tinha acabado de chegar ao patamar quando suas pernas cederam. Oscilou de encontro à parede, apoiando-se nela para suavizar o peso, o coração sofrendo com o esforço, agarrando as tiras com ambas as mãos, sabendo que jamais conseguiria acomodar de novo o fardo se se soltasse do cabresto, apavorado de que passasse por ali o capataz ou um subcapataz. Através do espectro da dor, ouviu passos que vinham em sua direção, e lutou para colocar o saco mais no alto das costas, e para voltar a se mover. Quase caiu de cara no chão.

— Ei, Chu Nove Quilates, está passando bem? — perguntou o outro cule em dialeto de Chantung, ajeitando o saco para ele.

— Sim... sim... — Soltou um suspiro de alívio, agradecido por ser o seu amigo, da sua aldeia bem ao norte, e o líder do seu grupo de dez. — Danem-se todos os deuses, eu... só escorreguei...

O outro homem espiou-o à luz áspera da única lâmpada nua do teto. Notou os velhos olhos torturados e lacrimejantes, os músculos estirados.

— Eu carrego esse, você descansa um momento — falou. Habilmente, tirou o saco das costas do outro e colocou-o no chão. — Direi àquele estrangeiro sem mãe que acha que tem inteligência bastante para ser capataz que você foi fazer as necessidades. — Enfiou a mão no bolso da calça rasgada e passou para o velho um dos seus pedaços pequenos e amassados de folha laminada de cigarro. — Pegue. Descontarei do seu pagamento, logo mais.

O velho resmungou seus agradecimentos. Agora mal pensava de tanta dor. O outro homem jogou o saco às costas, gemendo com o esforço, apoiou-se contra a faixa de cabeça, depois, os músculos da barriga da perna retesados, voltou a subir as escadas, satisfeito com o negócio que fizera.

O velho esgueirou-se para fora do patamar, enfiou-se numa alcova poeirenta e se agachou. Os dedos lhe tremiam enquanto desamassava o papel laminado de cigarro, com sua pitada de pó branco. Acendeu um fósforo e colocou-o cuidadosamente sob o papel laminado, para aquecê-lo. O pó começou a ficar preto e a fumegar. Cuidadosamente, segurou o pó fumegante sob as narinas e inspirou profundamente, repetidas vezes, até que cada grão tivesse desaparecido na fumaça que ele tragava tão agradecido para dentro dos pulmões.

Recostou-se na parede. Logo a dor sumiu, e veio a euforia, que o invadiu totalmente. Sentiu-se jovem de novo, forte de novo, agora sabia que terminaria seu turno perfeitamente, e nesse sábado, quando fosse às corridas, ganharia o prêmio da loteria dupla. É, aquela seria a sua semana de sorte, e ele aplicaria a maior parte dos seus ganhos num terreno. "É, um terre-ninho pequeno, a princípio, mas com a alta minha propriedade subirá de preço, e mais e mais, e depois eu a venderei e ganharei uma fortuna, e comprarei mais e mais, e então serei um ancestral, meus netos à volta dos meus joelhos..."

Levantou-se e ficou ereto; depois desceu as escadas de novo e entrou na fila, esperando sua vez com impaciência.

— Dew neh loh moh, andem depressa — falou no seu dialeto cantante de Chantung —, não tenho a noite toda! Tenho outro emprego à meia-noite.

O outro emprego era numa obra na zona central, que não ficava longe do Ho-Pak, e ele sabia que era abençoado por ter dois empregos extras numa noite, além do seu trabalho regular diurno como operário de obra. Sabia, também, que fora o dispendioso pó branco que o transformara e afastara de si a fadiga e a dor. Claro que sabia que o pó branco era perigoso. Mas era um homem sensato e cauteloso, e só fazia uso dele quando estava no limite de suas forças. O fato de estar fazendo uso dele agora quase todos os dias, duas vezes por dia, na maioria das vezes, não o preocupava. "Joss", falou consigo mesmo, colocando nas costas o novo saco de lona.