No passado fora fazendeiro, o filho mais velho de fazendeiros proprietários de terras na província setentrional de Chantung, no delta fértil e móvel do rio Amarelo, onde, durante séculos, haviam plantado cereais, frutas e soja, amendoim, tabaco e todos os legumes que podiam comer.
"Ah, nossos belos campos!", pensou, feliz, subindo agora as escadas, ignorando o coração disparado, "nossos belos campos cheios de colheitas florescentes. Tão lindo! É. Mas depois começou a Época Ruim, faz trinta anos. Os Demônios do Mar do Leste vieram com suas armas e tanques e violentaram a nossa terra, e depois, quando o senhor da guerra Mao Tsé-tung e o senhor da guerra Chang Kai-chek os expulsaram, lutaram entre si, e novamente a terra foi destroçada. Assim, fugimos da fome, eu, minha jovem mulher e meus dois filhos, e viemos para este lugar, o Porto Fragrante, para viver no meio de estranhos, bárbaros meridionais e demônios estrangeiros. Viemos a pé. Sobrevivemos. Carreguei meus filhos a maior parte do trajeto, e agora eles estão com catorze e dezesseis anos, e temos duas filhas, e todos comem arroz uma vez por dia, e este será o meu ano da sorte. É, vou ganhar a loteria, ou a dupla diária, e um dia voltaremos à minha aldeia, recuperarei minhas terras, plantarei nelas de novo. O presidente Mao nos receberá de volta ao lar, deixará que eu retome as minhas terras e viveremos tão felizes, tão ricos e tão felizes..."
Agora, já estava do lado de fora do prédio, na noite, ao lado do caminhão. Outras mãos ergueram o saco e empilharam-no junto com todos os outros sacos de ouro, mais funcionários do banco verificando e reverificando os números. Havia dois caminhões na rua lateral. Um deles já estava cheio, e esperando sob guarda. Um único policial desarmado observava despreocupado o tráfego que passava. A noite estava quente.
O velho virou-se para ir embora. Foi então que notou os três europeus, dois homens e uma mulher, que se aproximavam. Pararam perto do caminhão mais afastado, olhando para ele, que ficou de queixo caído.
— Dew neh loh moh! Olhe para aquela piranha... o monstro com o cabelo cor de palha — falou, sem se dirigir a ninguém em particular.
— Incrível! — um outro replicou.
— É — concordou ele.
— É revoltante o modo como as piranhas deles se vestem em público, não é? — comentou um velho carregador enrugado, enojado. — Exibindo suas partes íntimas com essas calças justas. Dá para a gente ver cada porra de prega nos seus lábios inferiores.
— Aposto que dava para a gente enfiar nela o punho inteiro e o braço inteiro e nunca chegar ao fundo! — riu um outro.
— E quem iria querer fazer isso? — perguntou Chu Nove Quilates, escarrando ruidosamente e cuspindo, e depois deixando a mente vagar agradavelmente para o sábado, enquanto descia de novo.
— Gostaria que eles não cuspissem desse jeito. É nojento! — comentou Casey, com o estômago embrulhado.
— É um velho costume chinês — disse Dunross. — Eles acreditam que existe um espírito mau na garganta, do qual é preciso se livrarem constantemente, para que não os sufoque. Claro que cuspir é contra a lei, mas isso nada significa para eles.
— O que foi que aquele velho falou? — perguntou Casey, vendo-o arrastar-se de volta para dentro do banco, pela porta lateral. Agora já não sentia raiva, e estava muito satisfeita de ter ido jantar fora com os dois.
— Não sei... não entendi o dialeto dele.
— Aposto que não foi um elogio.
Dunross riu.
— Essa aposta você ganharia, Casey. Eles não nos apreciam, absolutamente.
— Aquele velho deve ter no mínimo uns oitenta anos, e carregou o seu fardo como se fosse uma pena. Como eles se mantêm assim tão em forma?
Dunross deu de ombros e ficou calado. Ele sabia. Outro cule jogou sua carga para dentro do caminhão, fitou-a, escarrou, cuspiu, e foi se afastando.
— Vá tomar no rabo você também — resmungou Casey, e depois parodiou um tremendo escarro e um cuspe à distância, e eles riram com ela. O chinês apenas ficou olhando.
— Ian, do que se trata? Para que estamos aqui? — quis saber Bartlett.
— Pensei que gostariam de ver cinqüenta toneladas de ouro.
Casey soltou uma exclamação abafada.
— Esses sacos estão cheios de ouro?
— Estão. Vamos.
Dunross foi na frente, descendo as escadas sombrias que levavam à caixa-forte do banco. Os funcionários do banco cumprimentaram-no cortesmente, e os guardas desarmados e os carregadores os fitaram. Os dois americanos sentiram-se inquietos, sob os olhares fixos. Mas a inquietação deles foi sufocada pelo ouro. Pilhas certinhas de barras de ouro sobre as prateleiras de aço que os cercavam... dez em cada camada, cada pilha com dez camadas de altura.
— Posso segurar uma? — perguntou Casey.
— À vontade — falou Dunross, observando-os e tentando testar a extensão da sua cobiça. "Estou apostando alto", pensou de novo. "Tenho que conhecer até onde vão esses dois."
Casey nunca tocara em tanto ouro na sua vida. Nem Bartlett. Os dedos deles tremiam. Ela acariciou uma das barrinhas, olhos arregalados, antes de erguê-la.
— É pesada, para o tamanho — murmurou.
— São chamadas de barras de contrabandista, porque são fáceis de esconder e transportar — falou Dunross, escolhendo as palavras deliberadamente. — Os contrabandistas usam uma espécie de colete de lona com bolsinhos, que acomodam direitinho as barras. Dizem que um bom mensageiro pode carregar até trinta e seis quilos por viagem... são quase mil e trezentas onças. Claro que têm que estar em forma, e bem treinados.
Bartlett sopesava duas em cada mão, fascinado por elas.
— Quantas delas perfazem trinta e seis quilos?
— Umas duzentas, aproximadamente.
Casey olhou para ele, os olhos cor de avelã maiores do que de costume.
— É tudo seu, tai-pan?
— Santo Deus, não! Pertencem a uma firma de Macau. Estão transferindo-as daqui para o Victoria. Pela lei, os americanos ou ingleses sequer têm o direito de possuir uma delas. Mas pensei que poderiam se interessar, porque não é sempre que se vêem cinqüenta toneladas juntas num só lugar.
— Nunca me dei conta do que era o dinheiro de verdade, antes — dizia Casey. — Agora posso entender por que os olhos do meu pai e do meu tio se iluminavam quando falavam em ouro.
Dunross a observava. Não via cobiça nela, apenas assombro.
— Os bancos fazem muitas transferências como esta? — perguntou Bartlett, com voz rouca.
— Sim, o tempo todo — falou Dunross, imaginando se Bartlett havia mordido a isca e estava planejando um assalto à moda da Máfia, com seu amigo Banastasio. — Vai chegar um carregamento muito grande daqui a umas três semanas — falou, aumentando a tentação.
— Quanto valem cinqüenta toneladas? — perguntou Bartlett.
Dunross sorriu consigo mesmo, recordando Tung Zeppelin com sua exatidão de cifras. Como se isso tivesse importância!
— Legalmente, sessenta e três milhões de dólares, com uma diferença para mais ou para menos de alguns milhares.
— E vocês os estão transportando só com um bando de velhos, dois caminhões que nem sequer são blindados, e sem guardas?
— Claro. Isso não é problema em Hong Kong, o que é um dos motivos pelo qual nossa polícia é tão sensível quando se fala em armas. Se eles possuem as únicas armas da colônia, bem, o que podem os bandidos e os homens maus fazer, exceto xingar?
— Mas onde está a polícia? Só vi um guarda, e não estava armado.
— Ah, está por aí, acho eu — disse Dunross, deliberadamente bancando o indiferente.
Casey olhou para o lingote de ouro, curtindo o toque do metal.
— Parece tão fresco e permanente. Tai-pan, se elas valem legalmente sessenta e três milhões, qual o seu valor no mercado negro?