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Dunross notou agora leves gotículas de suor no seu lábio superior.

— O quanto alguém estiver disposto a pagar. No momento, soube que o melhor mercado é a índia. Pagariam de oitenta a noventa dólares americanos a onça, entregues na índia.

Bartlett deu um sorriso torto e relutantemente recolocou seus quatro lingotes na pilha deles.

— É um bocado de lucro.

Ficaram olhando em silêncio enquanto outro saco de lona era lacrado, as barras verificadas e reverificadas por ambos os bancários. Novamente, o saco foi colocado sobre as costas curvadas de um homem, e ele foi embora, caminhando penosamente.

— E aquelas, o que são? — indagou Casey, apontando para umas barras bem maiores que estavam noutra parte da caixa-forte.

— São as barras regulamentares de quatrocentas onças — disse Dunross. — Pesam cerca de onze quilos cada. — A barra estava marcada com a foice e o martelo, e 99,999. — Esta é russa. É 99,99 por cento pura. O ouro da África do Sul é geralmente 99,98 por cento puro, portanto o russo é mais procurado. Claro que ambos são fáceis de comprar no mercado de ouro de Londres. — Deixou que olhassem mais um pouco, depois falou: — Vamos indo, agora?

Na rua estavam apenas um único policial e os guardas do banco desleixados e desarmados, os dois motoristas de caminhão fumando nas suas boléias. O tráfego passava por ali, ocasionalmente. Uns poucos pedestres.

Dunross ficou contente por sair do confinamento da caixa-forte. Sempre detestara porões e masmorras desde que o pai o trancara num armário, quando era muito pequeno, por um delito de que agora não se recordava. Mas recordava-se da velha Ah Tat, sua amah, salvando-o e defendendo-o... enquanto ele fitava o pai, tentando deter as lágrimas de terror que não podiam ser detidas.

— É bom estar de volta ao ar livre — falou Casey. Usou um lenço de papel. Inexoravelmente, seus olhos foram atraídos para os sacos no caminhão quase cheio. — Isso é dinheiro de verdade — murmurou, quase consigo mesma. Um leve estremecimento a percorreu, e Dunross soube imediatamente que descobrira a sua jugular.

— Estou com vontade de tomar uma cerveja — falou Bartlett. — Tanto dinheiro me dá sede.

— E eu de tomar um uísque com soda! — disse ela, e o encantamento se quebrou.

— Vamos até o Victoria ver a entrega começar a ser feita, e depois comeremos...

Dunross se interrompeu. Vira os dois homens batendo papo perto dos caminhões, parcialmente ocultos nas sombras. Enrijeceu-se ligeiramente.

Os dois homens o viram. Martin Haply, do China Guardian, e Peter Marlowe.

— Oh, alô, tai-pan — disse o jovem Martin Haply, aproximando-se dele com seu sorriso confiante. — Não esperava vê-lo aqui. Boa noite, srta. Casey, Sr. Bartlett. Tai-pan, gostaria de fazer algum comentário sobre o assunto do Ho-Pak?

— Que assunto do Ho-Pak?

— A corrida ao banco, senhor.

— Não sabia que estava havendo uma.

— Não leu a minha coluna sobre as várias agências e os boa...

— Meu caro Haply — falou Dunross, com o seu charme tranqüilo —, sabe que não procuro entrevistas, nem as dou por qualquer motivo... e nunca nas esquinas.

— Sim, senhor. — Haply fez sinal para os sacos. — Transferir todo esse ouro é um golpe duro para o Ho-Pak, não é? Será o beijo da morte para o banco, quando isso transpirar.

Dunross soltou um suspiro.

— Esqueça o Ho-Pak, Sr. Haply. Posso lhe falar em particular? — Segurou o jovem pelo cotovelo e afastou-o dali com firmeza de veludo. Quando estavam sozinhos, meio encobertos por um dos caminhões, soltou o braço do outro. Sua voz baixou. Involuntariamente, Haply se crispou e deu meio passo para trás. — Já que anda saindo com minha filha, só quero que saiba que gosto muito dela, e que entre cavalheiros existem certas regras. Estou supondo que seja um cavalheiro. Se não for, Deus o ajude. Terá que prestar contas a mim, pessoalmente, imediatamente e sem piedade. — Dunross deu meia-volta e foi juntar-se aos outros, cheio de súbita bonomia. — Boa noite, Marlowe, como vão indo as coisas?

— Muito bem, obrigado, tai-pan. — O homem alto fez um sinal de cabeça para os caminhões. — É um espanto, toda essa fortuna!

— Onde ouviu falar da transferência?

— Um amigo jornalista tocou no assunto há cerca de uma hora. Falou que umas cinqüenta toneladas de ouro estavam sendo transferidas daqui para o Victoria. Pensei que seria interessante ver como a coisa é feita. Espero que não... espero não estar pisando em nenhum calo.

— De modo algum. — Dunross virou-se para Casey e

Bartlett. — Estão vendo, não falei que Hong Kong era como uma aldeia... nunca se pode guardar segredos aqui por muito tempo. Mas tudo isso... — indicou os sacos — tudo isso é chumbo... ouro de tolos. O carregamento real foi completado há uma hora. Não eram cinqüenta toneladas, e sim alguns milhares de onças. A maior parte das reservas em ouro do Ho-Pak ainda está intacta.

Sorriu para Haply, que não estava sorrindo, mas ouvindo, de cara fechada.

— Então é tudo mentira, afinal? — exclamou Casey, com voz abafada.

Peter Marlowe riu.

— Devo confessar que achei toda essa operação um tanto descontraída!

— Bem, boa noite, vocês dois — Dunross disse despreocupadamente para Marlowe e Martin Haply. Tomou o braço de Casey, momentaneamente. — Vamos, está na hora do jantar.

Começaram a descer a rua, Bartlett ao seu lado.

— Mas, tai-pan, aquelas que nós vimos — disse Casey —, aquela que peguei, era de mentira? Teria apostado a minha vida, você não, Linc?

— É — concordou Linc. — Mas o despiste foi muito sensato. É o que eu teria feito.

Dobraram a esquina, na direção do imenso prédio do Victoria, o ar quente e pegajoso.

Casey soltou uma risada nervosa.

— Aquele metal dourado estava mexendo comigo... e era falso o tempo todo!

— Na verdade, era real — Dunross falou em voz baixa, e ela parou. — Desculpe confundi-la, Casey. Falei aquilo apenas para os ouvidos de Marlowe e Haply, para criar desconfiança na sua fonte. Eles não podiam provar nem uma coisa nem outra. Pediram-me que tomasse as providências para a transferência há pouco mais de uma hora... o que fiz, obviamente, com grande cautela.

Seu coração bateu mais depressa. Perguntou-se quantas outras pessoas sabiam dos documentos de Alan Medford Grant e da caixa-forte e do número do cofre individual na caixa-forte.

Bartlett o observava.

— Eu acreditei no que você disse, e portanto, acho que eles também acreditaram — falou, enquanto pensava: "Por que nos trouxe para ver o ouro? É o que eu gostaria de saber".

— É curioso, tai-pan — disse Casey com uma risadinha nervosa. — Eu sabia, simplesmente sabia que o ouro era de verdade, para começo de conversa. Depois acreditei em você quando disse que era falso, e agora voltei a acreditar que é real. É tão fácil falsificar ouro?

— Sim e não. Só se sabe ao certo quando se põe ácido nele. Tem que passar pelo teste do ácido. Este é o único teste verdadeiro para o ouro. Não é? — acrescentou para Bartlett, e viu o sorriso e ficou se perguntando se o americano compreendia.

— Acho que é, Ian. Para o ouro... ou para as pessoas. Dunross devolveu o sorriso. "Ótimo", pensou sombriamente, "entendemo-nos perfeitamente."

Agora era bem tarde. As barcas e balsas do Terminal da Balsa Dourada tinham parado de funcionar, e Casey e Linc Bartlett estavam numa lanchinha alugada, atravessando a baía, a noite maravilhosa, um cheiro gostoso de maresia no vento, o mar calmo. Estavam sentados num dos bancos de frente para Hong Kong, de braços dados. O jantar fora o melhor que já haviam comido, a conversa entremeada de muitas risadas, Dunross encantador. Tinham terminado a noite tomando conhaque no topo do Hilton. Ambos estavam se sentindo maravilhosamente em paz com o mundo e consigo mesmos.

Casey sentiu a ligeira pressão do braço dele, e apoiou-se de leve contra ele.