— É romântico, não é, Linc? Olhe para o Pico, e todas as luzes. Incrível. É o lugar mais lindo e excitante em que já estive.
— Melhor do que o sul da França?
— Aquilo foi muito diferente. — Haviam passado umas férias juntos na Cote d'Azur, há dois anos. Fora a primeira vez que tiraram férias juntos. E a última. Fora um esforço grande demais para ambos se manterem separados. — Ian é fantástico, não é?
— É. E você também.
— Obrigada, gentil senhor, e você também. Eles riram, felizes, juntos.
No cais, no lado de Kowloon, Linc pagou ao barqueiro e foram andando devagar até o hotel, de braços dados. Alguns garçons ainda estavam de serviço no saguão.
— Boa noite, senhor, boa noite, senholita — falou o velho ascensorista, sibilantemente, e, no andar deles, Chang Noturno saiu apressado à sua frente para abrir a porta da suíte. Automaticamente, Linc deu-lhe um dólar, e ele curvou-se enquanto eles entravam. Chang Noturno fechou a porta.
Ela a trancou.
— Uma bebida? — indagou ele.
— Não, obrigada. Iria estragar o conhaque.
Ela o viu olhando para ela. Estavam de pé no meio da sala de estar, a imensa janela panorâmica descortinando Hong Kong inteira às costas dele, seu quarto à direita, o dela à esquerda. Ela podia sentir a veia no seu pescoço pulsando, sentia-se toda molhada, e ele lhe parecia tão belo!
— Bem, é... obrigada por uma noite maravilhosa, Linc. Eu... até amanhã — falou. Mas não se mexeu.
— Faltam três meses para seu aniversário, Casey.
— Treze semanas e seis dias.
— Por que não os driblamos e nos casamos agora? Amanhã.
— Você... tem sido tão maravilhoso comigo, Linc, tão bom ao ser paciente e aturar a minha... doidice. — Ela sorriu para ele, um sorriso tentador. — Não vai demorar muito agora. Vamos fazer o que combinamos. Por favor?
Ele ficou ali parado, desejando-a. Depois, falou:
— Claro. — Quando chegou à porta, parou. — Casey, você tem razão quanto a este lugar. É romântico e excitante. Também mexeu comigo. Quem sabe... quem sabe não seria melhor você arranjar outro quarto?
Fechou a porta.
Naquela noite, ela chorou até dormir.
Quarta-feira
27
5h45m
Os dois cavalos de corrida fizeram a curva e entraram na reta final em grande velocidade. Era a falsa aurora, o céu ainda escuro do lado oeste, e o Hipódromo Happy Valley estava pontilhado de pessoas no treino matinal.
Dunross estava montado em Buccaneer, o grande baio capão, e corria lado a lado com Noble Star, montada pelo seu jóquei principal, Tom Leung. Noble Star corria por dentro, e os dois cavalos estavam correndo bem, com bastante reserva. Então, Dunross viu o poste de chegada adiante, e teve aquele ímpeto súbito de enfiar os calcanhares no animal e derrotar o outro. O outro jóquei pressentiu o desafio e olhou para ele. Mas os dois cavaleiros sabiam que só estavam ali para se exercitar, não para apostar corrida, estavam ali apenas para confundir a oposição, portanto Dunross abafou o seu desejo quase alucinante.
Agora, os dois cavalos tinham arriado as orelhas. Seus flanços estavam molhados de suor. Ambos sentiam o freio nos dentes. E agora, bem na reta final, dirigiam-se excitadamente para o poste de chegada, a pista interna de areia de treinamento não tão rápida quanto a de grama que a rodeava, exigindo mais deles. Os dois cavaleiros estavam de pé nos estribos, o mais alto que podiam, debruçados para a frente, com a rédea curta.
Noble Star carregava menos peso. Começou a sair na frente, Dunross automaticamente usou os calcanhares e xingou Buccaneer, que apressou o passo. A brecha começou a diminuir. A euforia dele aumentou. O galope não ultrapassou mais que meia pista, portanto Dunross achou que estava seguro. Nenhum treinador adversário poderia calcular exatamente o tempo de cada um, portanto chutou com mais força e a corrida passou a ser para valer. Os dois cavalos o sabiam. Suas passadas tornaram-se maiores. Noble Star estava com o focinho à frente, e então, sentindo que Buccaneer se acercava rapidamente, ela disparou, por conta própria, e ganhou de Dunross por meio corpo.
Então, os cavaleiros diminuíram a velocidade e, à vontade, continuaram em volta da linda pista... um pedaço de verde cercado por prédios amontoados e fileiras de apartamentos que pontilhavam as encostas das montanhas. Quando Dunross acabou de trotar de novo pela reta final, interrompeu o exercício, parou junto de onde seria normalmente o círculo do vencedor, e desmontou. Deu uma palmadinha afetuosa no pescoço do potro, e jogou suas rédeas para um cavalariço. O homem subiu na sela e continuou a exercitá-lo.
Dunross distendeu os ombros, o coração batendo gostosamente, o gosto de sangue na boca. Sentia-se bem, os músculos estirados doendo agradavelmente. Cavalgara toda a sua vida. A corrida de cavalos ainda era oficialmente um esporte amador em Hong Kong. Quando era jovem, havia competido durante duas temporadas, e teria continuado, mas fora aconselhado a deixar as pistas por seu pai, naquela época tai-pan e administrador-chefe, e novamente por Alastair Struan, quando assumiu os dois cargos, que lhe ordenou que parasse de correr sob pena de demissão imediata. Assim, parará de correr, embora continuasse a exercitar os cavalos da Struan quando lhe dava na telha. E corria na madrugada, quando sentia vontade.
Era o levantar-se quando a maior parte do mundo ainda dorme, o galopar à meia-luz... o exercício e a excitação, a velocidade e o perigo que lhe desanuviavam a cabeça.
Dunross cuspiu fora o gosto enjoativo de não ter vencido. "Assim está melhor", pensou. "Poderia ter ganho de Noble Star hoje, mas o teria feito na curva, não na reta."
Outros cavalos estavam se exercitando na pista de areia, entrando no circuito, ou deixando-o. Grupos de proprietários, treinadores e jóqueis conferenciavam, ma-foos — "cavalariços" — fazendo andar os cavalos cobertos com mantas. Viu Butter-scotch Lass, a grande égua de Richard Kwang, passar por ele a meio galope, uma estrela branca na testa, machins elegantes, seu jóquei segurando firme as rédeas, parecendo tudo muito bem. No extremo oposto, Pilot Fish, o garanhão de estimação de Gornt, saiu num galope controlado, atrás de outro animal do haras da Struan, Impatience, uma potranca nova, jovem, inexperiente, adquirida recentemente nas primeiras vendas da temporada. Dunross examinou-a com ar crítico, e achou que lhe faltava resistência. "Vamos dar-lhe uma ou duas temporadas, e depois veremos", pensou. Então Pilot Fish passou violentamente por ela, que escorregou de medo por um instante, e depois saiu a persegui-lo até que seu jóquei a controlou, ensinando-lhe a galopar segundo a vontade dele.
— E então, tai-pan? — perguntou o seu treinador. Era um imigrante russo de cara curtida, duro como aço, de sessenta e tantos anos, cabelos grisalhos. Aquela era a sua terceira temporada com a Struan.
— E então, Aleksei?
— Então você ficou com o diabo no corpo e enfiou os calcanhares nele, e viu como a Noble Star disparou à frente?
— Ela é esforçada. Noble Star é esforçada, todo mundo sabe disso — replicou Dunross, calmamente.
— É, mas eu teria preferido que somente eu e você fôssemos alertados para isso hoje, e não — o homenzinho apontou um dedo calejado para os espectadores e abriu um sorriso —...e não todo vibliadok na Ásia.
Dunross devolveu o sorriso.
— Você repara demais.
— Sou pago para reparar demais.
Aleksei Travkin suplantava qualquer homem com a metade da sua idade cavalgando, bebendo, trabalhando e resistindo. Era um solitário, entre os outros treinadores. Ao longo dos anos, contara diversas histórias sobre seu passado... como a maioria das pessoas apanhadas nos grandes tumultos da Rússia e suas revoluções, da China e suas revoluções, e que agora vagavam pelas veredas da Ásia buscando uma paz que jamais poderiam encontrar.
Aleksei Ivánovitch Travkin viera da Rússia para Harbin, na Manchúria, em 1919, depois seguira trabalhando para o sul, até o Povoado Internacional de Xangai. Lá, começou a cavalgar vencedores. Como era muito bom, e sabia mais sobre cavalos do que a maioria dos homens sabem sobre si mesmos, logo se tornou treinador. Quando o êxodo aconteceu novamente, em 49, ele fugiu para o sul, desta feita para Hong Kong, onde ficou durante alguns anos, depois se mandou de novo para o sul, para a Austrália, e os circuitos de lá. Mas a Ásia o chamava, e ele voltou. Dunross estava sem treinador, na época, e ofereceu-lhe a coudelaria da Casa Nobre.