— Aceito, tai-pan — respondera ele, prontamente.
— Ainda não discutimos dinheiro — dissera Dunross.
— O senhor é um cavalheiro, e eu também. Pagar-me-á o máximo para ficar por cima... e também porque sou o melhor.
— É?
— Por que outro motivo me ofereceria o lugar? Também não gosta de perder.
A temporada passada fora boa para ambos. A primeira não fora tão boa. Os dois sabiam que a temporada que estava prestes a se iniciar seria o teste real.
Noble Star passava devagar por eles, acomodando-se, com perfeição.
— E quanto ao sábado? — perguntou Dunross.
— Ela estará se esforçando.
— E Butterscotch Lass?
— Estará se esforçando. Assim como Pílot Fish. Assim como todos os outros... em todos os oito páreos. Será uma competição muito especial. Teremos que vigiar atentamente os nossos inscritos.
Dunross concordou. Viu Gornt conversando com Sir Dunstan Barre, junto ao círculo dos vencedores.
— Vou ficar muito puto da vida se perder para Pilot Fish. Aleksei riu, depois acrescentou, mordaz:
— Nesse caso, talvez seja melhor o senhor mesmo montar Noble Star, tai-pan. Assim, poderá empurrar Pílot Fish contra o gradil, na curva, se ele representar uma ameaça, ou chicotear os olhos do seu jóquei. Não? — O velho ergueu os olhos para ele. — Não é isso o que teria feito com Noble Star hoje, se fosse um páreo de verdade?
Dunross sorriu.
— Como não era verdade, nunca saberá... não é mesmo? Um ma-foo se aproximou e saudou Travkin, entregando-lhe um bilhete.
— Recado, senhor. O Sr. Choi gostaria que o senhor examinasse as ataduras de Chardistan, quando tiver um momentinho.
— Vou já para lá. Diga a ele para pôr farelo extra na ração de Buccaneer, hoje e amanhã. — Travkin voltou a olhar para Dunross, que observava atentamente Noble Star. Franziu o cenho. — Não está pensando em cavalgar no sábado?
— Não no momento.
— Eu não o aconselharia. Dunross riu.
— Eu sei. Até amanhã, Aleksei. Amanhã exercitarei Impatience.
Abraçou-o amistosamente e foi embora.
Aleksei Travkin ficou olhando enquanto ele se afastava; seus olhos voltaram-se depois para os cavalos sob seus cuidados, e para os adversários que estavam à vista. Sabia que esse sábado seria cheio de maldade, e que Noble Star teria que ser protegida. Sorriu consigo mesmo, satisfeito por estar num jogo cujas apostas eram tão altas.
Abriu o bilhete que estava na sua mão. Era curto, escrito em russo.
"Saudações de Kurgan, Alteza. Tenho notícias de Nestorova...
Aleksei soltou uma exclamação abafada. Seu rosto ficou sem cor. "Pelo sangue de Cristo!", tinha vontade de gritar. "Ninguém na Ásia sabe que vim de Kurgan, nas planícies às margens do rio Tobol, nem que meu pai era o príncipe de Kurgan e Tobol, nem que minha querida Nestorova, minha mulher-criança de mil vidas atrás, foi engolida pela revolução enquanto eu estava com meu regimento... Juro por Deus que jamais mencionei seu nome a ninguém, nem a mim mesmo."
Releu o bilhete, em choque. "Será mais uma tortura deles, os soviéticos... os inimigos de todos os russos? Ou será de um amigo? Ah, Santo Deus, permita que seja um amigo!"
Depois de "Nestorova", o bilhete terminava:
"Por favor, encontre-me no Restaurante Dragão Verde, no beco junto à Nathan Road, 189, na sala dos fundos, às três da tarde de hoje".
Não havia assinatura.
Do outro lado do paddock, perto do poste de chegada, Richard Kwang dirigia-se para junto do seu treinador quando viu seu primo em sexto grau, Ching Sorridente, presidente da junta diretora do imenso Ching Prosperity Bank, nas arquibancadas, os binóculos dirigidos para Pilot Fish.
— Alô, Sexto Primo — cumprimentou amavelmente, em cantonense —, já comeu arroz hoje?
O velho astuto pôs-se em guarda instantaneamente.
— Não vai arrancar nenhum dinheiro de mim — falou rudemente, os lábios afastando-se dos dentes saltados que lhe davam um ar de perpétua careta sorridente.
— Por que não? — falou Richard Kwang, com a mesma rudeza. — Tenho dezessete milhões emprestados a você e...
— É, mas vencem daqui a noventa dias, e estão bem investidos. Sempre pagamos os juros de quarenta por cento — rosnou o velho.
— Seu velho osso de cachorro miserável, ajudei-o quando precisava de dinheiro! Agora chegou a hora de retribuir!
— Retribuir o quê? O quê? — cuspiu Ching Sorridente. — Retribuí a você uma fortuna, ao longo dos anos. Assumi os riscos, e você acumulou os lucros. Esse desastre todo não podia ter acontecido numa hora pior! Estou com cada tostão de cobre investido... até o último! Não sou como certos banqueiros. Meu dinheiro está sempre bem empregado.
Empregado em narcóticos, ao que constava. Claro que Richard Kwang nunca perguntara, e ninguém sabia ao certo, mas todos acreditavam que o banco de Ching Sorridente era, secretamente, uma das principais câmaras de compensação para o comércio de drogas, a maioria proveniente de Bangkok.
— Escute, primo, pense na família — começou Richard Kwang. — É apenas um problema temporário. Esses demônios estrangeiros de merda estão nos atacando. Quando isso acontece, as pessoas civilizadas têm que se unir!
— Concordo. Mas você é o culpado da corrida ao Ho-Pak. Você. É no seu banco... não no meu. Você ofendeu os sacanas, de algum modo! Estão atrás de você! Não lê os jornais? É, e você está com todo o seu dinheiro investido nuns negócios muito ruins, ao que me contaram. Você, primo, colocou a própria cabeça na canga. Arranque dinheiro daquele maldito mestiço filho de uma puta malaia do seu sócio. Ele tem bilhões... ou do Pão-Duro... — O velho repentinamente casquinou. — Darei dez por cada um que aquele velho fornicador emprestar a você!
— Se eu entrar pelo cano, o Ching Prosperity virá atrás!
— Não me ameace! — exclamou o velho, raivosamente. Seus lábios tinham permanentemente um pouco de saliva nos cantos, depois eles cobriram os dentes uma vez e separaram-se de novo na careta habitual. — Se você entrar pelo cano, não será por minha culpa... por que desejar seu terrível azar para a minha família? Não fiz nada para prejudicá-lo... por que tentar passar seu azar para mim? Se hoje... ayeeyah, se hoje seu azar transbordar e aqueles depositantes de merda começarem uma corrida ao meu banco, não durarei um dia!
Richard Kwang sentiu-se momentaneamente melhor porque o império de Ching estava igualmente ameaçado. "Bom, muito bom. Eu poderia aproveitar todos os seus negócios... especialmente a operação Bangkok." Foi então que olhou para o grande relógio que encimava o totalizador, e gemeu. Eram pouco mais de seis horas. Às dez os bancos abririam, a Bolsa de Valores abriria, e, embora já tivessem sido tomadas providências com o Blacs, o Victoria e o Banco Oriental e de Bombaim, de Kowloon, para penhorar títulos que deviam cobrir tudo, com sobra, ainda estava nervoso. E furioso. Tivera que fazer uns tratos muito duros, que não desejava cumprir.
— Vamos lá, primo, só cinqüenta milhões durante dez dias... prorrogarei os dezessete milhões por dois anos, e acrescentarei outros vinte em trinta dias.
— Cinqüenta milhões por três dias a dez por cento de juros por dia, e o empréstimo atual como garantia. E também aceitarei a escritura da sua propriedade na zona central como garantia!
— Vá foder na orelha da sua mãe! A propriedade vale quatro vezes esse valor.