Escarrou e cuspiu ruidosamente. "Tanto se me dá que saibam ou não. Não podem tocar em mim, sou apenas um banqueiro."
Robert Armstrong notara que Ching Sorridente estava conversando com o banqueiro Kwang e tinha certeza de que o par estava aprontando alguma. A polícia estava bem por dentro dos murmúrios sobre Ching, seu Prosperity Bank e o tráfico de narcóticos, mas até agora não tinha nenhuma prova concreta implicando-o, ou ao seu banco, nem mesmo provas circunstanciais que fizessem jus a detenção, interrogatório e deportação sumária.
"Bem, um dia desses ele vai escorregar", pensou Robert Armstrong, calmamente, e voltou a focalizar o binóculo em Pilot Fish, em Noble Star, em Butterscotch Lass, depois em Golden Lady, a égua de John Chen. Qual deles estaria em forma para vencer?
Bocejou e espreguiçou-se, cansado. Fora outra longa noite, e ele ainda não fora para a cama. Bem na hora em que estava saindo do QG da polícia em Kowloon, na véspera, houvera um alvoroço danado por causa de mais um telefonema anônimo avisando que John Chen fora visto nos Novos Territórios, na minúscula aldeia pesqueira de Sha Tau Kwok, que dividia em dois a ponta oriental da fronteira.
Ele correra para lá com uma equipe e revistara a aldeia, choça por choça. A revista tivera que ser feita com muita cautela, pois toda a área da fronteira era muito sensível, especialmente na aldeia, onde havia um dos três postos de controle da fronteira. Os aldeões eram uma turma durona, inflexível e belicosa, que queria ser deixada em paz. Especialmente pela polícia dos demônios estrangeiros. A revista provara ser apenas mais um alarme falso, embora tivessem descoberto dois alam-biques ilegais, uma pequena fábrica de heroína que transformava ópio bruto em morfina, e daí em heroína, e desmantelassem seis antros de jogatina ilegais.
Quando voltara ao QG de Kowloon, soubera de outro telefonema sobre John Chen, desta feita no lado de Hong Kong, em Wanchai, perto do Glessing's Point, na zona das docas. Aparentemente, John Chen fora visto sendo enfiado para dentro de um cortiço, com uma atadura suja cobrindo a orelha direita. Dessa vez, a pessoa que tinha ligado deixara o nome e o número de sua carteira de motorista, para poder reclamar a recompensa de cinqüenta mil HK oferecida pela Struan e pelos Chens da Casa Nobre. Novamente, Armstrong reunira unidades para cercar a área e dirigira a revista meticulosamente. Já eram cinco da madrugada quando cancelara a operação e dispensara os homens.
— Brian, vou direto para a cama — falou. — Que desperdício de outra noite fang-pi.
Brian Kwok também bocejou.
— É. Mas já que estamos deste lado, que tal tomarmos café no Para e depois irmos dar uma espiada nos exercícios matinais?
Imediatamente, quase todo o cansaço de Robert Armstrong se dissipou.
— Grande idéia!
O Restaurante Para, na Wanchai Road, perto do Hipódromo Happy Valley, estava sempre aberto. A comida era excelente, barata, e era um local de encontro costumeiro dos tríades e suas garotas. Quando os dois policiais entraram na sala grande, barulhenta, tumultuada, fez-se um súbito silêncio no ambiente. O proprietário, Ko Um Pé Só, veio mancando até eles, e acompanhou-os com um sorriso até a melhor mesa da casa.
— Dew neh loh moh para você também, Velho Amigo — falou Armstrong, sombriamente, e acrescentou algumas obscenidades escolhidas a dedo em cantonense de sarjeta, fitando intencionalmente o grupo mais próximo de jovens rufiões boquiabertos, que nervosamente lhe viraram as costas.
Ko Um Pé Só riu, mostrando os dentes estragados.
— Ah, senhores, honram o meu pobre estabelecimento. Dim sutn?
— Por que não?
Dim sum — "pequenos alimentos" — eram pequenos envelopes de massa recheados de camarões, legumes moídos ou carnes diversas e depois cozidos ou fritos, e comidos com um pouco de soja, de galinha e outras carnes em vários molhos ou pastéis de todos os tipos.
— Vossas Excelências vão ao prado?
Brian Kwok fez que sim com a cabeça, bebericando seu chá de jasmim, correndo os olhos pelos fregueses, deixando muitos deles nervosos.
— Quem vai ganhar o quinto páreo? — perguntou.
O dono do restaurante hesitou, sabendo que era melhor contar a verdade. Falou cautelosamente, em cantonense:
— Dizem que nem Golden Lady, Noble Star, Pilot Fish ou Butterscotch Lass ainda... ainda não se comentou que um tenha vantagem sobre o outro. — Viu os frios olhos castanho-escuros pousarem nele, e tentou não estremecer. — Por todos os deuses, é o que dizem!
— Ótimo. Virei aqui sábado de manhã. Ou mandarei meu sargento. Então você poderá sussurrar no ouvido dele se há boatos de jogo sujo. É. E se por acaso um desses for dopado ou cortado, e se eu não for informado no sábado de manhã... talvez as suas sopas fiquem apodrecendo por cinqüenta anos.
Um Pé Só sorriu nervosamente.
— Sim, senhor. Deixe-me agora tratar da sua comi...
— Antes de ir, quais as últimas fofocas sobre John Chen?
— Nenhuma. Ah, não há nenhuma, Honrado Senhor — disse o homem, o lábio superior perolado de suor. — O Porto Fragrante está tão limpo de informações sobre ele quanto um tesouro de virgem. Nada, senhor. Nem um peido de cachorro ou um rumor verdadeiro, embora todos estejam procurando. Ouvi dizer que há um grande prêmio extra.
— Como? Quanto?
— Cem mil dólares extras, se for descoberto dentro de três dias.
Os dois policiais soltaram um assobio.
— Oferecidos por quem? — quis saber Armstrong. Um Pé Só deu de ombros, os olhos duros.
— Ninguém sabe, senhor. Dizem que por um dos Dragões... ou todos os Dragões. Cem mil, e promoção, se for dentro de três dias... se for descoberto vivo. Por favor, agora deixe-me ir tratar da sua comida.
Ficaram olhando enquanto ele se afastava.
— Por que pressionou Um Pé Só? — perguntou Armstrong.
— Estou cheio da hipocrisia bajuladora dele... e de todos esses bandidinhos nojentos. A lei do chicote resolveria o nosso problema das tríades.
Armstrong pediu uma cerveja.
— Quando dei duro no sargento Tang-po não pensei que ia ter resultados tão rápidos. Cem mil é um bocado de grana! Isso não pode ser apenas um simples seqüestro. Santo Deus, é recompensa às pampas! Tem que haver algo de especial sobre John.
— É. Se for verdade.
Mas não haviam chegado a nenhuma conclusão, e quando chegaram ao prado Brian Kwok ligara para o QG e agora Armstrong focalizava o binóculo na égua. Butterscotch Lass estava deixando a pista para voltar para cima do morro, para os está-bulos. "Parece em grande forma", pensou. "Todos parecem. Merda, qual deles?"
— Robert?
— Oh, alô, Peter.
Peter Marlowe sorriu para ele.
— Está acordando cedo ou indo dormir tarde?
— Dormindo tarde.
— Notou como Noble Star disparou sem que seu jóquei fizesse nada?
— É bom observador.
Peter Marlowe sorriu, balançou a cabeça e indicou um grupo de homens que rodeavam um dos cavalos.
— Donald McBride me contou.
— Ah! — McBride era um organizador de corridas imensamente popular, um empresário imobiliário eurasiano que viera de Xangai para Hong Kong em 49. — Ele já lhe deu o nome do vencedor? Se alguém souber, esse alguém é ele.
— Não, mas me convidou para o seu camarote, no sábado. Vai correr?
— Mas, o que é isso? Vejo você no camarote dos sócios... eu não transo com a gente bem!
Os dois ficaram observando os cavalos durante algum tempo.
— Golden Lady parece bem.
— Todos parecem.
— Ainda nenhuma notícia de John Chen?
— Nada. — O foco do binóculo de Armstrong pegou Dunross, que conversava com alguns administradores. A pouca distância estava o guarda do sei que Crosse designara para vigiá-lo. "Que chegue logo a sexta-feira!", pensou o policial. "Quanto mais cedo virmos as tais pastas de Alan Medford Grant, melhor." Sentiu-se levemente indisposto, e não conseguiu chegar à conclusão se era de apreensão pelos papéis, pela Sevrin, ou se era apenas fadiga. Já ia estender a mão para pegar um cigarro... deteve-se. "Não precisa de um cigarro", ordenou para si mesmo. — Devia parar de fumar, Peter. Faz mal.