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— É, devia mesmo. Como você está se saindo?

— Sem problema. O que me faz lembrar, Peter, que o Velho aprovou sua viagem pela estrada da fronteira. Depois de amanhã, sexta-feira, seis da manhã em ponto no QG de Kowloon. Está bem?

O coração de Peter Marlowe deu um salto. Finalmente poderia olhar para a China continental, para o desconhecido. Em toda a terra fronteiriça dos Novos Territórios havia apenas um mirante acessível que os turistas podiam usar para olhar para a China, mas a montanha ficava tão longe que não se podia ver grande coisa. Mesmo de binóculo.

— Espetacular! — exclamou, eufórico. Seguindo a sugestão de Armstrong, escrevera para o comissário, solicitando aquela permissão. A estrada da fronteira ia de costa a costa. Era proibida a todo o tráfego e todas as pessoas... exceto os habitantes locais, em certas áreas. Era uma vasta extensão de terra de ninguém, entre a colônia e a China. Uma vez por dia, era patrulhada sob circunstâncias muito controladas. O governo de Hong Kong não tinha nenhuma vontade de balançar o coreto da República Popular da China.

— Uma condição, Peter: não a mencione, nem fale nela por mais ou menos um ano.

— Tem a minha palavra. Armstrong abafou outro bocejo.

— Você vai ser o único ianque que já andou por ela, que talvez jamais andará.

— Fantástico! Obrigado.

— Por que se naturalizou americano?

Depois de uma pausa, Peter Marlowe falou:

— Sou um escritor. Toda a minha renda vem de lá, quase toda ela. Agora, as pessoas estão começando a ler o que escrevo. Talvez eu queira ter o direito de criticar.

— Já esteve em algum país da Cortina de Ferro?

— Ah, já. Estive em Moscou em julho, para o festival de cinema. Um dos roteiros que escrevi foi o do candidato americano. Por quê?

— Por nada — replicou Armstrong, lembrando-se do trânsito livre de Bartlett e Casey para Moscou. Sorriu. — Perguntei por perguntar.

— Um favor merece outro em troca. Ouvi uma fofoca sobre as armas de Bartlett.

— É? — perguntou Armstrong, instantaneamente alerta. Peter Marlowe era uma figura muito rara em Hong Kong, pelo fato de cruzar as barreiras sociais e ser aceito como amigo por muitos grupos normalmente hostis.

— Provavelmente não passa de conversa fiada, mas alguns amigos têm uma teoria...

— Amigos chineses?

— É. Acham que as armas são um carregamento para amostra, destinado a um dos nossos cidadãos piratas chineses, pelo menos, um com passado de contrabandista, para ser entregue a um dos grupos de guerrilheiros que operam no Vietnam do Sul, os vietcongues.

Armstrong resmungou.

— Excesso de imaginação, Peter. Hong Kong não é local para trânsito de armas.

— Sei, mas esse carregamento era especial, o primeiro. Foi encomendado às pressas, para ser entregue às pressas. Já ouviu falar na Força Delta?

— Não — retrucou Armstrong, abismado porque Peter Marlowe já tinha ouvido falar naquilo que Rosemont, da CIA, lhe assegurara sigilosamente que era uma operação ultra-secreta.

— Ao que sei, é um grupo de soldados de combate americanos especialmente treinados, Robert, uma força especial que está operando no Vietnam em pequenas unidades sob o controle do Grupo Técnico Americano, que é um nome sob o qual se oculta a CIA. Parece que estão se saindo tão bem que os vietcongues precisam de armas modernas rapidamente, e em grande quantidade, e estão preparados para pagar generosamente. Assim, essas foram mandadas imediatamente para cá, no avião de Bartlett.

— Ele está envolvido?

— Meus amigos duvidam que esteja — falou, depois de uma pausa. — De qualquer modo, as armas são de uso do exército americano, Robert, certo? Bem, uma vez que esse carregamento fosse aprovado, a entrega em grandes quantidades seria fácil.

— É, como?

— Os Estados Unidos vão fornecer as armas.

— O quê?

— Claro. — A fisionomia de Peter Marlowe endureceu. — É realmente muito simples: digamos que esses guerrilheiros vietcongues soubessem antecipadamente todas as datas exatas dos carregamentos americanos, pontos de destino, quantidades e tipos de armas (desde as menores até foguetes) exatos, quando chegassem ao Vietnam?

— Santo Deus!

— É. Conhece a Ásia. Um pouco de h'eung yan aqui e ali, e os assaltos constantes seriam simples.

— Seria como se eles tivessem suas próprias reservas! — exclamou Armstrong, estupefato. — Como vão ser pagas as armas? Um banco aqui?

Peter Marlowe olhou para ele.

— Ópio a granel. Entregue aqui. Um dos nossos bancos faz o financiamento.

O policial soltou um suspiro. A coisa se encaixava.

— Impecável — comentou.

— É. Um filho da mãe de um traidor nojento nos Estados Unidos simplesmente passa adiante as relações, itinerários, datas. Isso dá ao inimigo todas as armas e a munição de que precisa para acabar com nossos próprios soldados. O inimigo paga pelas armas com um veneno que nada lhe custa... imagino que seja o único artigo vendável que tenha a granel, e que possa adquirir facilmente. O ópio é entregue aqui pelo contrabandista chinês, e convertido em heroína, porque aqui é que eles têm os peritos para isso. Os traidores nos Estados Unidos fazem um trato com a Máfia, que vende a heroína com lucro enorme para mais garotos, e assim subvertem e destroem o bem mais importante que temos: os jovens.

— Como já falei, impecável! O que alguns sacanas não fazem por dinheiro! — Armstrong soltou outro suspiro, e relaxou os ombros. Pensou por um momento. A teoria fazia tudo se encaixar muito direitinho. — O nome Banastasio significa alguma coisa?

— Parece italiano.

Peter Marlowe manteve a fisionomia impassível. Seus informantes eram dois jornalistas portugueses eurasianos que detestavam a polícia. Quando Marlowe lhes perguntara se poderia passar adiante a teoria, Da Vega dissera:

— Claro, mas a polícia jamais acreditará. Não fale em nós, e nem mencione nomes, nem o de Wu Quatro Dedos, Pa Contrabandista, Ching Prosperity, Banastasio, nenhum.

Após uma pausa, Armstrong disse:

— O que mais ouviu dizer?

— Muita coisa, mas por hoje chega... é minha vez de acordar as crianças, fazer o café e mandá-las para a escola. — Peter Marlowe acendeu um cigarro, e de novo Armstrong sentiu dolorosamente a necessidade do fumo nos pulmões. — Exceto uma coisa, Robert. Um membro da imprensa, amigo meu, pediu-me que o avisasse de que ouviu falar numa grande reunião de narcóticos a ser realizada em breve em Macau.

Os olhos azuis se estreitaram.

— Quando?

— Não sei.

— Que espécie de reunião?

— Gente da pesada. "Fornecedores, importadores, exportadores, distribuidores", foi o que ele disse.

— Onde, em Macau?

— Não disse.

— Nomes?

— Nenhum. Mas acrescentou que a reunião incluirá um visitante VIP dos Estados Unidos.

— Bartlett?

— Meu Deus, Robert, não sei! E nem ele falou nisso. Linc Bartlett me parece um sujeito simpático, e corretíssimo. Acho que é tudo fofoca e inveja, tentando implicá-lo.

Armstrong sorriu seu sorriso amarelo.

— Sou apenas um tira desconfiado. Os bandidos existem nas altas esferas, assim como nos esgotos. Peter, meu velho, dê o seguinte recado ao seu amigo jornalista: se quiser me dar uma informação, ligue diretamente para mim.

— Ele tem medo de você. E eu também!

— Tem, uma ova. — Armstrong devolveu-lhe o sorriso, simpatizando com ele, muito satisfeito pela informação e pelo fato de Peter Marlowe ser um intermediário que sabia ficar de boca fechada. — Peter, pergunte-lhe onde em Macau, e quando, e quem e... — Repentinamente, Armstrong deu um tiro no escuro: — Peter, se você fosse escolher o melhor lugar da colônia para a entrada e saída de contrabando, qual seria?