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— Aberdeen, ou a baía Mirs. Qualquer tolo sabe disso... são os locais que sempre foram usados primeiro, desde que existe Hong Kong.

Armstrong soltou um suspiro.

— Concordo...

"Aberdeen", pensou. "Qual contrabandista de Aberdeen? Qualquer um entre duzentos. Wu Quatro Dedos seria a primeira escolha. Quatro Dedos, com seu grande Rolls negro e chapa de sorte número 8, aquele maldito capanga Tok Duas Machadinhas e aquele seu jovem sobrinho, o que tem o passaporte ianque, o tal de Yale. É mesmo Yale? Quatro Dedos seria a primeira escolha. Depois Poon Bom Tempo, Pa Contrabandista, Ta Sap-fok, Pok Pescador... Deus, a lista é interminável, e só daqueles que conhecemos. Na baía Mirs, a nordeste dos Novos Territórios? Os Irmãos Pa, Fang Bocarra e mil outros..."

— Bem — falou, satisfeitíssimo agora pela informação... algo incomodando-o sobre Wu Quatro Dedos, embora nunca tivesse havido nenhum boato de que estava envolvido com heroína. — Um favor merece outro: diga ao seu amigo jornalista que nossos deputados visitantes, a delegação comercial, chegam hoje de Pequim... O que há?

— Nada — disse Peter Marlowe, tentando manter a fisionomia desanuviada. — O que estava dizendo?

Armstrong observou-o atentamente, depois acrescentou:

— A delegação chega no trem da tarde de Cantão. Estará na fronteira, trocando de trem, às quatro horas e trinta e dois minutos... soubemos da mudança de planos ontem à noite. Talvez seu amigo possa conseguir uma entrevista exclusiva. Parece que os deputados fizeram grandes progressos.

— Obrigado. Em nome do meu amigo. È, obrigado. Direi a ele imediatamente. Bem, tenho que ir andando...

Brian Kwok vinha caminhando apressado na direção deles.

— Alô, Peter. — Estava ofegante. — Robert, desculpe, mas Crosse quer nos ver imediatamente.

— Puta que o pariu! — disse Armstrong, cansado. — Disse a você que era melhor esperar um pouco antes de ligar para lá. Aquele sacana nunca dorme. — Esfregou o rosto para afastar a fadiga, os olhos vermelhos. — Apanhe o carro, Brian. Vou encontrá-lo na porta da frente.

— Certo.

Brian Kwok afastou-se rapidamente. Perturbado, Armstrong acompanhou-o com o olhar. Peter Marlowe falou, brincalhão:

— A prefeitura está pegando fogo?

— No nosso ramo a prefeitura está sempre pegando fogo, rapaz, em alguma parte. — O policial examinou Peter Marlowe.

— Antes de partir, Peter, gostaria de saber o que há de tão importante na delegação comercial para você.

Depois de uma pausa, o homem dos olhos curiosos falou: — Conheci um deles durante a guerra. Tenente Robin Grey. Foi o chefe da polícia militar de Changi nos dois últimos anos. — Sua voz estava seca, mais seca e gelada do que Armstrong imaginara ser possível. — Eu o odiava e ele me odiava. Só espero não encontrá-lo, isso é tudo.

Do outro lado do círculo dos vencedores, Gornt acompanhava Armstrong pelo binóculo, enquanto este ia atrás de Brian Kwok. Depois, pensativo, voltou a focalizar Peter Marlowe, que se dirigia para um grupo de treinadores e jóqueis.

— Sacana abelhudo! — disse Gornt.

— Hem? Quem? Ah, Marlowe? — Sir Dunstan Barre deu uma risadinha. — Não é abelhudo, só quer saber tudo sobre Hong Kong. É o seu passado negro que o fascina, meu velho. O seu e o do tai-pan.

— Você não tem nenhum segredo a esconder, Dunstan? — perguntou Gornt suavemente. — Está dizendo que você e sua família são imaculados?

— Deus me livre! — Barre ficou rapidamente afável, tentando transformar o súbito veneno de Gornt em mel. — Santo Deus, não! Risque o verniz de um inglês e encontrará um pirata. Somos todos suspeitos! É a vida, não é?

Gornt ficou calado. Desprezava Barre, mas precisava dele.

— Vou dar uma festinha no meu iate no domingo, Dunstan. Quer vir? Creio que achará interessante.

— É? Quem é o convidado de honra?

— Pensei em convidar só os homens... nada de mulheres, certo?

— Ah, pode contar comigo — disse Barre prontamente, animando-se. — Mas não posso levar uma amiguinha?

— Leve duas, se quiser, meu velho, quanto mais, melhor. Será um grupo pequeno, seleto, seguro. Plumm é um cara legal, e a garota dele é muito divertida. — Gornt viu Marlowe mudar de direção quando foi chamado por um grupo de administradores e organizadores dominado por Donald McBride. Depois, num súbito impulso, acrescentou: — Acho que também vou convidar Marlowe.

— Por quê, se o acha abelhudo?

— Pode ser que se interesse pelas histórias reais sobre os Struans, os nossos piratas fundadores e os dos dias de hoje.

Gornt sorriu apenas com o rosto, e Barre se perguntou que safadeza Gornt estaria planejando. O homem do rosto vermelho enxugou a testa.

— Deus, gostaria que chovesse. Sabia que Marlowe voou com os Hurricanes... derrubou três malditos boches na Batalha da Inglaterra, antes de ser mandado para Cingapura e toda aquela desgraça? Jamais perdoarei aos malditos japoneses pelo que fizeram aos nossos rapazes ali, aqui ou na China.

— Nem eu — concordou Gornt, com ar sombrio. — Sabia que meu velho esteve em Nanquim em 37, durante a pilhagem de Nanquim?

— Não. Deus, como saiu de lá?

— Alguns dos nossos conhecidos o esconderam durante alguns dias... há gerações que tínhamos associados ali. Depois, ele fingiu para os japoneses que era um correspondente amistoso do Times de Londres, e conseguiu voltar a Xangai com esse argumento. Ainda tem pesadelos com isso.

— Por falar em pesadelos, meu velho, estava tentando fazer com que Ian tivesse um, ontem à noite, aparecendo na festa dele?

— Acha que ele acertou as contas, mexendo no meu carro?

— Como? — Barre ficou abismado. — Santo Deus! Quer dizer que alguém mexeu no seu carro?

— O cilindro-mestre foi quebrado por alguma espécie de golpe. O mecânico falou que poderia ter sido feito com uma pedra que se chocasse com ele.

Barre fitou-o e sacudiu a cabeça.

— Ian não é um tolo. É louco, mas não é nenhum tolo. Isso seria tentativa de assassinato.

— Não seria a primeira vez.

— Se eu fosse você, não diria uma coisa dessas em público, meu velho.

— Você não é o público, meu velho. É?

— Não. Natural...

— Ótimo. — Gornt fixou nele os olhos escuros. — Esta é uma época em que os amigos devem se manter unidos.

— É? — Barre pôs-se em guarda, imediatamente.

— É. O mercado está muito nervoso. Essa confusão com o Ho-Pak pode atrapalhar um bocado os nossos planos.

— As minhas fazendas de Hong Kong e Lan Tao são tão sólidas quanto o Pico.

— É, desde que seus banqueiros suíços continuem a lhe conceder sua nova linha de crédito.

O rosto rosado de Barre empalideceu.

— Como?

— Sem o empréstimo deles você não poderá assumir o controle das Docas e Cais Hong Kong, da Real Seguros de Hong Kong e Malásia, expandir para Cingapura ou completar diversas outras transações escusas que tem na sua agenda... você e seu novo amigo, Mason Loft, o menino prodígio da Threadneedle Street. Certo?

Barre fitou-o, com o suor frio escorrendo pelas costas, chocado por Gornt saber dos seus segredos.

— Onde ouviu contar isso? Gornt deu uma risada.

— Tenho amigos nas altas esferas, meu velho. Não se preocupe, seu calcanhar-de-aquiles está a salvo comigo.

— Não estamos... não estão em perigo?

— Claro que não. — Gornt dirigiu o binóculo para o seu cavalo. — Ah, a propósito, Dunstan, posso precisar do seu voto na próxima assembléia.

— Para quê?

— Ainda não sei. — Gornt baixou os olhos para ele. — Só preciso saber que posso contar com você.

— Sim, claro. — Barre se perguntava nervosamente o que Gornt pretendia e onde estava o "vazamento". — Tenho sempre prazer em colaborar, meu velho.

— Obrigado. Está vendendo Ho-Pak a descoberto?