— Claro. Saquei todo o meu dinheiro ontem, graças a Deus. Por quê?
— Ouvi dizer que o negócio de Dunross com a Par-Con vai furar. Estou pensando em vender as ações dele a descoberto, também.
— É? O negócio vai furar? Por quê? Gornt sorriu sardonicamente.
— Porque, Dunstan...
— Alô, Quillan, Dunstan, desculpe interromper — disse Donad McBride, aproximando-se deles, trazendo junto dois homens. — Deixem-me apresentar-lhes o Sr. Charles Biltzmann, vice-presidente da American Superfoods. Vai dirigir a nova fusão General Stores-Superfoods, sediada na colônia, daqui para a frente. Sr. Gornt e Sir Dunstan Barre.
O americano alto, de cabelos cor de areia, usava terno e gravata cinza e óculos sem aro. Estendeu a mão, amavelmente.
— Prazer em conhecê-los. Pradozinho simpático vocês têm aqui.
Gornt apertou a mão do outro, sem entusiasmo. Ao lado de Biltzmann estava Richard Hamilton Pugmire, o atual tai-pan da General Stores de Hong Kong, um dos administradores do Turf Club, um homem baixo e arrogante de quarenta e muitos anos, que ostentava sua baixa estatura como um desafio constante.
— Alô, vocês dois! Bem, quem vai ganhar o quinto? Gornt parecia um gigante ao lado dele.
— Digo a você depois do páreo.
— Ora, qual é, Quillan? Você sabe que o resultado já estará definindo antes de os cavalos desfilarem.
— Se puder provar isso, estou certo de que todos gostaremos de saber. Eu pelo menos gostaria. E você, Donald?
— Tenho certeza de que Richard estava só brincando — replicou Donald McBride. Estava na casa dos sessenta, tinha feições eurasianas agradáveis, e o calor do seu sorriso era penetrante. Acrescentou para Biltzmann: — Sempre existem esses boatos sobre corridas com cartas marcadas, mas fazemos o que podemos, e quando pegamos alguém... cortamos-lhe a cabeça! Pelo menos, expulsamo-lo das pistas.
— Que diabo, as corridas também são "arranjadas" nos Estados Unidos, mas acho que aqui, onde têm o status amador, fica tudo mais fácil — falou Biltzmann, despreocupadamente. — Aquele seu garanhão, Quillan. É australiano, pedigree parcial, não é?
— É — retrucou Gornt abruptamente, detestando a familiaridade dele.
— Don estava me explicando algumas das regras das suas corridas. Gostaria muito de fazer parte da sua irmandade de corridas... espero poder ser sócio votante, também.
O Turf Club era muito exclusivo e fortemente controlado. Havia duzentos sócios votantes e quatro mil não-votantes. Apenas os sócios votantes podiam entrar no camarote dos sócios. Apenas os sócios votantes podiam possuir cavalos. Apenas os sócios votantes podiam propor duas pessoas por ano como sócios não-votantes. E a decisão dos administradores, fosse ela pela aprovação ou não, era definitiva, e a votação, secreta. E apenas sócios votantes podiam ser administradores.
— É — repetiu Biltzmann —, seria legal.
— Tenho certeza de que se pode dar um jeito nisso falou McBride, com um sorriso. — O clube está sempre procurando sangue novo... e cavalos novos.
— Pretende ficar em Hong Kong, Sr. Biltzmann? — perguntou Gornt.
— Chame-me de Chuck. Vou ficar aqui o tempo que for preciso — replicou o americano. — Suponho que sou o novo tai-pan da Superfoods da Ásia. Legal, não é?
— Maravilhoso! — disse Barre, ironicamente.
Biltzmann continuou alegremente, ainda não habituado ao sarcasmo inglês:
— Sou o bode expiatório da nossa diretoria em Nova York. Como disse o homem de Missouri, a transferência das responsabilidades acaba aqui. — Sorriu, mas ninguém sorriu com ele. — Vou passar pelo menos dois anos aqui, e estou ansiando por cada minuto. Estamos nos preparando para nos instalar imediatamente. Minha noiva chega amanhã e...
— É recém-casado, Sr. Biltzmann?
— Oh, não, isso é só uma expressão americana. Estamos casados há dois anos. Logo que nossa nova casa estiver arrumada a seu gosto, teríamos prazer em recebê-los para jantar. Quem sabe um churrasco? Já temos tudo bem organizado, as melhores carnes virão dos Estados Unidos de avião, uma vez por mês. E batatas de Idaho — acrescentou, com orgulho.
— Parabéns pelas batatas — disse Gornt, e os outros se acomodaram, esperando, sabendo que ele desprezava a cozinha americana, especialmente churrascos, hambúrgueres e "batatas assadas amanteigadas", como se referia a elas. — Quando a fusão será assinada?
— No fim do mês. Nossa proposta foi aceita. Tudo já está acertado. Espero realmente que nosso know-how americano se adapte a esta ilhazinha formidável.
— Suponho que vão construir uma mansão...
— Não, senhor. Dickie — continuou Blitzmann, e todos se crisparam — arranjou para nós a cobertura do apartamento da companhia na Blore Street. Portanto, estamos numa boa.
— É conveniente — comentou Gornt. Os outros sufocaram o riso. A mais antiga e mais famosa das casas de tolerância da colônia sempre fora na Blore Street, no número 1. O negócio do número 1 da Blore Street fora iniciado por uma das "garotas" da sra. Fotheringill, Nellie Blore, nos anos 1860, com dinheiro dado por Culum Struan, ao que constava, e ainda operava segundo os regulamentos originais: senhoras européias e australianas somente, e não se permitia a entrada de nativos ou cavalheiros estrangeiros. — Muito conveniente — repetiu Gornt —, mas não sei se você se enquadraria.
— Senhor?
— Nada, estou certo de que a Blore Street está bem de acordo.
— Uma linda vista, mas os encanamentos não prestam — disse Biltzmann. — Minha noiva dará um jeito nisso.
— Ela também é encanadora? — perguntou Gornt. O americano achou graça.
— Claro que não. Mas é muito jeitosa com as coisas da casa.
— Se me dá licença, tenho que ir ver meu treinador. — Gornt cumprimentou os outros com um gesto de cabeça e afastou-se, dizendo: — Donald, tem um momentinho? É sobre o sábado.
— Claro, até já, Sr. Bützmann.
— Pois não. Mas chame-me de Chuck. Tenha um bom dia. McBride emparelhou com Gornt. Quando estavam a sós,
Gornt falou:
— Não está falando a sério quando sugere que ele seja sócio votante, não é?
— Bem, estou sim. — McBride parecia constrangido. — É a primeira vez que uma grande companhia americana faz uma oferta para vir para Hong Kong. Ele seria muito importante para nós.
— Isso não é motivo para metê-lo aqui, é? Façam dele um sócio não-votante. Assim, poderá ir para as tribunas. E se você quiser convidá-lo para o seu camarote, problema seu. Mas um sócio votante? Santo Deus! Provavelmente escolherá "Superfoods" para as suas cores!
— Ele é novo, está desambientado, Quillan. Estou certo de que vai aprender. É um sujeito decente, embora cometa lá suas gafes. É muito rico e...
— E desde quando o dinheiro funcionou como "abre-te Sésamo" para o Turf Club? Santo Deus, Donald, se fosse assim, cada chinês novo-rico que tivesse ganho uma fortuna jogando no mercado imobiliário ou na Bolsa iria cair em cima de nós. Não íamos ter espaço nem para peidar.
— Não concordo. Quem sabe a solução seja aumentar o número de sócios votantes.
— Não, de modo algum. É claro que vocês, administradores, farão o que quiserem. Mas sugiro que reconsiderem.
Gornt era sócio votante, mas não administrador. Os duzentos sócios votantes elegiam anualmente os doze administradores e organizadores por voto secreto. A cada ano o nome de Gornt era colocado na lista aberta de candidatos a administrador, e a cada ano não conseguia obter os votos suficientes. A maioria dos administradores era reeleita pelos sócios automaticamente até se aposentarem, embora de quando em vez houvesse campanha eleitoral.
— Pois bem — falou McBride —, quando o nome dele for proposto, mencionarei que você se opõe.
Gornt deu um débil sorriso.
— Isso eqüivalerá a elegê-lo.
McBride deu uma risadinha.
— Acho que não, Quillan, não desta vez. Pug me pediu que o apresentasse às pessoas, e tenho que admitir que ele só dá mancada. Apresentei-o a Paul Havergill, e Biltzmann começou imediatamente a comparar os métodos bancários daqui com os dos Estados Unidos, e de um modo nada agradável. E com o tai-pan... — As sobrancelhas grisalhas de McBride ergueram-se bem alto — falou que tinha muito prazer em conhecê-lo, já que queria saber sobre a Bruxa Struan e Dirk Struan e todos os outros piratas e contrabandistas de ópio do seu passado! — Soltou um suspiro. — Ian e Paul na certa lhe darão bola preta. Portanto creio que você não precisa se preocupar. Não consigo entender por que Pug se associou a eles, afinal de contas.