— Porque não é o pai. Desde que o velho Sir Thomas morreu que a General Stores vem caindo. Apesar disso, Pug ganha seis milhões de dólares americanos pessoalmente, e tem um contrato inviolável de cinco anos; assim, tem todos os prazeres, nenhuma dor de cabeça, e a família está protegida. Quer se aposentar, ir para a Inglaterra, Ascot e tudo o mais.
— Ah, é um belo negócio para o velho Pug! — McBride ficou mais sério. — Quillan, o quinto páreo... o interesse é enorme. Estou preocupado de que haja interferência. Vamos aumentar a vigilância sobre os cavalos. Fala-se em...
— Em doping?
— É.
— Sempre há quem fale, e sempre haverá quem tente. Acho que os administradores fazem um belo trabalho.
— Os administradores concordaram, ontem à noite, em criar uma nova regra: no futuro haverá uma análise química obrigatória antes e depois de cada corrida, como fazem nos principais hipódromos da Inglaterra ou dos Estados Unidos.
— A tempo para o sábado? Como vão arranjar isso?
— O dr. Meng, patologista da polícia, concordou em ser responsável... até podermos obter um perito.
— Boa idéia — falou Gornt. McBride soltou um suspiro.
— É, mas o Poderoso Dragão não pode competir com a Serpente Local.
Virou-se e foi embora.
Gornt hesitou, depois foi até junto do seu treinador, que estava ao lado de Pilot Fish, conversando com o jóquei, outro australiano, Bluey White. Bluey White era ostensivamente o gerente de uma das divisões de navegação de Gornt... título que servia para manter sua condição de amador.
— Bom dia, Sr. Gornt — disseram. O jóquei tocou a ponta do topete.
— Bom dia. — Gornt olhou para eles por um momento, depois disse, serenamente: — Bluey, se você ganhar, terá uma bonificação de cinco mil. Se terminar atrás de Noble Star, está despedido.
O homenzinho rijo empalideceu.
— Sim, patrão.
— É melhor ir se trocar, agora — falou Gornt, para que se afastasse.
— Vou ganhar — dizia Bluey "White, enquanto ia embora.
O treinador falou, constrangido:
— Pilot Fish está em muito boa forma, Sr. Gornt. Vai tenta...
— Se Noble Star ganhar, você está despedido. Se Noble Star terminar na frente de Pilot Fish, você está despedido.
— Puxa vida, Sr. Gornt! — O homem enxugou o repentino suor que lhe cobrira a boca. — Não sou eu quem "arruma" quem vai...
— Não estou lhe sugerindo que faça nada. Só estou lhe dizendo o que vai acontecer com você.
Gornt fez um aceno afável de cabeça, e se afastou. Foi para o restaurante do clube, que dava para a pista, e pediu o seu desjejum predileto, ovos Benedict com o molho especial que guardavam para o seu uso exclusivo, e o café javanês que ele também fornecia.
Quando estava tomando a terceira xícara de café, o garçom se aproximou.
— Com licença, senhor, chamam-no ao telefone. Foi até o telefone.
— Gornt.
— Alô, Sr. Gornt, aqui é Paul Choy... o sobrinho do Sr. Wu... espero não estar incomodando.
Gornt disfarçou a surpresa.
— Está telefonando um tanto cedo, Sr. Choy.
— Sim, senhor, mas quis chegar cedo no primeiro dia — falou o rapaz, aos borbotões —, portanto eu era o único que estava aqui, há uns dois minutos, quando o telefone tocou. Era o Sr. Bartlett, Linc Bartlett, sabe, o tal das armas contrabandeadas, o milionário.
Gornt ficou espantado.
— Bartlett?
— É, sim, senhor. Disse que queria falar com o senhor, insinuou que era um tanto urgente, disse que já ligara para a sua casa. Juntei dois e dois e cheguei à conclusão de que o senhor deveria estar assistindo aos exercícios, e que era melhor eu me mexer. Espero não estar incomodando.
— Não. O que foi que ele disse? — indagou Gornt.
— Só que lhe queria falar. Perguntou se o senhor estava na cidade. Falei que não sabia, mas que ia me informar, deixar recado e depois ligar para ele.
— De onde ele estava falando?
— Do Victoria. Kowloon 662233, ramal 773... é o ramal do seu escritório, não da suíte.
Gornt ficou muito impressionado.
— Em boca fechada não entra mosca, Sr. Choy.
— Deus, Sr. Gornt, isso é uma coisa com que nunca precisa se preocupar — disse Paul Choy, fervorosamente. — Meu velho Tio Wu enfiou isso a muque na cabeça da gente.
— Ótimo. Obrigado, Sr. Choy. Até breve.
— Sim, senhor.
Gornt desligou, pensou um momento, depois ligou para o hotel.
— 773, por favor.
— Linc Bartlett.
— Bom dia, Sr. Bartlett, aqui é o Sr. Gornt. Estou às ordens.
— Ei, obrigado por responder ao meu telefonema. Soube de notícias perturbadoras que se encaixam naquilo que estivemos discutindo.
— É?
— É. As Indústrias de Navegação Toda significam alguma coisa para o senhor?
O interesse de Gornt cresceu vertiginosamente.
— A Toda é um imenso conglomerado japonês, estaleiros, siderúrgicas, engenharia pesada. A Struan tem um negócio de dois navios com eles, grandes cargueiros, se não me engano. Por quê?
— Parece que a Toda tem algumas promissórias da Struan, seis milhões de dólares em três prestações, que vencem nos dias 1.°, 11 e 15 do mês que vem, e mais outros seis em noventa dias. Há também outros seis milhões e oitocentos mil que vencem no dia 8, para o Orlin International Bank... conhece-os?
Com um grande esforço, Gornt manteve o tom de voz natural.
— É, ouvi falar neles — disse, abismado de que o americano soubesse tais detalhes das dívidas. — E daí? — perguntou.
— Daí soube que a Struan tem apenas um milhão e trezentos mil em dinheiro, sem reserva alguma, e sem fluxo de caixa suficiente para efetuar o pagamento. Não estão esperando um volume de renda significativo até obterem dezessete milhões, como sua parte em um dos negócios imobiliários da Investimentos Kowloon, e isso só em novembro, e já ultrapassaram vinte por cento dos seus limites no Victoria Bank.
— Isso... isso é estar muito por dentro — falou Gornt, com voz ofegante, o coração disparando no peito, sentindo o colarinho apertado. Sabia sobre a conta bancária a descoberto em vinte por cento. Plumm lhe contara, todos os diretores deviam saber. Mas não os detalhes da disponibilidade em dinheiro deles, nem do seu fluxo de caixa. — Por que está me contando isso, Sr. Bartlett?
— Qual é a sua liquidez?
— Já lhe disse, sou vinte vezes mais forte do que a Struan — falou automaticamente, a mentira saindo com facilidade, remoendo a oportunidade maravilhosa que toda essa informação lhe abria. — Por quê?
— Se eu for em frente no negócio com a Struan, ele estará usando o meu pagamento à vista para se livrar dos apertos com a Toda e o Orlin... se o seu banco não lhe aumentar o crédito.
— O Vic o apoiará?
— Sempre o fez. Por quê?
— Se não o fizer, ele estará com a corda no pescoço.
— A Struan é uma acionista substancial. O banco é obrigado a apoiá-la.
— Mas ele já sacou a descoberto no banco, e Havergill o odeia. Juntando as ações de Chen, da Struan e dos seus representantes, detêm vinte e um por cento...
Gornt quase deixou cair o aparelho.
— Que diabo, onde arranjou essa informação? Ninguém de fora poderia saber disso!
— É isso aí — ouviu o americano responder calmamente —, mas é verdade. Você poderia reunir os outros setenta e nove por cento?