— O quê?
— Se eu tivesse um sócio que pudesse colocar o banco contra ele, só desta vez, e ele não conseguisse obter crédito noutro lugar... abrindo o jogo: é uma questão de oportunidade. Dunross passou exageradamente dos limites, o que significa que está vulnerável. Se seu banco não lhe der crédito, terá que vender alguma coisa... ou obter uma nova linha de crédito. Em qualquer dos casos, está completamente vulnerável a um ataque e no ponto para uma compra de controle a preço de liquidação.
Gornt enxugou a testa, a cabeça rodando.
— Que diabo, onde arranjou todas essas informações?
— Depois, não agora.
— Quando?
— Quando chegarmos aos detalhes finais.
— Tem... tem mesmo certeza de que seus dados estão corretos?
— Tenho. Temos as folhas do balanço geral deles dos últimos sete anos.
A contragosto, Gornt soltou uma exclamação abafada.
— É impossível!
— Quer apostar?
Gornt agora estava abaladíssimo, e tentou pôr a mente para funcionar. "Seja cuidadoso", avisou a si mesmo. "Pelo amor de Deus, controle-se."
— Se... se tem tudo isso, se sabe isso, e se obtiver uma última coisa... a estrutura corporativa encadeada deles, se você soubesse isso, poderíamos fazer qualquer coisa que quiséssemos com a Struan.
— Também temos isso. Quer entrar no jogo?
Gornt ouviu-se respondendo calmamente, embora não se sentisse nada calmo.
— Mas claro! Quando poderíamos nos encontrar? Na hora do almoço?
— Que tal agora? Mas não aqui, nem no seu escritório. Temos que manter muita discrição.
O coração de Gornt doía dentro do peito. Sentia um gosto de estragado na boca, e perguntava-se até onde poderia realmente confiar em Bartlett.
— Posso... posso mandar um carro apanhá-lo. Poderíamos conversar no carro.
— Boa idéia, mas por que não o encontro no lado de Hong Kong? No Terminal da Balsa Dourada, dentro de uma hora.
— Excelente. Meu carro é um Jaguar... placa 8888. Estarei junto ao ponto de táxis.
Desligou e ficou olhando para o telefone por um momento, depois voltou para a mesa.
— Não foram más notícias, espero, Sr. Gornt.
— Ah, não, não mesmo. Obrigado.
— Mais um pouco do seu café especial? Foi feito agora.
— Não, não, obrigado. Quero uma meia garrafa de Taittinger Blanc de Blancs. De 55.
Recostou-se na cadeira, sentindo-se estranhíssimo. Seu inimigo estava quase nas suas mãos... se os fatos do americano fossem verídicos, e se o americano fosse de confiança, e não estivesse metido em alguma trama diabólica com Dunross.
O vinho chegou, mas ele mal o provou. Todo o seu ser estava concentrado, peneirando as coisas, preparando-se.
Gornt viu o americano alto cruzar a multidão, e por um momento invejou-lhe o corpo esbelto, em forma, e o modo esportivo e informal como se vestia (jeans, camisa desabotoada, paletó esporte) e sua evidente confiança. Viu a máquina fotográfica complicada, deu um sorriso sardônico, depois procurou Casey. Quando ficou evidente que Bartlett estava sozinho, ficou desapontado. Mas esse desapontamento não maculou a gloriosa expectativa que tomara conta dele desde que desligara o telefone.
Gornt debruçou-se e abriu a porta lateral.
— Bem-vindo ao lado de Hong Kong, Sr. Bartlett — disse com jovialidade forçada, dando partida no carro. Seguiu pela Gloucester Road, na direção do Glessing's Point e do Yacht Club. — As suas informações confidenciais são espantosas.
— Não se pode trabalhar sem espiões, não é mesmo?
— Pode-se, mas é trabalho de amador. Como vai a srta. Casey? Pensei que viria com você.
— Não está por dentro disso. Ainda não.
— É?
— É. Não, não está por dentro do ataque inicial. É mais valiosa se não souber de nada.
— Ela não está sabendo de nada disso? Nem do seu telefonema para mim?
— Não. De nada.
Depois de uma pausa, falou:
— Pensei que ela fosse a sua vice-presidente-executiva!... seu braço direito, foi como a chamou.
— E é, mas eu sou o patrão da Par-Con, Sr. Gornt. Gornt viu os olhos serenos, e, pela primeira vez, sentiu que isso era verdade, e que sua suposição inicial estava errada.
— Nunca duvidei disso — falou, esperando, os sentidos aguçados, de sobreaviso.
Então, Bartlett falou:
— Há algum lugar em que possamos estacionar... tenho algo para lhe mostrar.
— Por certo.
Gornt guiava pela Gloucester Road, à beira-mar, no tráfego cerrado de costume. Num momento encontrou um local para estacionar, perto do abrigo contra tufões da baía Cause-way, com suas ilhas flutuantes e amontoadas de barcos de todos os tamanhos.
— Tome.
Bartlett entregou-lhe uma pasta de documentos. Continha uma cópia detalhada do balanço geral do ano anterior àquele em que a companhia se tornara de capital aberto. Os olhos de Gornt percorreram rapidamente os números.
— Santo Deus! — murmurou. — Com que então o Lasting Cloud custou-lhes doze milhões!
— Quase os levou à falência. Parece que tinham todo tipo de carga maluca a bordo. Motores a jato para a China, que não estavam no seguro.
— Claro que não estariam no seguro... que diabo, como se pode pôr contrabando no seguro? — Gornt estava tentando entender todos aqueles números complicados. Estava atordoado. — Se eu tivesse sabido de metade disso, tê-los-ia apanhado da última vez. Posso ficar com ela?
— Quando tivermos fechado negócio, eu lhe darei uma cópia. — Bartlett pegou a pasta de volta, e entregou-lhe um papel. — Que tal este aqui?
Ele mostrava, graficamente, os investimentos em ações da Struan na Investimentos Kowloon, e detalhava como, através de representantes, o tai-pan da Struan exercia controle completo sobre a imensa companhia de seguros, propriedades e desembarcadouros que era, supostamente, uma companhia completamente independente e citada como tal na Bolsa.
— Maravilhoso — disse Gornt, com um suspiro, assombrado com a beleza da coisa. — A Struan possui abertamente apenas uma pequenina parcela das ações, mas retém cem por cento do controle, e sigilo perpétuo.
— Nos Estados Unidos, quem bolasse uma coisa dessas estaria na cadeia.
— Graças a Deus as leis de Hong Kong não são as mesmas, e tudo isso é perfeitamente legal, embora um tanto tortuoso.
Os dois homens riram. Bartlett embolsou o papel.
— Tenho detalhes semelhantes do resto dos bens deles.
— Falando francamente, o que tem em mente, Sr. Bartlett?
— Um ataque conjunto à Struan, a partir de hoje. Uma
Blitzkrieg. Racharemos meio a meio todo o espólio. Você fica com a Casa Grande no Pico, o prestígio, o iate... e cem por cento do camarote do Turf Club, inclusive o posto de administrador.
Gornt olhou para ele, vivamente. Bartlett sorriu.
— Sabemos como isso é importante para você. Mas todo o resto será rachado ao meio.
— Exceto as operações deles em Kai Tak. Preciso delas para a minha companhia de aviação.
— Está certo. Mas então eu quero a Investimentos Kowloon.
— Não — disse Gornt, pondo-se imediatamente em guarda. — Temos que rachar isso meio a meio, e tudo meio a meio.
— Não. Você precisa de Kai Tak, eu preciso da Investimentos Kowloon. Será um grande núcleo para o salto da Par-Con na Ásia.
— Por quê?
— Porque todas as grandes fortunas em Hong Kong têm por base os bens imóveis. A IK me dará uma base perfeita.
— Para novas incursões?
— Claro — respondeu Bartlett, calmamente. — Seu amigo Jason Plumm é o seguinte da lista. Podíamos engolir facilmente as suas Propriedades Asiáticas. Meio a meio. Certo?
Gornt ficou calado por um longo tempo.
— E depois dele?
— As Fazendas Hong Kong e Lan Tao.
O coração de Gornt deu novo salto. Sempre odiara Dun-stan Barre, e esse ódio fora triplicado no ano passado, quando Barre fora feito cavaleiro na Lista de Honra do Aniversário da Rainha — uma honraria conseguida, Gornt tinha certeza, com contribuições criteriosas para o fundo do Partido Conservador.