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— E como você o engoliria?

— Há sempre uma hora em que qualquer exército, qualquer país, qualquer companhia fica vulnerável. Todo general ou presidente de companhia tem que se arriscar, numa hora qualquer, para continuar na frente. É preciso, para continuar na frente. Há sempre algum inimigo mordendo-lhe os calcanhares, desejando o que é seu, querendo o seu lugar ao sol, querendo o seu território. É preciso ter cuidado, quando se está vulnerável.

— Você está vulnerável agora?

— Não. Estive, faz dois anos, mas não agora. Agora tenho a força de que preciso... de que precisamos. Se você topar.

Um bando de aves marinhas mergulhava, ondulava e crocitava, acima deles.

— O que quer que eu faça?

— Você é o batedor, o ponta de lança. Eu defendo a retaguarda. Depois que você tiver aberto um buraco nas defesas dele, eu entro com o golpe do nocaute. Vendemos as ações da Struan a descoberto... imagino que tenha assumido uma posição quanto ao Ho-Pak.

— Vendi a descoberto, sim. Modestamente. Gornt contou tranqüilamente a mentira.

— Ótimo. Nos Estados Unidos, a gente poderia fazer com que os contadores deles "vazassem" os dados do fluxo de caixa para o falastrão certo. Logo a cidade inteira saberia. A mesma coisa não funcionaria aqui?

— Provavelmente. Mas você jamais conseguiria que os contadores deles fizessem isso.

— Nem pela quantia certa?

— Não. Mas pode-se dar início aos boatos. — Gornt deu um sorriso sombrio. — É muito ruim da parte de Dunross ocultar sua posição inepta dos seus acionistas. É. Isso seria possível. E depois?

— Você vende ações da Struan a descoberto, logo que a Bolsa abrir. Em grande quantidade.

Gornt acendeu um cigarro.

— Eu vendo a descoberto. E você, o que faz?

— Nada, abertamente. Esse será o nosso ás na manga.

— Talvez seja realmente, e eu esteja bancando o otário — falou Gornt.

— E se eu cobrir todos os prejuízos? Seria prova suficiente de que estou com você?

— Como?

— Eu pago todos os prejuízos e fico com a metade do lucro de hoje, amanhã e sexta-feira. Se ele não estiver desesperado até sexta-feira à tarde, você volta a comprar, pouco antes da hora de fechar, e nós falhamos. Se estiver parecendo que o pegamos, vendemos até o limite, pouco antes da hora de fechar. Isso o fará passar um mau pedaço no fim de semana. Na segunda, puxo o tapete de sob os pés dele, e começa a nossa Blitzkrieg. É infalível.

— É. Se você for digno de confiança.

— Depositarei dois milhões de dólares em qualquer banco suíço que você indique, até as dez horas de hoje. São dez milhões de HK, que dão de sobra para cobrir suas perdas nas vendas a descoberto. Dois milhões, limpinhos, sem documento, sem nota promissória, só sua palavra, que são para cobrir quaisquer prejuízos, e que, se ganharmos, rachamos os lucros, e o resto do negócio, como combinado... meio a meio, exceto a Investimentos Kowloon para mim, a Struan do aeroporto Kai Tak para você, e para Casey e eu, títulos de sócios votantes no Turf Club. Poremos tudo no papel na terça-feira... depois que ele tiver desabado.

— Você depositará dois milhões de dólares americanos, e a decisão é minha de quando comprar para cobrir quaisquer prejuízos?

Gornt estava incrédulo.

— É. Dois milhões é o quanto vou arriscar. Assim, como pode você sair machucado? Não pode. E como ele sabe o que você sente a seu respeito, não ficará desconfiado se você comandar o ataque, não estará preparado para uma blitz lateral da minha parte.

— Isso tudo depende de seus números estarem corretos, tanto as quantias quanto as datas.

— Verifique-as você mesmo. Tem que haver um jeito de você fazer isso... ao menos para se convencer.

— Por que a súbita mudança, Sr. Bartlett? Disse que esperaria até terça-feira... talvez mais tarde.

— Andamos fazendo umas verificações, e não gostei dos números que apareceram. Não devemos nada a Dunross. Seríamos malucos de nos unirmos a ele, quando está tão fraco. Na verdade, o que estou lhe oferecendo é uma grande jogada, grandes vantagens: a Casa Nobre contra uns míseros dois milhões. Se ganharmos, eles serão transformados em centenas de milhões.

— E se falharmos? Bartlett deu de ombros.

— Talvez eu volte para casa. Talvez possamos combinar um negócio entre a Rothwell-Gornt e a Par-Con. Às vezes a gente ganha, e perde um número de vezes bem maior. Mas esta incursão é boa demais para não ser tentada. Sem vocês, jamais funcionaria. Já vi o bastante de Hong Kong para saber que tem as suas regras especiais. Não tenho tempo para aprendê-las. Por que o faria... quando tenho você?

— Ou Dunross?

Bartlett achou graça, e Gornt não viu maldade nele.

— Você não está em dificuldades, não está vulnerável, ele está... azar dele. O que diz? A incursão está valendo?

— Diria que você é muito persuasivo. Quem lhe deu a informação... e o documento?

— Na terça-feira eu digo. Quando a Struan estiver no chão.

— Ah, tem que fazer algum pagamento para o Sr. X?

— Tem-se sempre que fazer algum pagamento. Sairá do topo, mas não será mais do que cinco por cento... se houver algo mais a ser pago, sairá da minha parte.

— Sexta-feira às duas, Sr. Bartlett? É quando eu decido recomprar e você talvez perca os seus dois milhões... ou conferenciamos e continuamos o ataque?

— Sexta às duas.

— Se continuarmos durante o fim de semana, você cobrirá qualquer risco posterior com fundos posteriores?

— Não. Não precisará de mais. Dois milhões é o máximo. Até sexta à tarde, ou as ações dele estarão lá embaixo e ele estará correndo, desesperado, ou não. Esta não é uma incursão a longo prazo, bem organizada. É uma tentativa única, de uma só vez, de burlar um oponente. — Bartlett abriu um sorriso feliz. — Arrisco dois míseros milhões num jogo que fará parte dos livros de história. Em menos de uma semana, derrubamos a Casa Nobre da Ásia!

Gornt balançou a cabeça, dividido. "Até onde posso confiar em você, Sr. Maldito Incursor, você, com a chave para o Demônio Dunross?" Olhou pela janela e viu uma criança dirigindo um barco a remo por entre os juncos, o mar tão seguro e familiar para ela quanto a terra seca.

— Vou pensar no que disse.

— Quanto tempo?

— Até as onze.

— Desculpe, esta é uma incursão, não um negócio comercial. É agora, ou nunca!

— Por quê?

— Há muita coisa a ser feita, Sr. Gornt. Quero que isso fique acertado agora, ou nunca.

Gornt olhou para o relógio. Havia tempo de sobra. Um telefonema para o jornal chinês certo, e o que quer que lhes contasse estaria nas bancas dentro de uma hora. Sorriu sombriamente consigo mesmo. O seu ás na manga era Havergill. Tudo se encaixava perfeitamente.

Uma ave marinha crocitou e voou para o interior, na direção do Pico, acompanhando alguma onda de calor. Ele a acompanhou com os olhos. Então, deparou com a Casa Grande no topo, branca, contrastando com o verde das encostas.

— Negócio fechado — falou, estendendo a mão. Bartlett apertou-a.

— Ótimo. Isso fica estritamente entre nós?

— Fica.

— Onde quer que deposite os dois milhões?

— No Banco da Suíça e Zurique, em Zurique, conta número 181819. — Gornt tateou no bolso, notando que seus dedos tremiam. — Vou anotar para você.

— Não precisa. A conta está em seu nome?

— Santo Deus, não! Canberra Limitada.

— Canberra Limitada está dois milhões mais rica! E dentro de três dias, com sorte, você será o tai-pan da Casa Nobre! Que tal? — Bartlett abriu a porta e saiu. — Até logo.

— Espere — falou Gornt, espantado. — Deixo você em...