— Não, obrigado. Preciso achar um telefone. Depois, às nove e quinze, tenho uma entrevista com sua amiga Orlanda, srta. Ramos... achei que não faria mal. Depois, quem sabe tire algumas fotos.
Acenou alegremente e se afastou.
Gornt enxugou o suor das mãos. Antes de sair do clube, ligara para Orlanda, mandando que ligasse para Bartlett e marcasse um encontro. "Isso é muito bom", pensou, ainda em choque. "Ficará de olho nele depois que se tornarem amantes, e se tornarão, com ou sem Casey. Orlanda tem muito a ganhar."
Ficou observando Bartlett, invejando-o. Num instante o americano sumira por entre as multidões de Wanchai.
Repentinamente, sentiu-se muito cansado. "É tudo certi-nho demais, arrumadinho demais, fácil demais", disse consigo mesmo. "E no entanto... no entanto!" Com mãos trêmulas, acendeu um cigarro. "Onde foi que Bartlett arranjou aqueles documentos? "
Inexoravelmente, seus olhos se voltaram para a Casa Grande do Pico. Sentia-se possuído por ela, e por um ódio tão imenso, que o fez pensar nos seus ancestrais, em Sir Morgan Brock, a quem os Struans levaram à falência, em Gorth Brock, assassinado por Dirk Struan, em Tyler Brock, cuja filha o traíra. Sem querer, renovou o juramento de vingança que fizera ao pai, que o pai fizera ao pai dele... assim sucessivamente, até Sir Morgan Brock, que, sem um tostão, destruído pela irmã, a Bruxa Struan, paralisado, uma sombra de homem, implorara por vingança, em nome de todos os fantasmas Brock, vingança da Casa Nobre e de todos os descendentes do homem mais malvado que jamais existira.
"Oh, deuses, dêem-me força", orava Quillan Gornt. "Que o americano esteja dizendo a verdade. Terei a minha vingança."
28
10h50m
Por entre um céu ligeiramente nublado, os raios de sol caíam sobre Aberdeen. O ar estava pesado, a temperatura era de trinta e três graus, com noventa por cento de umidade. A maré estava baixa. O cheiro de algas marinhas, peixes podres e baixios de lama aumentava o peso opressivo do dia.
Havia quinhentas ou mais pessoas carrancudas e impacientes, empurrando-se umas às outras, tentando furar o bloqueio das barreiras à frente, erigida pela polícia diante da agência do Ho-Pak. As barreiras permitiam o acesso de uma só pessoa de cada vez. Homens e mulheres de todas as idades, alguns com crianças de colo, atropelavam-se constantemente, ninguém esperando a sua vez, todos tentando mover-se para a frente, para o começo da fila.
— Olhe só para esses cretinos — dizia o inspetor-chefe Donald C. C. Smyth. — Se ficassem na fila, e não se amontoassem tanto, todos passariam mais depressa, poderíamos deixar um policial aqui para manter a ordem, e o resto de nós poderia ir almoçar, ao invés de mandar chamar o pelotão anti-motim. Faça-o!
— Sim, senhor — falou o sargento comissionado Mok, educadamente.
"Ayeeyah", pensava enquanto se dirigia para o carro-patrulha, "o pobre idiota ainda não entende que nós, chineses, não somos demônios estrangeiros burros — ou demônios do mar do Leste — para ficarmos em fila pacientemente, durante horas. Ah, não, nós, pessoas civilizadas, compreendemos a vida, e é cada um por si." Ligou o radiotransmissor da polícia.
— Sargento comissionado Mok! O inspetor-chefe quer um pelotão antimotim aqui, e rapidinho. Estacionem logo atrás do mercado de peixe, mas fiquem em contato.
— Sim, senhor.
Mok suspirou e acendeu um cigarro. Mais barreiras haviam sido levantadas do outro lado da rua, diante das agências de Aberdeen do Blacs e do Victoria, e mais outras diante do Ching Prosperity, dobrando a esquina. Seu uniforme caqui estava amassado, e havia grandes anéis de suor nas suas axilas. Estava muito preocupado. Aquela multidão era muito perigosa, e ele não queria uma repetição da véspera. Se o banco fechasse as portas antes das três, tinha certeza de que o povo destroçaria o local. Sabia que, se ainda tivesse dinheiro lá dentro, seria o primeiro a arrombar a porta para pegar o seu dinheiro. Ayeeyah, pensou, muito grato pela autoridade do Cobra, que fizera chegar às mãos deles todo o seu dinheiro, até o último tostão, pela manhã.
— Danem-se todos os bancos! — Mok resmungou, sem se dirigir a ninguém em especial. — Todos os deuses, que o Ho-Pak pague a todos os seus clientes hoje! Que falhe amanhã! Amanhã é meu dia de folga, portanto que falhe amanhã!
Apagou o cigarro.
— Sargento!
— Sim?
— Olhe ali! — exclamou, ansioso, o jovem detetive à paisana que se aproximava do sargento comissionado Mok apressadamente. Usava óculos e tinha vinte e poucos anos. — Junto do Victoria. A velha. A velha amah.
— Onde? Ah, sim, estou vendo.
Mok observou-a durante algum tempo, mas nada notou de anormal. Então, viu-a atravessar célere a multidão e sussurrar para um jovem valentão, vestindo jeans, que estava encostado a um gradil. Ela apontou para um velho que acabara de sair do banco. Imediatamente, o valentão saiu em seu encalço, e a velha amah foi abrindo caminho, espremendo-se e xingando, de volta ao começo da barreira, de onde podia ver quem entrava e quem saía.
— É a terceira vez, senhor — falou o jovem detetive. — A velha amah indica alguém que saiu do banco para o valentão, e lá vai ele. Dentro de alguns minutos, está de volta. É a terceira vez. Estou certo de que o vi passar algo para as mãos dela, uma das vezes. Acho que era dinheiro.
— Bom! Muito bom, Wu Óculos. Tem que ser um golpe das tríades. A bruxa velha provavelmente é mãe dele. Siga o jovem filho da mãe, e eu vou interceptá-lo pelo outro lado. Não o deixe vê-lo!
O sargento comissionado Mok dobrou a esquina, descendo um beco tumultuado, cheio de barracas, camelôs e lojas abertas, movendo-se cuidadosamente por entre a multidão. Virou noutro beco bem a tempo de ter uma rápida visão do velho entregando algum dinheiro. Esperou até que Wu tivesse bloqueado a outra extremidade do beco, depois adiantou-se, caminhando pesadamente.
— O que está se passando aqui?
— Como? O quê? Nada, nada mesmo — falou o velho nervosamente, o suor escorrendo-lhe pelo rosto. — O que é? Não fiz nada!
— Por que deu dinheiro para esse rapaz, heya? Eu o vi lhe dar dinheiro! — O jovem desordeiro devolveu o olhar de Mok com insolência, sem medo, sabendo que era Kin Bexiguento, um dos Lobisomens, que trazia Hong Kong inteira apavorada. — Ele o está abordando? Tentanto extorquir-lhe dinheiro? Parece um tríade!
— Oh! Eu... eu... eu lhe devia quinhentos dólares. Acabei de sacar do banco, e paguei. — O velho estava evidentemente apavorado, mas continuou: — Ele é meu primo.
Começou a juntar gente. Alguém escarrou e cuspiu.
— Por que está suando tanto?
— Todos os deuses fodam todos os porcos! Está quente! Todo mundo está suando. Todo mundo!
— Porra, é verdade — exclamou alguém.
Mok voltou a atenção para o jovem, que esperava com ar truculento.
— Como se chama?
— Sexto Filho Wong!
— Mentiroso! Esvazie os bolsos!
— Mas não fiz nada! Conheço a lei. Não pode revistar as pessoas sem um manda...
Mok estendeu o punho de aço e torceu o braço do jovem, e ele guinchou. A multidão achou graça. Ficaram calados quando Wu Óculos apareceu, surgido do nada, para revistá-lo. Mok segurava firme Kin Bexiguento. Outra onda de inquietação percorreu os espectadores, ao verem os maços de notas e as moedas.
— Onde arranjou tudo isso? — rosnou Mok.
— É meu. Sou... sou agiota, e estou recolhendo as por...
— Onde fica a sua loja?
— Na... no Terceiro Beco, transversal à Aberdeen Road.
— Vamos lá, vamos dar uma olhada.
Mok soltou o rapaz, que, destemidamente, ainda olhava para ele com raiva.
— Primeiro dê-me o meu dinheiro! — Virou-se para o povo, pedindo apoio. — Vocês o viram tirá-lo de mim! Sou um agiota honesto! Eles são criados dos demônios estrangeiros, e vocês todos os conhecem! A lei dos demônios estrangeiros proíbe que se revistem cidadãos honestos!