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— Devolva-lhe a porra do dinheiro! — berrou alguém.

— Se é um agiota...

O pessoal começou a discutir entre si, e então Kin Bexiguento viu uma pequena abertura no meio do povo, e se jogou nela. A multidão se abriu para deixá-lo passar, e ele correu beco acima, sumindo no trânsito. Mas quando Wu Óculos saiu no seu encalço, ela voltou a se fechar e empurrou-o, ficando um pouco mais ameaçadora. Mok mandou que ele voltasse. Na confusão momentânea, o velho desaparecera. Cansado, Mok falou:

— Deixe o bosta sem mãe ir embora! Era só um tríade... outro bosta de tríade que se aproveita das pessoas que respeitam a lei.

— O que vai fazer com a porra do dinheiro dele? — gritou alguém, do fundo da multidão.

— Vou dá-lo a um asilo de velhas — gritou Mok com rudeza igual. — Vá defecar na orelha da sua avó!

Alguém riu, a multidão começou a se dispersar, e cada um foi cuidar da sua vida. Num instante, Mok e Wu Óculos estavam parecendo pedras num rio, com os transeuntes redemoinhando ao seu redor. Logo que voltaram à rua principal, Mok enxugou a testa.

— Dew neh loh moh!

— É. Por que são assim, sargento? — perguntou o jovem detetive. — Estamos apenas tentando ajudá-los. Por que o velho simplesmente não admitiu que o filho da mãe do tríade estava lhe extorquindo dinheiro?

— Não se aprende sobre turbas nos livros da escola — disse Mok, bondosamente, sabendo que o jovem estava ansioso por ter êxito. Wu Óculos era novo, um dos recém-formados pela universidade que entrara para a polícia. Não pertencia à unidade de Mok. — Seja paciente. Nenhum deles quis ter nada a ver conosco porque somos da polícia, e todos eles ainda acreditam que jamais os ajudaremos, apenas a nós mesmos. Tem sido a mesma coisa na China desde o primeiro policial.

— Mas estamos em Hong Kong — falou o jovem, com orgulho. — Somos diferentes. Somos policiais britânicos.

— É.

Mok sentiu uma friagem repentina. Não queria desiludir o rapaz. "Eu também era leal, leal à rainha e à bandeira quai loh. Aprendi outra coisa. Quando precisei de ajuda, proteção e segurança, não obtive nada. Nem uma só vez. Os britânicos eram ricos e poderosos, mas perderam a guerra para aqueles Demônios do Mar do Leste. A guerra os desmoralizou, os humilhou e pôs os grandes tai-pans na Prisão Stanley, como ladrões comuns... até mesmo os tai-pans da Casa Nobre e do Grande Banco, até mesmo Sua Excelência, o governador... trancafiou-os como criminosos comuns, em Stanley, com todas as suas mulheres e filhos, e tratou-os como se fossem pedaços de cocô!

"E após a guerra, embora houvessem humilhado os Demônios do Leste, nunca recuperaram o seu poder, ou o seu prestígio.

"Agora, em Hong Kong e em toda a Ásia, não é mais a mesma coisa, e nunca será como antes. Agora, a cada ano que passa, os britânicos ficam mais pobres e menos poderosos. E como poderão proteger a mim e a minha família dos malfeitores, se não forem ricos e poderosos? Pagam-me uma ninharia, e tratam-me como comida de cachorro! Agora, minha única proteção é o dinheiro, dinheiro em ouro para podermos fugir, se for o caso... ou dinheiro em terras e casas, se não for necessário fugir. Como posso educar meus filhos na Inglaterra ou nos Estados Unidos sem dinheiro? Será que o governo, agradecido, pagará? Nem uma merda duma moeda, e no entanto querem que arrisque a minha vida para manter as ruas livres dos merdas dos tríades, dos batedores de carteiras e montes de bosta leprosos e amotinados!"

Mok estremeceu. "A única segurança para a minha família está nas minhas mãos, como sempre. Oh, como são sábios os ensinamentos dos nossos ancestrais! O comissário de polícia foi leal comigo, quando precisei de dinheiro, mesmo para a passagem de terceira classe, para o meu filho ir estudar nos Estados Unidos? Não, mas o Cobra foi. Emprestou-me dez mil dólares, com juros de apenas dez por cento, e então meu filho viajou como um mandarim, de avião, pela Pan American, com dinheiro para pagar três anos de anuidade escolar, e agora é arquiteto formado com Cartão Verde, e no mês que vem terá um passaporte americano, e depois poderá voltar para cá, e ninguém poderá tocar nele. Poderá ajudar a proteger a minha geração e protegerá a sua própria, e a do seu filho, e a dos seus netos!

"É, o Cobra me deu dinheiro, pago há muito tempo com juros integrais, tirados do dinheiro que me ajudou a ganhar. Serei leal ao Cobra... até que mude de rumo. Um dia mudará, todos os quai loh mudam, todos os cobras mudam, mas agora sou um Grande Dragão, e nem os deuses nem os demônios, nem o Cobra em pessoa pode ferir minha família ou minhas contas bancárias na Suíça e no Canadá."

— Vamos indo, é melhor voltarmos, jovem Wu Óculos — disse, bondosamente. E quando chegou junto às barreiras, contou ao inspetor-chefe Smyth o que acontecera.

— Ponha o dinheiro na nossa caixinha, sargento — falou Smyth. — Encomende um grande banquete para os nossos rapazes, hoje.

— Sim, senhor.

— Foi o oficial detetive Wu? O tal que quer entrar para o sei?

— Sim, senhor. Óculos é muito dedicado. Smyth mandou chamar Wu e elogiou-o.

— Bem, e onde está a velha amah?

Wu a indicou. Viram-na olhar para a esquina que o valentão dobrara, esperando, impaciente. Depois de um minuto, ela saiu de dentro do aglomerado de gente e se afastou, resmungando obscenidades.

— Wu — ordenou Smyth —, siga-a. Não deixe que o veja. Ela o levará ao sacaninha que fugiu. Tome cuidado, e quando ela chegar lá, ligue para o sargento.

— Sim, senhor.

— Não corra nenhum risco... talvez possamos pegar o bando todo. Tem que haver um bando.

— Sim, senhor.

— Pode ir. — Eles o observaram sair atrás da velha. — Esse rapaz vai ser bom. Mas não para nós, hem, sargento?

— Não, senhor.

— Acho que vou recomendá-lo para o sei. Talvez... Subitamente fez-se um silêncio ominoso, depois ouviram-se gritos e um rugido irado. Os dois policiais dobraram correndo a esquina. Na sua ausência, a turba afastara parte das barricadas, dominando os quatro policiais, e agora estava invadindo o banco. O gerente Sung e seu assistente tentavam em vão fechar as portas, contra a turba vociferante. As barricadas começaram a ceder.

— Chame o pelotão antimotim!

Mok saiu correndo para o carro-patrulha. Destemidamente, Smyth correu para a frente da fila, com o seu megafone. O tumulto abafou sua ordem para pararem de brigar. Mais reforços vieram correndo do outro lado da rua. Rápida e eficientemente, acorreram em auxílio de Smyth, mas a turba ganhava forças. Sung e seus caixas bateram a porta, mas ela foi aberta de novo pela violência do povo. Então, surgiu um tijolo do meio da multidão, que quebrou uma das vidraças. Houve um rugido de aprovação. As pessoas da frente estavam tentando sair do caminho, e as de trás estavam tentando chegar à porta. Mais tijolos foram arremessados contra o prédio, depois pedaços de madeira tirados de um edifício em construção próximo. Outra pedra varou a vidraça, que se estilhaçou totalmente. Rugindo, a turba avançou. Uma moça caiu e foi pisoteada.

— Vamos — berrou Smyth —, ajudem-me aqui! Agarrou uma das barreiras e, junto com quatro outros policiais, usou-a como escudo, empurrando-a contra a frente da turba, forçando-a a recuar. Fazendo-se ouvir acima do vozerio, berrou para que eles usassem os ombros, e lutaram contra a multidão enlouquecida. Outros policiais seguiram-lhe o exemplo. Mais tijolos foram arremessados para dentro do banco, e então começou a gritaria:

— Matem os malditos ladrões do banco! Matem-nos! Roubaram o nosso dinheiro...

— Matem os sacanas...

— Quero o meu dinheiro...

— Matem os demônios estrangeiros...

Smyth viu que mudou o humor daqueles que estavam perto dele, e seu coração parou de bater quando eles repetiram o grito, se esqueceram do banco e estenderam as mãos na sua direção. Já tinha visto aquele olhar antes, e sabia que era um homem morto. A outra vez fora nos distúrbios de rua em 56, quando duzentos mil chineses subitamente promoveram desordens violentas e sem sentido em Kowloon. Teria sido morto por eles, se não tivesse nas mãos uma arma potente. Matara quatro homens, e abrira uma trilha para a segurança. Agora, não tinha armas e estava lutando pela vida. Arrancaram-lhe o chapéu. Alguém o agarrou pelo cinto e meteu-lhe um soco na virilha. Levou outro soco no rosto, garras buscavam-lhe os olhos. Destemidamente, Mok e outros meteram-se no meio da confusão para salvá-lo. Alguém atingiu Mok com um tijolo, outro com um pedaço de madeira, que abriu um corte feio no seu rosto. Smyth foi tragado, os braços e as mãos tentando desesperadamente proteger a cabeça. E então o camburão do pelotão antimotim, com as sirenes tocando, dobrou rapidamente a esquina. A equipe de dez homens caiu brutalmente sobre a multidão, e arrancou Smyth de lá. O sangue escorria de sua boca. Seu braço esquerdo pendia, inutilizado.