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— Está bem, senhor?

— Estou, pelo amor de Deus, levantem de novo as malditas barreiras! Afastem aqueles filhos da mãe do banco... mangueiras!

Mas as mangueiras não foram necessárias. Ao primeiro ataque violento do pelotão antimotim, a frente da turba murchara, e agora o resto se afastava para uma distância segura e ficava ali parado, de cara fechada, alguns deles ainda gritando obscenidades. Smyth agarrou o megafone. Em cantonense, falou:

— Se alguém chegar a vinte metros daqui, será preso e deportado. — Tentou recobrar o fôlego. — Se alguém deseja visitar o Ho-Pak, entre na fila a cem metros de distância.

A turba carrancuda hesitou, depois, enquanto Mok e o pelotão antimotim se adiantaram velozmente, recuou às pressas e começou a se afastar, pisando uns nos outros.

— Acho que o maldito do meu ombro está deslocado — falou Smyth, e praguejou obscenamente.

— O que vamos fazer com esses filhos da mãe, senhor? — perguntou Mok, sentindo muita dor, respirando pesadamente, a face ferida e sangrando, o uniforme rasgado.

Smyth segurou o braço para suavizar a dor crescente, e olhou para o outro lado da rua, para a multidão carrancuda e embasbacada.

— Mantenha o pelotão antimotim aqui. Mande vir outro de Aberdeen Oeste, informe a central. Onde está o diabo do meu chapéu? Se botar as mãos no filh...

— Senhor! — chamou um dos seus homens. Estava ajoelhado junto à moça que fora pisoteada. Era uma garota de bar, ou de cabaré: tinha aquele ar triste, doce, ah, tão duro, jovem e velho ao mesmo tempo! O sangue escorria da sua boca, e ela respirava estertorosamente.

— Deus, chamem uma ambulância!

Enquanto Smyth olhava, impotente, a moça sufocou no próprio sangue, e morreu.

Christian Toxe, editor do Guardian, rabiscava algumas anotações, o telefone colado ao ouvido.

— Como era o nome dela, Dan? — perguntou, abafando o vozerio da redação.

— Não tenho certeza. Uma caderneta de poupança dizia Su Tzee-Ian — disse Dan Yap, o repórter do outro lado da linha, em Aberdeen. — Havia quatro mil trezentos e sessenta dólares nela... a outra estava no nome... Espere aí, a ambulância acaba de sair. Está ouvindo direito, Chris? O tráfego aqui está intenso.

— Estou. Continue. A segunda caderneta de poupança?

— A segunda caderneta estava no nome de Tak H'eung fah. Exatamente três mil, nessa.

Tak H'eung fah parecia evocar alguma lembrança.

— Algum desses nomes lhe diz alguma coisa? — perguntou Toxe. Era um homem alto e amarrotado, no seu minúsculo escritório desmazelado.

— Não. Exceto que um deles quer dizer Glicínia Su, e o outro Flor Fragrante Tak. Era bonita, Chris. Talvez fosse eurasiana...

Toxe sentiu uma repentina estocada de gelo no estômago, ao lembrar das suas três filhas, de seis, sete e oito anos, e da sua linda mulher chinesa. Tentou empurrar aquela cruz perpétua para o recesso da sua mente, a preocupação secreta quanto ao acerto de misturar o Leste e o Oeste. "O que o futuro lhes reserva, às minhas queridas, neste mundo podre, nojento, preconceituoso?"

Com esforço, voltou a concentrar-se.

— É um bocado de dinheiro para uma dançarina de cabaré, não acha?

— Acho. Eu diria que tinha um protetor. Uma coisa interessante: na sua bolsa havia um envelope amassado, datado de umas duas semanas atrás, contendo uma carta de amor melosa. Estava endereçado a... espere aí... a Tak H'eung fah, apartamento 14, Quinto Beco, Tsung-pan Street, em Aberdeen. Era sentimental, jurava amor eterno. Mas escrito por pessoa instruída.

— Em inglês? — perguntou Toxe, surpreso, anotando rapidamente.

— Não. Em caracteres. Havia algo na escrita... podia ser um quai loh.

— Arranjou uma cópia?

— A polícia não deix...

— Arranje uma fotocópia. Implore, peça emprestado ou roube uma fotocópia, a tempo de sair na edição da tarde. Gratificação de uma semana de salário, se conseguir.

— Em dinheiro, hoje à tarde?

— Está bem.

— Já a tem.

— Tem assinatura?

— "Seu único amor." "Amor" está escrito em inglês.

— Sr. Toxe! A senhora editora na linha 2! — avisou a secretária inglesa pela porta aberta. Sua mesa ficava logo do lado de fora da divisão de vidro.

— Ah, Deus, eu... ligo para ela depois. Diga-lhe que estou com uma história e tanto estourando. — Depois, falando de novo ao telefone: — Dan, fique com esta história... grude-se na polícia, vá com eles para o apartamento da moça morta, se é que é o apartamento dela. Descubra quem é o proprietário, quem é a família dela, onde mora. Depois ligue de novo para mim! — Toxe desligou e chamou o seu chefe de redação. — Ei, Mac!

O homem esguio, grisalho e azedo levantou-se da sua escrivaninha e foi entrando.

— Sim?

— Acho que devemos fazer uma edição extra. Manchete... — rabiscou num pedaço de papel. — "Turba mata Flor Fragrante!"

— Que tal "Turba assassina Flor Fragrante"?

— Ou "Primeira morte em Aberdeen"?

— "Turba assassina" é melhor.

— Tudo bem, é isso aí. Martin! — chamou Toxe. Martin Haply levantou os olhos do seu trabalho e veio juntar-se a eles. Toxe correu os dedos pelos cabelos, enquanto lhes contava o que Dan Yap relatara. — Martin, escreva mais o seguinte: "A bela jovem foi esmagada pelos pés da turba... mas quem foram seus verdadeiros matadores? Será um governo incompetente, que se recusa a regular o nosso sistema bancário ultrapassado? Os matadores serão aqueles que começaram os boatos? A corrida ao Ho-Pak será tão simples quanto parece?" E continue por aí.

— Já saquei.

Martin Haply abriu um sorriso e voltou à sua mesa, na sala principal. Engoliu uma xícara de café frio, num recipiente de plástico, e começou a datilografar, a mesa cheia de pilhas de livros de consulta, jornais chineses e boletins da Bolsa de Valores. Os teletipos soavam ao fundo. Alguns estagiários e contínuos silenciosos entregavam ou apanhavam textos.

— Ei, Martin! Qual a última da Bolsa?

Martin Haply discou um número sem olhar para o aparelho, depois respondeu ao editor:

— Ho-Pak desceu para 24,60. Baixou quatro pontos, de ontem para hoje. Struan baixou um ponto, embora tenham sido compradas muitas ações. Hong Kong Lan Tao subiu três pontos... a história acaba de ser confirmada. Dunstan Barre sacou o dinheiro deles ontem.

— Foi? Então você estava certo de novo. Merda!

— O Victoria baixou meio ponto... todos os bancos estão nervosos, e não há compradores. Corre um boato de que uma fila está se formando do lado de fora da sede do Blacs e do Victoria, na zona central.

Os dois homens soltaram exclamações abafadas.

— Mande alguém ir verificar no Vic!

Mac saiu apressado. "Meu Deus", pensou Toxe, com o estômago embrulhado. "Meu Deus, se começar uma corrida ao Vic, o diabo da ilha inteira vai desabar, e o diabo das minhas economias junto com ela."

Recostou-se na sua velha cadeira e pôs os pés em cima da mesa, adorando o seu trabalho, as pressões e a urgência.